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Despertar

…E lá está o Sol que rompe as névoas da madrugada, por entre meus repetidos bocejos de mal acordado. Brilhará ao longo de mais um magnífico dia de incomparável azul-celeste, ou não; dizem que teremos umas chuvicas esta semana. Que venham, para regar um pouco toda essa secura e pincelar de verde-esperança, o negrume da terra queimada…

Volta

Na ausência, relocalizei-me e reciclei-me. A reciclagem poderá não ser muito credível, contudo, porque não fui capaz de defini-la. Nessa ausência de razões múltiplas, que poderão até ser condensadas em perda pura e simples de confiança em mim próprio, senti volatizada toda a vontade de escrever, enquanto ruborizava envergonhado, se relia textos meus. Na procura por energias, prossigo em leituras e releituras – Marcel Proust, Agustina Bessa-Luís…

Ereção

Ereção

O tempo virou, esfriou, está ventoso e desagradável; reclamo, como reclamava há uma semana atrás pela razão inversa, de temperaturas de veranico. Apraz-me, pois, queixar-me por qualquer coisa de coisa qualquer. Há dois dias que venho observando a montagem de uma grua enorme de construção civil. Nos meus tempos de atividade offshore eu chamaria tal operação de “ereção”. Agora eu evito, curiosamente, cautelosamente, usar o termo, mas não explico o porquê da cautela. Realizo que é obra de grande investimento, a julgar pelos meios em equipamento sendo empregues. “Só pode ser edifício” – concluo e desligo…

Leitura

É na leitura que encontro, ou pelo menos tenho encontrado, o alheamento que tanto almejo. Alheamento da (para mim) insuportável realidade que me rodeia, cotidianamente descarregada em vómitos de fel pelos noticiários da TV que a mim chegam em sons surdinados, através das frinchas das portas que fecho para me isolar. Concedo razão a quem me considere um tipo bem esquisito que se tranca num casulo recusando ouvir o mundo, como se ao mundo não pertencesse. Mas sim, sei-me escravo desse cruel planeta onde nasci, lá atrás no tempo, num exato momento em que multidões de semelhantes eram queimados vivos em dantescos rios de fósforo descendo dos céus em nome da paz…

Na leitura, convenientemente escolhida de acordo com o meu desejo e humor do momento, logro transportar-me a outras dimensões, necessariamente menos catastróficas, ainda que, aqui ou ali, muito sofridas por amores que findaram ou que nem se iniciaram porque não correspondidos, ou descrevendo o penoso atravessar de grandes dificuldades de sobrevivência, porque viver é uma aventura que pode ser extraordinária, vencedora, ou miseravelmente ordinária…

Feliz Aniversário!

Lembro de haver escrito há alguns anos nesta data, que “Aniversários são comemorações do envelhecimento, enquanto damos vivas à vida que conservamos”. A frase diz o óbvio, mas ajuda a aceitar, com alguma resignação, as ruguinhas a mais, as manchas senis na pele, as dores reumáticas…

Contava ela doces dezasseis, vejam vocês; E hoje ela completa setenta e seis! São meia dúzia de décadas em que, juntos, comemoramos seus felizes aniversários, eventualmente temperados com ingredientes bem amargos, porque os caminhos da vida podem ter trechos de piso por demais difíceis e penosos.

FELIZ ANIVERSÁRIO, COMPANHEIRINHA!  

Navegações

Na esteira de uma postagem feita por pessoa bem conhecida e considerada no FB sobre a série espanhola “Sin Limites”, tendo como atores principais Rodrigo Santoro e Álvaro Morte, respectivamente nos papéis de Fernão de Magalhães e Sebastian Del Cano em torno da primeira e gloriosa viagem de circunavegação, revisitei e tirei a poeira de uma coleção de doze volumes finamente encadernados e com o nome do proprietário impresso, ou seja, o meu nome. Os volumes foram adquiridos há 52 anos e não estou orgulhoso pelos meus (des)cuidados com sua conservação. “Fernão de Magalhães não traíu”, conta, timtimportitim, o nebuloso processo que levou o almirante luso a procurar o financiamento e a armada necessários a tão gigantesco e arriscado empreendimento junto à coroa de Castela, depois de goradas todas as tentativas de obtê-los do seu próprio rei. A coleção inclui “A Maravilhosa Viagem de Cabral” e outras pérolas de epopeias e tragédias marítimas, tais como “Camões – O Homem e o Mito”, “Preste João das Índias”, “O Naufrágio de La Meduse”. “Peregrinação” – volumes I e II, (estes totalmente impressos em original português arcaico), de Fernão Mendes Pinto!…

