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Wuthering

Chove...

Terçafeirei a madrugada de ventos uivosos e chuvas torrencientas, aninhando-me na minha fonte permanente de calor. Mas ela, a minha fonte, ficou com calor e correu comigo. Olhei a noite através da vidraça, por sobre o cartaz que diz “Vende-se” para informação de possíveis aves letradas que eventualmente façam voo pairado naquele nível. Depois urinei e flatonitruei a madrugada do meu wuthering height, sem culpas ou, no máximo, com vagas culpas e idióticos risos de volta para o meu aninhar – logo repelido. Agora já é uma manhã chuvosa. Humor de má catadura, penso em voz alta: “Que vida a minha, porra!…”

RIP

Então, Agustina Bessa-Luis deixou hoje este vale de lágrimas. Viveu noventa e seis anos e, penso, terá partido com a mesma serenidade no rosto, tal qual imaginei no rosto da Doris, que com a mesma idade a precedeu há três semanas. O que elas têm a ver uma com a outra? Muito, na minha análise de admirador de ambas. Uma, Escritora, contista e roteirista de inegáveis valores, outra, Atriz e cantora de valores inegáveis. Não estou triste, contudo. As duas não se ralam mais com o esculhambo que está este mundo…

Queijos e Vinho

Brie, Gouda, Gorgonzola, vinho tinto do vale do Dão. Eu degustava enquanto ela admirava meu degustar e falava das coisas boas de recordar. Porque as ruins não combinam com o alegre espírito dos queijos e vinhos. Ela detesta queijo e ressalta a vantagem – eu posso banquetear-me com as porções que seriam dela. Não dividimos o queijo, mas sobra a divisão das memórias contidas em todos os cinquenta e seis anos do nosso relacionamento, que serão completados ao final do mês que amanhã se inicia.

Acho que preciso dormir…

Vegetais

Há pouquinho tempo eu recebi a incumbência de passar no hortifruti aqui próximo e trazer, entre outros itens, um raminho de coentro. Mais que normal eu chegar a casa com um raminho de salsa; Junto com a gozação, fui lembrado que eu tenho e devo usar minha faculdade de falar, para perguntar no ato de escolher o produto… Eu prometi que sim e agora há menos de uma hora voltei ao dito verdureiro, de onde saí ufano com um belo raminho de salsa que, no meu caminho, forças ocultas transformaram em coentro, pois era o que tinha quando cheguei a casa.

Desisto, ponto final.

 

Nostalgia

Graceland radio em background no meu L.T., enquanto, já sonolento, vasculhava os labirintos da minha pensatrix na tentativa de encontrar algum mote para um texto. A voz inconfundível de Elvis acabou vindo ao meu encontro, afirmando ser o que eu procurava. Aceitei, sintonizei meu espírito no espírito da música e deixei-me arrastar para o espaço, numa nostálgica viagem de regresso ao longo da minha já percorrida trajetória de vida. A profusão de temas que me ocorreram em torrente, submergiu-me. Optei por dormir…

Disseram-me tantas verdades

que se são verdades não sei;

A verdade de certas verdades

na vida nunca encontrei…

 

Dize-me qual é a tua verdade

para saber o que ela contém!

Com a verdade da outra metade,

definirei eu a minha também?

 

A verdade é, pois, meu conflito!

Será que ela existe, ou é um mito

e por isso jamais a encontrei?

A verdade sobre a verdade quero ter

ainda na vigência deste meu viver…

Mas pelo jeito, sem sabê-la me finarei.

