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Duvido-me

 

Pergunto-me com frequência

da minha vida a realidade

Se é embuste minha existência

ou se existo mesmo, de verdade.

 

Tenho por dúvidas coisas tais

que me belisco ao acordar

Questiono-me por demais,

mas respostas, eu não sei dar…

Gary

Quem somos

 Porque viemos

 Nalgum lugar apercebi

Que existia razão

O sonho de uma existência

Um sentimento rodeado de paixão

Do ponto de partida me afeiçoei

Do ponto de partida me aperfeiçoei

Pelo caminho desvendo olhares

Nesta estrada encontro lugares

Ao desenhar desmistifico

Ao pintar um mexerico

Já posso dizer

Que desta procura

Encontrei um lazer”

(Gary Richard)

 

****

Gary procura a Arte nas palavras, no desenho, nas colagens, na pintura. Enquanto o faz, surpreende-se encontrando a si próprio no mais recôndido da sua Alma. Nesses encontros, depara-se, encantado, com a criatividade incólume e atraente, como uma maravilha muito sua que logrou sobreviver…

 

Vinha, Ciência,

Parabolica

Se o tema de alguma conversa for vinhas, o que emerge na mente é a inesquecível infância e as férias plenas de recordações, diversão e nem tão poucos medos, nas vinhas do severo avô Oliveira, debruçadas sobre os sucalcos esculpidos a braço nas acidentadas cercanias de afluentes e subafluentes do rio Douro! Setenta anos depois, aqui, nesta pequena vinha em topografia muito menos acidentada ao sul do Tejo, as videiras continuam a exigir os mesmos procedimentos, tratamentos e preocupações daquela época. O não usual, é que o mesmo homem que poda, enxofra, sulfata e acaricia todas essas fiadas de plantas viníferas, também projeta, constroi, e ergue sozinho, a ferro, fogo, imensa paciência e paixão, essas estranhas estruturas com que escuta longínquos sinais do espaço, ou bem mais terrenos sinais de voz e morse entre estações de rádio, usando a superfície lunar como reflector. O viticultor cientista, de admirável e aparentemente enesgotável conhecer eletrônico, que tudo produz com suas próprias mãos e nada compra feito salvo componentes de eletrônica, é também um artista na fabricação metalo-mecânica. Confesso-me orgulhoso por ser esse fulano tão especial, meu cunhado…

 

Chove

Chove

A chuva, finalmente! Havia muito que a não via e dela saudade sentia, sabia? E esse barulhinho da chuva apazigua alguns fantasmas que, aqui ou ali, me saem ao caminho, me atormentam e alimentam uma indesejável sensação de stress. Não mais suporto pressões, porque foram sobre mim, ao longo da vida, permanentes e esmagadoras, as pressões. Por pressões tomo também os empurrões, puxões, agressões…

De viver sob stress

ninguém carece

ninguém merece

Ou até merecerão

aqueles sem coração

sem alma, sem perdão…

A vindima

Agustina

O texto da Agustina colide com a guitarra, os dois colidem com ânsia de viajar, que no entanto colide de volta com a vontade de ficar em casa com a guitarra e a Agustina. Por dois dias, ajudei na fisicamente esforçada tarefa da vindima na vinha da minha irmã – asseguro ter sido uma violência para quem submeteu a coluna vertebral, por quase três décadas, às agressões pelas atividades a bordo de plataformas de perfuração de poços de petróleo no mar. No terceiro dia da colheita eu já tinha arrumado maneira de lá não aparecer…

Imaginar…

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Penso que por tanto praticar, conservo inalterada a capacidade de imaginar. No que os anos fluem, vejo a minha pele engelhar-se, sinto dos meus ossos os queixumes, músculos que se vão relaxando ou atrofiando; Mas meu mundo interior ainda é, como sempre foi, dominado pelos mais dinâmicos, irrealizáveis e absurdos pensamentos. E eles, os meus pensamentos, mantêm-se livres como nunca!…

 

Ante mim tenho montanhas

escarpadas e tamanhas

que não poderia escalar

Mas escalo-as no pensamento

e, mais ligeiro que o vento,

no seu topo logro pousar…

 

Lá de cima enxergo o mundo!

Vejo rios e vales lá ao fundo

até muito além do imaginário!