Isadora

É no crescimento das nossas crianças, que mais sentimos o nosso próprio envelhecimento. A alegria, está hoje por conta da nossa lindíssima netinha Isadora, que completa oito anos! Mas… já, oito anos?! A casinha dos Castro Alonso está, pois, bem movimentada para a comemoração.

Feliz aniversário, Isadora!

A Torre

“Tétrico”, murmurei! “Patético”, acrescentei! O lugar ecoava de tão vazio; vazio de gente, vazio de almas outras que não as nossas, únicas, unidas numa só, no vigésimo piso de uma torre tipo de Pisa, só que muito mais alta e sem inclinação. Grande parte das salas parecem vazias, a julgar pelo painel de informação do andar. Ocorreu-me que era ali que eu era atendido pela minha excelente e falecida pneumologista. Naquele tempo, a torre fervilhava de consultórios médicos e eu não levava para as consultas a preocupação do valor que seria cobrado. Bem empregado e com um seguro-saúde de alto nível, procurava sempre os melhores especialistas. No meu presente a realidade é outra, de aposentado sem seguro-saúde. Os valores são desapiedados e, não tão raramente, anotamos mais mercantilismo que ética médica…

Interrupções

Dormito enquanto leio, logo, nada entendo do que leio e terei de reler se quiser prosseguir nessa leitura. Interrompo, pois e ponho o Kindle de lado. Retiro a guitarra portuguesa do seu suporte e, meio contrariado, afino a fino cada uma das doze cordas. O leque de afinação é de péssima qualidade mecânica e “pula” nos tensores. Lamento-me uma vez mais por haver comprado um fraco instrumento de fábrica, por valor muito mais baixo do que custa um leque de qualidade. A opção certa teria sido adquirir um instrumento de excelência de algum renomado Luthier por preço estratosférico. Mas falta o combu$$$tível necessário para atingir a estratosfera…  

Este texto foi feito há três noites atrás, antes desta última e longa interrupção da internet. Mas, as lucubrações que me ocupavam a mente foram ao tempo interrompidas por três espaçados disparos de fuzil (AK47, AR15, ou similar) no morro aqui na frente. Cidadãos comuns não têm a menor segurança. A lei e autoridade é de quem porta o fuzil. O poder está na rua, já que ao Poder constituído é sonegada a prerrogativa de combater como deveria, esse bem armado poder paralelo…

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De volta ao blog, senti-me na obrigação de fazer um desagravo à minha pobrezinha mas tão rica guitarra portuguesa por tanto nela haver malhado e dela dizer cobras e lagartos. O leque não pode ser tão mau assim afinal e a instabilidade da afinação poderá também estar nos laços mal torcidos. E estes são feitos por mim mesmo sem nada a ver com a qualidade da coisada…

Praguejando…

Nada mais desalentador, que sentir-me desalentado. Vou modificar: “Como é desalentador sentir-me neste desalento”. Talvez assim: “Que desalentador é este meu desalento”. Não importa, porque o meu desalento permanece, mesmo trocando as bolas à minha atual falta de alento, que rima com (falta de) talento, com tormento e tudo o que mais lamento. Nem trabalhos de manutenção do lar, nem os instrumentos musicais com a devida aplicação estudar. É talvez ânsia de viajar e o presente status abandonar. Acho que Proust não está a ajudar…

Em tempo: Ultimamente noto-me, com muita preocupação, soltando palavrões cabeludérrimos!