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Voltei…

Bom dia, Sol. Bom dia, vida! Cada gesto meu parece um teste – o meu silencioso levantar e caminhar em passinhos curtos para fora do quarto, como que verificando a cada passo o funcionamento e capacidade de ser suportado pelas pernas. Descubro que meus olhos conseguem distinguir o caminho entre as sombras da madrugada, acionar um interruptor, alcançar a câmera D5. Minhas mãos permanecem destras para instalar a teleobjetiva e preparar o equipamento enquanto espero o poderoso surgir na elevação que tenho ante mim. Depois, disparo enquanto reverencio a Natura que fervilha de movimento e sobrevivência, no voo de centenas de andorinhas, nos humanos que madrugam a caminho dos seus meios de vida tão ameaçados…

Pesadelo

Amanheci meu domingo envolvido em sonhos ruins, tardios e doentios. Por uma última vez, sentei na cama como repetidamente o havia feito durante a madrugada. Cada sonho, bom ou mau, é um elo de uma corrente emanilhada a uma âncora unhada ao leito da minha vida. Hora o leito é lodoso e solta a âncora a arrastar-me com a força dos ventos em direção às incertezas e inseguranças, hora se finca firmemente em mais sólidas e credíveis formações. Nas minhas noites mais intranquilas, a insônia força-me a um jogo aleatório de escolha de um dos muitos sonhos contidos nos elos dessa amarra. Nesta tempestuosa madrugada, o ferro desunhou e fui arrastado para o pesadelo vivido e que há 47 anos não esqueço, não perdoo…

Espuma

Rolam e espumam fracas vagas,

contra as nuas rochas na baixa-mar

Eu as desnudo com meu olhar

triste e tão sombrio quanto as fragas…

sobre as quais me quedo a meditar

enquanto a preamar não as galgar

e meus sapatos começar a molhar…

Sinto saudade do futuro, quem diria

pois não sou mais o que terei sido

ou do que acaso me terei convencido

de tão especial que me unia à poesia

Mas oh tristeza! Sinto-me desiludido…

Passo lento

Caminhada matinal sentindo aquela dificuldade que tão recentemente passei a enfrentar. Nina largou da minha mão e afastou-se de mim no seu ritmo de alguns 5kms/hora que eu não mais consigo fazer. O meu passinho hesitante permite-me, por outro lado, ser mais observador do que me rodeia. Por exemplo, camisetas com frases estúpidas ou inteligíveis, ou bem-humoradas tais como: “Rola Cansada Futebol Club” entre os velhos do carteado. Vejo uma vistosa cadelinha com o nome bem visível na trela – Holly era o nomezinho da bichinha que acabara de largar um perfumado presente na calçada, que o bípede que a pastorava tratou, resignadíssimo, de recolher para um contentor próprio que portava. Imaginei que o homem pastorava caninos profissionalmente, porque dele não escutei nenhuma praga do tipo “ HOLLY SHIT!”, que até caberia no momento e que mereceria todo o meu apoio. O que não falta é cagão de calçada, sendo que boa parte dos dejetos são pelos canídeos largados e depois pisados au hasard por mim ou por ti, enquanto de olhar vagueado pelas “atraências” passantes, embasbacantes e impossíveis para quem atingiu a terceira dentição…

Recuo

Conforme avanço na idade, recuo na capacidade. Sequer sou capaz de segurar amizades, que surpreendo perdidas porque por mim não foram nutridas. Ou por razões outras que preferi chamar de “desconhecidas”. Agora eu sou uma outra personalidade à qual retirei parte da racionalidade que sempre disse a mim próprio possuir. Se racionalidade possuía ou não, não sei e nem mais faço questão. Dou voz ao meu combalido e fibrilado coração. Ele sim, merece especial atenção…

“Fiquemcasa”

Voltei a casa com um ramo de flores;