Doris Day nasceu no mesmo ano da minha mãe. Todavia, nada tinha de maternal a minha admiração e afeto pela belíssima loura de voz límpida, corpo esguio de modelo e atrativa presença e performance cênica nos filmes que eu dificilmente deixava de ver. Havia já algum tempo que a seguia no Twitter, embora ela muito raramente postasse. Era, penso, uma forma de me imaginar “no seu círculo”, como se tal fosse possível. Enfim, Doris resolveu sair de cena e ir embora antes de completar os 100. Fique em paz…

 

Mãe

Revezo-me comigo próprio na tarefa de manter-me ativo, mesmo que aparentemente improdutivo. Apelamos, eu e aquele meu outro eu, à alma, que sabemos resiliente, porque o corpo, este corpo que eu tenho só quer mesmo é dormir. E o sono é, alguém terá dito, nada mais que a antecâmara da morte.

Nesta semana de homenagens às mães eu também lembrei da minha. Se fosse viva, ela teria completado 97 e certamente estaria muito mais preocupada comigo do que com ela própria. Diria que estou magrinho e me mandaria “comer e beber prá frente” que esta vida são dois dias! Penso que também me diria que fazer uma curta sesta feito o meu pai é benéfico, mas dormir muito faz mal. Tá, mãe, eu vou resistir e não cair no sono enquanto leio…

 

The Studio

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Início da madrugada curitibana e os metálicos fortíssimos da guitarra amplificada através de efeitos de distorção, seguiam o absoluto e grave caminho das harmônicas batidas, precisas e bem definidas do excelente contrabaixo, enquanto a voz do crooner se sobrepunha a pleno pulmão e eficiente sistema de som. Tudo isso, envolvido num envelope rítmico riquíssimo jorrando das baquetas de um baterista de qualidade admirável!

No meio daquele temporal harmônico e de percussão de altíssimos decibéis contido no espaço relativamente exíguo do estúdio, lá estava eu, mero espectador-ouvinte-acompanhante do meu genro, que pilotava a guitarra mais toda aquela parafernália de pedais seletores de boosters, vibratos e multiplosefeitosoutros…

Nos meus remotíssimos tempos de guitarrista amador de fim de semana, não havia como sequer imaginar que um dia se faria rock’n roll heavy metal de efeitos estridentes e ainda assim conservando musicalidade e arte. Covers que eramos dos melodiosos “Shadows”, dos beatles e outros grupos desse tipo, com incursões pelo rock’n blues da época, sem estridência e com mais moderados decibéis, tive dificuldade em adormecer, ainda sacudido pela performance de quatro puros amadores de surpreendente qualidade, brincando num estúdio de gravação…

 

Youtubing

Na falta de criatividade para gerar textos, poéticos ou não, que passem no controle de um mínimo de qualidade para alimentar o Blog, venho dedicando tempo até demais, explorando nos canais do youtube matérias de outros interesses pessoais. Especialmente música, instrumentos, aeronáutica, tecnologia em geral… Reconheço que esta fase desviou-me das leituras, para não falar do abandono da fotografia. No entanto, os temas envolvem-me e tomam-me por inteiro, além de me empurrarem o espírito de volta à juventude. Há controvérsias, todavia, pois a minha +quetudo afirma que eu nunca estive tão chato.

Vi o filme “Rock around the clock” nos idos de 57 ou 58, não estou certo, mas lembro daquela trepidante loucura com o ritmo do Billy Halley (and his comets). Tantos anos depois, reitero a minha admiração e preferência pelas canções maravilhosas dos “Platters”, musicalmente o ponto alto do filme. Delicio-me vendo e escutando o grupo repetir “Only You”, “The great pretender”, “Smoke gets in your eyes” over and over sem ficar enfadado!

Tantas vezes eu vi os vídeos, que observei um detalhe aparentemente sem importância, mas que me fez pensar: O Tony Williams, magnífico tenor que liderava o conjunto de vozes, tinha em falta um dente canino direito. Os tempos eram mesmo difíceis e o filme foi o que os tirou da penúria e lançou as virtudes do grupo para a fama mundial. Em sua atuação no filme “Europa à Noite” pude notar, num close, que a dentição do cantor estava completa e tão brilhante quanto seu formidável sucesso…