Feeds:
Artigos
Comentários

Archive for the ‘Uncategorized’ Category

Entardecer

sundown

Às vezes, como agora, ao entardecer,

entristeço e enterneço-me com o Sol

que esmaece e logo lá longe desaparece

exangue, em clarões da cor do sangue.

Agora, começam as sombras da noite

a envolver-me e a tomar-me por inteiro

em lento e imparável processo de assalto

até que me penetram o âmago, a alma!

Agora eu era ninguém, um nada, nada,

perdido na minha pequenez infinitesimal

e achado no que me resta da soberba

de acreditar-me dono e senhor de mim…

Agora eu era um humano, terráqueo,

reduzido à expressão mais simples

e grotesca de animal ensonado,

despojado, indefeso, desinteressado

Vou dormir…Aah…dormir…

Read Full Post »

Crônicas

Drivin

Sem querer descumprir a promessa de não voltar com o tema das minhas viagens Niteroi X Macaé, descumpro-a, todavia e momentaneamente, para usá-lo como ferramenta para alinhar as agulhas que poderão reconduzir-me aos trilhos das crônicas mais ou menos regulares que tinha o hábito de criar, ainda que, muito frequentemente, decidisse não as postar, abandonando-as ao limbo do tempo.

É verdade que o exercício de conduzir a minha velha viatura durante pelo menos duas horas e meia a considerável velocidade numa via reconhecidamente perigosa, parece revolver o fundo do lago das minhas ideias e memórias, forçando-as para a superfície onde permanecem ao “som da água” por algum tempo. De ordinário, escancaram-se em risos de escárnio se, como é mais vezeiro, não logro recolhê-las para bordo antes que voltem a afundar…

A viagem de hoje, atipicamente numa segunda feira, atiçou-me a vontade de voltar a produzir aquelas crônicas que ninguém lê e a que convencionei chamar de “Mukandas”, mesmo que mukandas não sejam, precisamente porque ninguém as lê. Preciso retomar-me das garras do meu Eu que se tornou perigosamente desinteressado e dorminhoco, tomado de um cansaço doentio que me está adoecendo.

Assumo-me pois, de volta, ou pelo menos assim o espero…

Read Full Post »

Que tempos, meus senhores!

Tempos da volta d’ horrores,

d’ horrores já outrora vistos

já d’outrora tão temidos

de tão terríveis, tão sofridos

sangrentos tempos já vistos…

……..

Então meus versos tempero

sem o sangue e desespero

destes tempos de terror

Tempero-os com especiarias

mescladas com as alegrias

que me dá o meu amor…

Read Full Post »

Das Férias

Luar

Férias sempre são e serão dias de lazer, de coisa nenhuma fazer, de esquecer, esquecer. No entanto, é para as férias que lançamos todos os projetos de visitar locais que há muito desejamos ver, de ir a duas ou três casas de fado e outras tantas de morna, de algum magnífico concerto, bibliotecas e museus, além de muitos comes e muitos bebes. Se conseguíssemos realizar tudo isso, mandatório seria estender as férias por alguns dias para delas descansar. Confesso que seria incapaz de justificar as quatro semanas de férias na terrinha, porque nada, absolutamente nada do que pensei em fazer, eu logrei realizar…

Resta então o primeiro parágrafo: Cansei de tanto descansar!

Read Full Post »

Orgulho

Carlos Cunha

 A lista de personalidades que no meu muito pessoal conceito são classificadas como “admiráveis”, engloba figuras das áreas da Ciência, Literatura e das Artes em geral. No entanto, todas essas áreas contendo obras que nos maravilham e iluminam através das gerações, certamente não teriam a mesma força, não fora a força da Educação e a perseverança dos Educadores. Logo, os Educadores estão na minha Lista de personalidades admiráveis.

Recordo um admirável professor de física que me disse ser “um mero aprendiz” na matéria que com tanta maestria lecionava! Grandes professores são assim: Enormes em sua grandeza de alma, enormes em sua humildade de pessoas enormes. No entanto são, não raramente, tratados e remunerados de forma muito pouco respeitosa…

O preâmbulo abre-me caminho para falar de Carlos Lima Cunha, engenheiro químico e educador emérito, permanentemente envolvido em Projetos  internacionais de Ciência e Tecnologia integrados à European Schoolnet, no âmbito da qual é o embaixador português para o Projeto “Scientix”.

Como a European Schoolnet lhe concedeu o título de “Melhor Professor Europeu”; Da  Microsoft recebeu a nomeação de “Microsoft Expert Inovator Educator” e assisti pessoalmente à Sessão Solene em que foi condecorado com a Medalha de Honra da Cidade de Setúbal exatamente pelas suas qualidades de Educador e Organizador no sistema de ensino, devo, com humildade, orgulhar-me por figurar no círculo de amigos pessoais do Professor Carlos Cunha.