As Rosas, acredito, mitigam as dores

e poderão alegrar nosso convívio…

A chama da relação enfraqueceu,

o silêncio é o que mais prevaleceu

entre estas paredes, dia após dia, sem alívio…

Sexta

Santa Sexta com dia glorioso, caminhada em passadas medicinais com cenário de encher a alma de agradecimento e gentileza. Agradecimento por ainda ter pernas para caminhar, pulmão para respirar, coração batendo ainda que arrítmico, gentileza para gerar gentileza por onde as passadas me conduzem…

Quaresma

Acabei de assistir a Orquestra e Coros da Gulbenkian no seu magnífico “Paixão Segundo São Mateus” de Bach. Na semana da Quaresma, o concerto acabou por arrastar-me, vil descrente mas melômano apaixonado por música antiga, para os tempos de criança nas poucas oportunidades que a vida me deu para estar presente e viver as delícias da quadra na milenar Sta. Maria de Salzedas, berço dos meus pais. Ainda soam e repercutem ao longo dos túneis da minha memória, a música da banda da aldeia e os foguetórios de Aleluia e do domingo de Páscoa, as doceiras com as gostosuras do melhor das tradições em seus tabuleiros, que incluíam amêndoas doces, as cavacas, o trigo amarelo, os biscoitos. As longas missas solenes na majestosa e imensa igreja do Convento, eram cantadas por alguns incríveis músicos-cantores locais e parte da banda e recordo a para nós velha senhora das antiquíssimas tulhas do Convento, do alto da sua ilustre figura, pilotando com maestria os complicados teclados, inúmeros pedais e registos manuais do órgão sem idade. Durante todo o tempo, homens do povo revezavam-se pedalando o pesado fole que fornecia o ar com energia suficiente para que as notas fossem geradas e fluíssem através dos tubos do velho instrumento…

Fios Da Escrita

Quem gosta e sente a poesia, sabe que a poesia conta, no universo da literatura, com uma massa reduzida de leitores que a apreciem. Mas, quem gosta e sente a poesia, não deixa de criar e publicar cotidianamente em blogs e páginas sociais na internet, esperando que um ou outro poeta leia, goste e, suprema alegria, diga que gostou. A modernidade brindou-nos com essa modalidade de expor as estrofes que produzimos, sem nos lançarmos à aventura pelos difíceis caminhos da publicação em livro. Aos que, como eu, adoram a poesia e se atrevem a, em repentes de alma, dar à luz textos poéticos de maior ou menor valor literário, recomendo a leitura de “Os fios Da Escrita”, ensaios literários do Poeta e Escritor Adalberto de Queiroz, membro da Academia Goiana de Letras. Seguindo os fios, percorreremos cerca de 300 páginas de excelentes artigos sobre poetas e escritores brasileiros e estrangeiros, sonantes nomes de celebridades que bem conhecemos, outros eventualmente mal ou menos conhecidos, o que faz da publicação de Adalberto Queiroz, na minha opinião, para além da indubitável excelência literária, uma peça de valor didático. Parabéns, Mestre! E não me leve a mal haver optado pelo Kindle…

Melhorar

Sábado, vigésimo dia de um Março quente que escorre rapidamente pelo suor e pelas dores de uma “artrose brava”, segundo informação do ortopedista. Não sei de onde, escuto a voz inconfundível de Martinho da Vila numa antiga mas sempre atual gravação repetindo que sim, que “a vida vai melhorar”! Naquele tempo, mais de quarenta anos lá atrás eu acreditei que sim, que iria, porque não? Mas o momento, ou pelo menos o meu momento é pouco propício para conseguir agarrar de volta o otimismo que me escorregou da mão. Vamos vivendo o dia a dia entre paredes, com a falta de paciência puxando o mau humor, que chama a depressão que ronda perigosamente nas imediações. Procuro equilíbrio para prosseguir interrompidas leituras, procuro sem alma, a alma para fazer soar de novo os silenciosos instrumentos…