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Archive for the ‘Uncategorized’ Category

Realidade

Realidade é constatar que famosos tão admirados em períodos da minha vida, vão paulatinamente deixando este vale de lágrimas. Alain Delon tinha apenas 8 anos mais do que eu. Não era fan dos filmes dele, mas invejava-o pelo quanto de beldades ele levou para a cama, por ser um fulano muito mais que “bem apessoado”. O filho da mãe era realmente bonito e as mulheres em geral ficavam mesmo de quatro. Que eu tenha retido na memória, só um filme carregado de erotismo, que ele rodou com a Romy Schneider. Noite passada, enquanto a Nina falava sobre o quanto Silvio Santos significou para as famílias brasileiras aos domingos, por várias décadas, eu fotografava a Lua Cheia. Ela surgiu vermelhinha e enorme e foi ficando brilhante, sugerindo que ela é, afinal, “Cheia de Vida” e não somente uma rocha flutuando no espaço…

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Minha aerocuriosidade é incurável, porque intrínseca (acho). Despendi bastante tempo sobre o terrível acidente do voo 2283, chegando até a ler, na íntegra, o manual do sistema “anti-icing” do ATR72, na hipótese de que o desastre terá ocorrido, por ação de congelamento das asas e superfícies de comando aerodinâmico. Mas, atualmente, não estou totalmente convencido de ter sido icing o que derrubou o avião daquele jeito. O ATR veio para o solo tipo “folha seca”, sem qualquer propulsão longitudinal, o que é extraordinário, na medida em que pode ser ouvido nos vários vídeos que estão à disposição na net, fortíssimo ruido típico dos motores turbo-hélice em alta rotação, denotando o desespero por obter tração. Como se ambos os hélices estivessem solidamente bloqueados em passo completamente neutro! Sem tração, não há velocidade. E velocidade é vida…

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Pavoroso

Em Outubro de 1994, o voo 4184 da American Eagle, um ATR 72-212 Reg. N401AM, durante a descida e pouso em Chicago-O´Hare, experimentou problemas de comando que se foram agravando até à total incontrolabilidade, ao ponto de a aeronave inverter e assim embater no solo. Impressionadíssimo, segui e arquivei os documentos gerados na investigação. As 68 almas a bordo tiveram tempo pleno para viverem o pavoroso mergulho para o inevitável. A perda de controle teve como base as condições de formação de gelo nas superfícies e articulações dos planos de comando.

A tragédia de ontem com o voo Voepass 2283, levou-me de volta no tempo e ao meu antes sentido pavor, imaginando estar enlatado numa máquina de voar que perdeu as condições de voar, arrastando-me inexoravelmente para a morte. As causas poderão nem ser “icing”, na medida em que acredito que o fabricante terá extraído lições do acontecido há três décadas e evoluído em tecnologia para evitar situação semelhante…

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Verão

Segundo dia de agosto que, se para uns é mês de desgosto, para outros será de imenso gosto e também de impensável mau gosto. Calor senegalês do verão sul-europeu, sem chuva e forçados a respirar as poeiras do Sahara, que aqui chegam tocadas pelos ventos do sul e se misturam ao mau-cheiro das águas do Sena e toda fedentina exalada pela ridícula olimpiada trazida pelos ventos do norte…

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A idade vai avançando, estranhas recordações de vida assomam e assombram meus dias e noites. Estranhas porque tão a despropósito. Ou talvez venham a propósito, porque o presente é mesmo um despropósito. Os amaldiçoados wokes terão, sem dúvida, bastante a ver com esse estado de espírito, mas não só. Neste caso, reencontro-me, numa dessas recordações, brigando com a mecânica de uma Solex, uma desgraça francesa cujo motor teima em me deixar no pedal. E entro, incapaz de resolver a avaria, pedalando num pátio onde se reparavam bicicletas; enquanto o faço, interfiro de alguma forma com outro cliente. Era o dono de uma enorme “Jawa”, que solta o verbo sobre mim, enquanto me ameaça fisicamente. Chamou-me de “branco de segunda”, porque ele, o poderoso dono da Jawa, vociferava, aos berros, ser branco de lá, da Europa, enquanto que eu, provavelmente não teria esse status e portanto seria, no seu julgamento de jerico preconceituoso, de uma casta inferior.

