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Melhorar

Sábado, vigésimo dia de um Março quente que escorre rapidamente pelo suor e pelas dores de uma “artrose brava”, segundo informação do ortopedista. Não sei de onde, escuto a voz inconfundível de Martinho da Vila numa antiga mas sempre atual gravação repetindo que sim, que “a vida vai melhorar”! Naquele tempo, mais de quarenta anos lá atrás eu acreditei que sim, que iria, porque não? Mas o momento, ou pelo menos o meu momento é pouco propício para conseguir agarrar de volta o otimismo que me escorregou da mão. Vamos vivendo o dia a dia entre paredes, com a falta de paciência puxando o mau humor, que chama a depressão que ronda perigosamente nas imediações. Procuro equilíbrio para prosseguir interrompidas leituras, procuro sem alma, a alma para fazer soar de novo os silenciosos instrumentos…

Royalty show

Sou mesmo de outras eras e isso faz de mim um sujeito com alguns dispositivos engatilhados de acordo com a minha criação de outras eras. Traição, invariavelmente, dispara um desses dispositivos. Harry traiu sua família ao ceder à estúpida exposição da roupa encardida que deveria ter sido devidamente lavada em casa. Meghan Markle “should have known better” antes de aceitar casar com um membro da realeza, significando submeter-se aos tradicionais grilhões da monarquia, or else. A merda jogada no ventilador vai gerar no futuro mais um malcheiroso campeão de audiência da Netflix. Afinal, são eles os alquimistas que transformam merda em ouro…

Setentaesete

Poderia eu afirmar-me pessoa de hábitos irrepreensivelmente saudáveis ao longo da minha vida? A minha resposta seria, digamos, dúbia, porque eu fui fumante pesadíssimo até aos meus 32 anos de idade e, até há uma porção de anos atrás eu era perfeitamente incapaz de recusar um whisky on the rocks ou um Gin tônico, ou que bebida fosse que contivesse álcool. Em minha defesa, eu diria que bebia muito bem, sem beber-me em demasia ao ponto de triste figura, que me orgulho nunca haver feito! Mas vangloriava-me, exagerado e fanfarrão, de tomar tanto whisky quanto Vinícius de Morais. Agora, quase abstêmio, não fossem as raras taças de vinho tinto acompanhando algum prato especial, não tenho certeza de que me arrependa de exageros d´outros tempos, mas magoo-me, sim, toda a vez que me surpreendo com um forte sentimento de culpa por adoecer, como se adoecer ou não dependesse da minha vontade. Ainda penso que ficar “estupidamente doente”, leva-me a perder o meu antigo prestígio de sujeito de alta resistência e à prova de tudo. Eis-me completando no dia de hoje 77 anos de idade, aceitando que a tal resistência de que me orgulhava vai num diminuendo. Fato: Sou um idoso com as fragilidades de um idoso – Fim-de-papo.

Dia das mulheres

Redigi algumas linhas sobre as mulheres, mas não consegui manter o discurso demasiado longo, demasiado baba-ovo, num tempo de mulheres poderosas ou, como modernamente se diz, “empoderadas” que não carecem de matéria elogiosa dos marmanjos para se elevarem.  Pouco aproveitei do escrito original que insistia na minha tecla pessoal de grande admirador de mulheres inteligentes. Não que se encontre muito mais inteligência entre a população feminina atual. Mas é notável a superioridade da inteligência da mulherada no uso da sua inteligência. Bem, há sérias ressalvas no uso de toda essa inteligência na hora de procurar o amor, mas fica para outra ocasião…

Cansei de mim

Surpreendo-me com desejos de voltar à poesia, mas a poesia surpreende-me com desejos que longe dela eu permaneça. Poesia é tal qual a música: quanto menos a praticamos, mais de nós ela se afasta e nos repudia, estranhos que passamos a ser à arte de rimar expressivas sílabas, ou melodiosos grupos de não menos expressivas notas. Sinto-me então enjeitado, mesmo dando-me conta de que fui eu próprio que me enjeitei, ao abandonar-me à mediocridade. “Nunca serei um poeta”, sentenciei sem veemência, na esperança de manter alguma esperança. Mas os anos passam, os farrapos da minha pobre poesia desagregam-se e eu cansei de mim…

Passeio

Sem condições para acompanhar o ritmo de caminhada da Nina, procuro relaxar-me em passada-de-tartaruga pelas admiráveis belezas de uma manhã iluminada. A pedra de Itapuca em primeiro plano, parece realçar toda a força do verde-azul da Guanabara e suas belíssimas elevações. Lá estão o Pão de Açucar, a Urca, o Corcovado! Lá, longe, ao fundo, a Pedra Bonita. Paisagem linda, da Cidade Maravilhosa tão cantada e tão vilipendiada. De perto, bem pertinho, a realidade acaba por esmaecer toda essa beleza. Paro um pouco enquanto admiro o trabalho dos que mergulham para garimpar entra as rochas os quilos de mexilhão que vão sendo carregados nos botes. A sobrevivência pode ser bem difícil e trabalhosa. Adivinho que depois da colheita, há que preparar e transportar tudo para quem compra, que são os restaurantes que, neste momento, sofrem horrores para conseguirem manter-se. Os meios de vida estão todos nas vascas da morte…

