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Ser, Estar…

A sexta já anoiteceu e está indo embora tal e qual os dias anteriores, despidos de motivos para lembrá-los. Suspiro enquanto respiro, aparentemente sem motivo que justifique esse meu suspirar, posto que (ainda) estou a respirar. Mas os meus suspiros deixam claro que o meu feliz respirar não basta para me alegrar, talvez porque não é aqui que eu queria estar. Sim, sim, eu sei que só estou bem onde não estou, mas é assim mesmo que eu sou. A solução é isolar-me para não ver o sangue correr em cachoeira para fora da tela da TV, para não encarar os malditos políticos em ano de eleição, o que os faz malditos elevados a n

Agridoce

Um refluxo tumultuou minha noite e eu descarreguei a culpa sobre o restante conteúdo da garrafa de Cabernet chileno, que drenei ontem à noite. Pensando melhor, há também os meus excessos em café forte e por isso, no meu desjejum esta manhã optei pelo chá. Um beija-flor surpreendeu-me, pairando por brevíssimos momentos junto da janela do meu quarto! O que poderia haver de atrativo na minha janela? A minha doçura decerto que não seria, porque até agora estou feito dragão, expelindo o ácido estomacal que aspirei. Está um dia lindo de domingo, ensolarado e de temperatura amena, convidando a sair e recarregar o espírito. E assim fizemos, na caminhada medicinal do costume, seguida da conversa pelo zapzap com a nossa caçula curitibana que hoje está de aniversário! Alegremo-nos, pois…

Desarmonia

O Cabernet sauvignon chileno não harmonizou com o caldo verde nesta noite de sexta e eu fiquei um pouco frustrado, porque não tinha nem outro vinho nem outro manjar com que remediar. Então, remediado ficou mesmo assim, porque nem o vinho dos chilenos nem o gostoso caldo verde da chef Nina sobraram sequer para uma foto de recordação!

Aliás, falando nisso, fotografia parece não mais harmonizar comigo como arte ou passatempo que lembre o tempo passado em que não saía de casa sem uma mochila com alguma parafernália e sempre voltava com material para ensaiar alguma coisa. O desestimulo pode ser imputado ao brutal nível de insegurança para exibir em locais públicos equipamento de algum valor, que pode, nesta terra, até levar a desfechos indizíveis…

Encalhe

Nossos passos seguem os passos dos que nos precedem na trilha do exercício. Meus olhos vão geralmente pregados nas pedrinhas basálticas, umas brancas outras pretas outras ornadas por excrementos caninos. Os pensamentos voam, hora à velocidade bem acima da da luz, para logo em seguida estagnarem sobre o nada; “O que foi que eu disse?” Pergunta-me a minha companheirinha. Pergunta surpreendente e assaz embaraçosa, porque é claro que, se ela falou, eu não terei dado a mínima atenção. As passadas azedam já que eu nunca cheguei a aprender como desculpar-me. A não ser que algo não usual encontremos, como um veleiro de bom tamanho carregado pelo swell e atirado às pontiagudas rochas. Condoída ficou minha alma do mar, pelo destroço, ainda que agradecida, afinal…

Águas vivas, tão revoltas

ainda que tão abrigadas!

Amarras partidas e soltas,

embarcações encalhadas,

esventradas, destroçadas…

Faxina

É com o auxílio luxuoso, non-stop e suave de peças barrocas, que tento varrer e aspirar as impurezas que se foram acumulando na minha alma. Em tais faxinas, encontro e removo sujeira de toda a espécie, deste “schrapnel” dos obuses da guerra em curso, à quantidade incomensurável de letra natimorta já putrefacta, exalada pelas fantásticas e inúteis bestas políticas, lá onde podem ser encontradas em busca do poder que a sua insaciável sede demanda…

Pet

Kiara Betina C. Alonso, é o nome e sobrenome da felina. Kiara com “K”, em vez da Chiara italiana como seria, porque ela não chia, só mia. As meninas estão, pelo menos por enquanto, grudadas na bichana. Na grande roda da vida tudo retorna e a Kiara lembra muitíssimo a nossa Belina, companheira em quase 20 anos…

Hoje…

…Desliguei o disjuntor do circuito que me liga às más recordações desta data. Diverti-me, acompanhando em direto os ins and outs de mais um dia da comédia jurídica Johnny Depp versus Amber Heard. Baixei alguns “backing tracks” e dedilhei as guitarras por vários curtos períodos. Dei apoio como pude à minha mais-que-tudo, tão sofrida com dores numa perna e num braço e rimos até às lágrimas quando eu próprio descobri que a razão de não encontrar os bolsos era porque eu havia vestido a bermuda dela! Uma bermuda jeans cheia de enfeites prateados que não notei, quando peguei a peça que estava junto com a minha! Suspeito que, afinal, acabei por desligar mais que um disjuntor…

Espera…

Com crescente sacrifício, seguimos caminhando os cerca de 2 quilômetros matinais que diariamente nos impomos como mínimo medicinal. O que não esperávamos é que a Nina parece, em estágio inicial, estar sofrendo também de artrite, ou artrose. Nada bom para uma mulher de setenta e cinco, até agora com uma vitalidade e disposição invejáveis. No decorrer do dia, sentamos em frente às nossas telas e seguimos, ao vivo e a cores, nosso pavoroso mundo a caminho das trevas, enquanto esperamos em vão, alguém que se interesse pelo nosso pedacinho de chão e de teto e de paredes e janelas, ainda inteiras, porque a guerra, por enquanto, não chegou por aqui…

Mútuo amparo

Reconhecendo a crescente dificuldade em exteriorizar o que me vai na alma, deixo correr meus dias sem que, como outrora, sobre eles me desperte o interesse escrever. Porque escrever é mesmo muito difícil, se queremos compor textos inteligíveis e com algum atrativo. E assim é, pelo menos para mim, que me acredito carecer de uma capacidade criativa com a solidez que avalio ser vital aos que produzem escritos com valor literário de alguma expressão. Mas chega de autoflagelação. Nina chegou com mais alguns pecadilhos salgados que ambos não hesitamos em cometer, degustando-os como contraponto às agruras e sofreres atrelados às mazelas físicas e psíquicas de um casal septuagenário amparando-se um ao outro com mais ou menos disposição…

Kitutes

Merendei o domingo, encetando um queijo magistralmente curado ao longo de algumas semanas pelas mãos da Nina, acompanhado por um tinto de preço compatível com a minha condição econômica. Um queijo caríssimo da região de Idanha-a-nova, apesar das diferenças ovelha x vaca, decerto não me teria deliciado mais que este, de trato caseiro com suave travo picante. Sem esconder que a merenda se iniciou com sashimi de lombo de bacalhau (só pra não falar o nome tradicional do prato)…