Enquanto degusto com gosto uma talhada de queijo de ovelha e uma taça de vinho, surpreendo-me divertido pela súbita recordação de um tal incidente ocorrido há tantos anos – cerca de 65 ou 66, em morenas terras africanas. Mais queijo e mais vinho se seguiu, que esta vida é muito curta…

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Olimpiadas

Me desculpem, franceses e francófilos, mas o desfile foi ruim demais. Se contarmos com o indescritível circo de horrores woke debaixo de chuva, foi mesmo une merde. Minha opinião, é claro, que tenho direito a ela. A própria sequência de acendimento da pira, foi looonga e cansativa demais, mas salva pela genialidade cênica da pira voadora e pelo magnífico espetáculo de luzes, com a torre Eiffel no meio da girândola! Estrelas, estrelas mesmo, só as que se fundiram numa só: Na divina Céline Dion! Explosão de voz poderosa e irrepreensível, numa personalidade que há tão pouquinho tempo, eu lamentava pela sua situação de saúde gravemente afetada! Heroína, Heroína, repeti profundamente emocionado!…

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Gente feliz

Reunimos no almoço onze de nós, para degustarmos o choco frito do Capitão Cook, sendo que Lídia, a décima segunda, regressou ontem a casa em Flower Mound, Texas. Neste grupo, podemos ver um núcleo familiar nascido em continentes diversos, a saber: Europa, África, América do Norte e América do Sul, com ascendentes portugueses, espanhóis, italianos e índios brasileiros. Belíssima mistura, não é não? E fomos atendidos por uma bela e sorridente cabo-verdiana de Santiago. No topo da mesa, os decanos da família presente, aparentam felicidade pelo momento, deixando no passado, as agruras, amarguras e revoltas da diáspora…

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Tédio

Sòzinho em casa, eu escrevo sòzinho, como aprendi em alguma escola primária dos primórdios, com uma professora que usava chapéus e vestidos feito realeza e me dizia que tinha de ter acento grave, que outros dizem “crase”, para que se pronuncie com o “o” aberto. Sòzinho em casa, dizia, parei de repente de gastar estupidamente meu tempo nos nauseabundos esgotos internéticos. Abri “au hasard” um livro de poemas de Mário de Sá-Carneiro, e leio que ele, não eu, nos idos de 1916, “Queria ser mulher para me poder estender/ao lado dos meus amigos, nas banquettes dos cafés”. Em outra quadra, ele repete que “Queria ser mulher, para ter muitos amantes/E enganá-los a todos – mesmo ao predilecto/Como gostaria de enganar o meu amante loiro, o mais esbelto/Com um rapaz gordo e feio, de modos extravagantes…” Com o perdão de quem tomar um tempo lendo estas linhas, se Mário tivesse sido mulher, que puta ela teria sido!…

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Memórias

Impossível olvidar o passado vivido. Mesmo confrontado com pessoas que recusam retornar no túnel do tempo, martelando a tecla de que o passado não constrói, o que até tem sua lógica, mas as memórias são guardadas como se fossem fotos, em indeléveis álbuns, que sempre desfolhamos até que a morte sobrevenha e os destrua.

E vejam como a morte é mesmo implacável, que acaba de levar, sorrateiramente, o Fausto (Bordalo Dias), amigo-artista do círculo de amigos da música jovem em plenos anos 60, dos Beatles, Rolling Stones e também de metralhadoras cacarejando, porque a guerra era também a nossa realidade a par com a música. De tantos músicos da época no Huambo, Angola, raros foram os que lograram sobreviver dos proventos obtidos nos palcos da vida. Fausto foi um deles. Seu sucesso de musico, cantor e compositor elevou-o à fama nos melhores palcos e no disco, por décadas…

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Duas Vidas

Sessenta e um anos, não sessenta e um dias ou meses, decorreram nas nossas vidas e eu confessava há alguns minutos atrás à minha companheirinha, que a lembrança que mantenho daquele dia, é a de um garoto completamente vidrado naquela belíssima criaturinha de aspeto frágil, cabelo escuro e um par de olhos verdíssimos, no fundo dos  quais eu adivinhava e logo confirmei, que a tal fragilidade era aparente e estava longe de ser real…  

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