Shrink

Com vários fios ligados do meu tórax a um aparelho Holter, encontro dificuldade em adormecer. Uma vez mais, levantei e retornei ao escritório. Mecanicamente, liguei o PC e abri o word na folha dos textos do corrente ano, mas fiquei longo tempo de olhar perdido sobre as últimas frases lá escritas sem direção, sem motivação, sem razão. Deveria eliminar tais frases que nada iniciam e a nada conduzem? Decido-me por preservá-las para uso posterior, ou descarte posterior. Ao iniciar outra coluna, queixo-me das dores nos meus ossinhos. Mas desisto dos ossinhos falar, para não dar parte de fraco e dizer que me sinto doente. Não sei o que tenho e espero que os médicos interpretem os holters, mapas, raios dos Xis e análise de sangue e xixi e me digam, se puderem, quanto tempo ainda me resta de vida. No decorrer do presente mês, espero completar 77 – setenta e sete. Com o mau momento ósseo, logo me lembro de enxergar os dois 7 como duas bengalinhas para me apoiar! A minha maisquetudo diz que eu preciso mesmo é de um bom shrink…

Get Back!…

“…Get back to where you once belonged!”, escutei o número dos Beatles agora pela décimamilésima vez na minha vida e soou-me como se fosse um novo sucesso. Eu precisava mesmo voltar, tomando atalhos para contornar o meu momento tão abarrotado de dúvidas sobre as certezas e de certezas sobre terríficas dúvidas. Os tempos são mesmo para os muito fortes, dirão, como certamente dirão que são para os homens de fé. Eu nunca achei que eu me enquadrasse em nenhum dos casos, muito embora, paradoxalmente, forte eu haja sido em tantas provações, misturando força de carácter com fé e falta dela. Agora aqui estou eu, espremido entre dores, pavores e horrores perante a verdade crua e nua, sem paradoxos: A vida, que sempre foi frágil, atingiu níveis extraordinários de fragilidade. Pela periculosidade da peste da vez e, para mim, pela fragilidade que sinto perante as moléstias que tanto me molestam…

O idoso achegou-se silenciosamente à porta da cozinha e observou pensativo e pesaroso, o vai e vem da vassoura engenhosamente embrulhada feita um rodo sobre a superfície molhada com água e detergente. Comentara um pouco antes que os pisos da cozinha e área encontravam-se brilhantes e asseados, não justificando, a seu entender, a necessidade de tal faxina. Não adiantou, porque os padrões de qualidade do casal no que concerne a limpeza parecem diametralmente opostos. Pensando um pouco mais, as divergências tendem a passar além dessas simples coisinhas domésticas, mas não é isso que agora está em foco. Como atravessa uma fase de dolorosos problemas ortopédicos, o homem pergunta-se como ela consegue! Afinal, trata-se de uma mulher nos seus 75 e que sempre trabalhou muito! Vai ver que por isso mesmo, ela não consegue ficar um pouco mais de tempo parada! Ah como é cansativo vê-la naquela azáfama permanente, feito frenética formiguinha! Não tardará, pensou, iria escutar o habitual lamento: “Quando está limpo, ninguém repara nem valoriza todo o trabalho que deu, mas se deixar sujo…” Enfim, retirou-se o homem em silêncio de volta para seus habituais afazeres com o computador e seus periféricos, outrora valiosas ferramentas agora transformadas em instrumentos de lazer, finadas que há muito foram as tão saudosas atividades remuneradas. Ficou mais frequente sentir-se como que um peso morto. Não morto, no sentido de morto mesmo. Mas no mínimo, moribundo. “Peso moribundo é ótimo!” pensou sorrindo. Relembra  um período conturbado a bordo de um Navio Sonda, depois de sofrer uma pequena queda que o deixou com um braço dolorosamente contuso, pisado. A dor incomodava-o e, mesmo sem querer, agarrava o braço e queixava-se de quando em vez. Um operador rádio observou-o por um tempo e disse-lhe: “Você está moribundo e não sabe!” O tal operador não sabia da missa a metade, não por ser judeu, mas por tanto desfrutar da sua boa vida sem risco de acidente em seu tranquilo e climatizado ambiente de trabalho. No convés a história era uma realidade imensamente diferente. A dona de casa tem razão; Ninguém dá valor ao trabalho dos outros, a não ser que dê pro torto e tudo pare…

Do Nada

Creio existirem variadas formas de fazer nada. Entendo que os efeitos aumentam se aos trabalhos de fazermos nada incluirmos, em doses a gosto, o pensar nada. Quando enceto uma fatigante atividade de produzir nada, acabo esgotado e com sérios problemas gerados pelos efeitos colateriais de nada fazer, especialmente se acompanhado do atrás dito nada pensar. Concluí então ser prudente adicionar um touch de pensamento pouco ou nada profundo às atividades, especialmente as mais severas. Tentar modificar o valor de Pi, por exemplo, sendo como é uma perfeita inutilidade, todavia já emprega um nível de pensar, que nem é bom pensar. Idióticos pensamentos de políticos idiotas certamente que ajudariam, não fossem eles, os políticos, quem mais se dedicam à produção de nada, por tortos, caóticos e sujos caminhos. Aqui para nós: Fico por aqui, porque estou mesmo a fim de fazer nada…