Se tão poderoso é o meu pensar,

O que me impede de voar, pairar,

sobre esse mundo extraordinário?…

Jessi

Jessi

Os “Myth Busters” sempre cativaram minha atenção e respeito pela proposta ousada e interessantíssima de engenharia para comprovar teorias e mitos alimentados pelo cinema, livros, ou mesmo por lendas populares. Muitas das suas experiências continham grande potencial de risco e eu admirava o trabalho de identificação desses riscos e sua análise operacional antes que as experiências fossem postas em prática. Depois, tinha a fase de construção, em que verdadeiros artistas em trabalho no metal, habilíssimos com ferramentas manuais, nos surpreendiam com suas criações. Um desses metalworkers era Jessi Combs. Mulher lindíssima, era admirável na fabricação metálica, na mecânica, na ousadia como piloto profissional de várias modalidades de corridas de carros. Detentora de dois records femininos de velocidade em terra, com a última marca beirando as 500 milhas/h (cerca de 800Kms/h) em veículo de propulsão a jato. Tentanto superar o próprio record na semana passada, Jessi encontrou, num deserto de Oregon, seu glorioso vanishing point para outra dimensão…   RIP, Jessi!

 

(foto na net )

Papo Capilar

Os cabelos seguiram em crescimento aqui no hemisfério norte, no exato ritmo do habitual em latitudes abaixo do equador. Gosto de usar o cabelo curto e que mo cortem e ajustem empregando a tradicional tesoura como ferramenta, no lugar das tosqueadoras modernamente em uso. Vagueando desacompanhado por um centro comercial, deparou-se-me um belo salão, grande, de nome sugestivo; Através das vidraças, observei os profissionais, que trajavam a rigor seus uniformes sugerindo sofisticação, prestígio e competência. Depois, descobri uma tabela de preços surpreendentemente convidativa. Convencido, entrei finalmente, no que fui recepcionado por um dos bem trajados fígaros e imediatamente conduzido à modernosa e cômoda poltrona. Aos costumes, eu disse querer “curtinho, por igual, cerca de metade do volume existente”. Anuíu o mancebo e, antes que piscasse meus olhos, usando uma daquelas brilhosas tosqueadeiras, abriu-me uma picada até ao alto da cabeça! Perdi o fôlego, engoli em seco e comecei a suar, maugrado a perfeita climatização. O estrago estava feito – nos tempos da Escola de Aplicação Militar, chamávamos esse estilo de “ECA”. Com estômago revolvido, paguei e agradeci, como se brindado houvesse sido pelo mais elevado nível de serviço já experimentado na minha vida…

 

 

Amazônia

Eis que as velhas potências coloniais estendem significativamente suas unhas em direção à riquíssima Amazônia brasileira, que ciclicamente e num crescendo, desde há muitas e muitas décadas sofre os efeitos de secas com altas temperaturas e baixa humidade – tal e qual como as que se verificam na Grécia, Turkia, Portugal, Espanha, Itália, Califórnia…Resultando em gigantescos incêndios florestais, ateados por incúria, ou propositais por criminosas razões de interesse, ou por pirômanos inqualificáveis.

O que a Amazônia precisa é de ajuda em meios de combate, do tipo da prestada aos países europeus – entre os quais figuram o meu próprio, na qualidade de um dos mais habituais e conhecidos incendiários do meio ambiente, com enorme e vergonhosa perda de vidas – humanas e silvestres. Muito longe de uma preciosa ajuda, há uma orquestrada e oportuna ofensiva política contra uma eleita administração federal de cor política diferente daquela que ao longo de desassete anos não conseguiu evitar esse tipo de terrífica devastação florestal.

Em quarenta e quatro anos vividos no Brasil, não lembro, fora das épocas chuvosas, de uma floresta amazônica completamente livre do flagelo das queimadas. Na última década, é claro que tudo se agravou pelas mudanças climáticas, que incluem diminuição das chuvas e aumento das temperaturas.

Felicidade, sim.

Instrumentos

Dou bom dia para mais um dia dos meus dias; Para a luminosidade que meus olhos enxergam para além da luminosidade verde dos olhos da minha amada; Para a pretice brilhosa da minha guitarra em muda espera sobre seu esperadouro! Encho o pulmão de ar, que expiro em seguida com ruido generoso e suis generis de quem sorri e se acha em vivaz felicidade. Surpreendo-me, pois, a alardear-me uma felicidade muito minha e sem fim, que o será, sabemos, tão somente  na vigência da sua duração. A vida últil da felicidade, não costuma ser das mais longas no estado de espírito, que dizer no estado real…Especialmente nestes tenebrosos tempos de assustadores horizontes. Mas hoje, reservo-me o direito de não olhar para os cumulo-nimbus, no intuito de alongar esse meu raríssimo estado de felicidade…