Read Full Post »

A Bocage

Casa Bocage Casa Bocage 13 Casa Bocage 14 Casa Bocage 10

Julgava conhecer “muito bem” Bocage pelo anedotário que lhe atribuíam e que circulava livre e solto pelos bancos escolares da minha infância e juventude. Manuel Maria Barbosa Du Bocage – o verdadeiro, eu conheci muito mais tarde, quando finalmente comecei a apreciar sua obra, algumas vezes vasculhada entre os tantos volumes existentes no surpreendente e belíssimo Real Gabinete Português de Leitura no Rio de Janeiro!

Na abertura do ano das comemorações de um quarto de milênio do seu nascimento, estive presente em alguns eventos aqui em Setúbal e na casa onde nasceu. Trata-se de um pequeno sobrado de espaços exíguos, em cujo piso térreo se encontram expostos alguns dos seus poemas, gravuras alusivas, o esboço do grande quadro original de Fernando dos Santos, de 1929, intitulado “Bocage e as Musas”, atualmente no acervo do Museu do Convento de Jesus, além de utensílios, livros e de uma recriação do local de trabalho, com a figura do poeta sentado à sua escrivaninha.

São sete as figuras femininas que representam as musas de Bocage, personificando a Inspiração, a Dor, a Ironia, a Boemia, o Lirismo, a Revolta e o Erotismo, que guiaram o poeta ao longo de toda a sua obra. Muito embora haja a tendência de procurar no Erotismo a identidade de Bocage, sua obra é muitíssimo mais que a poesia burlesca e satírica que tantos tanto apreciam…

A Camões

 

“Camões, grande Camões, quão semelhante

Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!

Igual causa nos fez, perdendo o Tejo,

Arrostar co’o sacrílego gigante;

 

Como tu, junto ao Ganges sussurrante,

Da penúria cruel no horror me vejo;

Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,

Também carpindo estou, saudoso amante.

 

Ludíbrio, como tu, da Sorte dura

Meu fim demando ao Céu, pela certeza

De que só terei paz na sepultura.

 

Modelo meu tu és, mas… oh, tristeza!…

Se te imito nos transes da Ventura,

Não te imito nos dons da Natureza.”

Barbosa Du Bocage

Read Full Post »

madrugada

Despertar antes das quatro da madruga

Levantar, através das vidraças olhar

o breu do céu, sem estrelas pra brilhar

e ver a revoada dos meus sonhos em fuga…

Em breve, novo dia eu terei d’enfrentar;

Preciso barbear pra manter boa aparência

de velho bem apessoado de corpo e coerência,

além de valência pra vários dragões eliminar.

Meu cansaço já é de manhã

 

Read Full Post »

Medicinal

Saí de casa algemado

à minha própria liberdade

que me leva arrastado

contra a minha vontade…

Arbitrária Liberdade

que meu corpo contraria

meu corpo bem preferiria

ficar em casa, na verdade…

…Mas o Sol alegria me deu

e as forças me devolveu

induzindo-me à reação

Se o corpo faz corpo mole

e quer que ninguém o amole,

o próprio Sol é a medicação.

Read Full Post »

Sentei, refastelado, no incômodo sofá da redoma. Como alguém pode refastelar-se num sofá tão incômodo? Eu posso, porque tudo posso, eu acho, eu acho-me. Refastelei-me e observo interessado minhas pernas nuas, estranhamente brancas e cobertas de significativas marcas da idade. Percorro-as com o olhar, começando nas pontas dos dedos dos pés e terminando onde as alvas pernas terminam e começa o tecido de algodão da cueca que também é branca e encobre a continuidade de outras alvas regiões do meu corpo. Tenho predileção por ficar de cueca e camiseta. É curioso eu tanto gostar de ficar de pernas ao léu e detestar ver-me de tronco nú. Gosto de explorar as minhas pernas porque, penso, elas me transportaram ao longo da vida por veredas tortuosas, por montes e vales e rios a vau, mas sempre lograram conduzir-me a recantos amenos onde, diziam-me, poderia encontrar a felicidade. Lá aprendi, todavia, que a tal da felicidade precisaria sobreviver à ferocidade…

Read Full Post »

Canino coração

olhar Figura na praia

Dia destes, madrugador inveterado, eis-me uma vez mais pisando a faixa de areia ciclicamente lambida pelas ondas, para elas hora avançando, hora delas fugindo para não molhar os sapatos, mas sempre obedecendo ao comando do meu olhar, obcecado na procura dos melhores pontos para a tomada de imagens com os sensores da minha câmera. Depois, desviei minha atenção do Sol Nascente e do surpreendente numero de surfistas já de molho àquela hora, para observar a Sul, a praia e calçadão começando a ser iluminados.

Uma figura solitária e irreal caminhava pela areia afastando-se de mim e de dois cães que pareciam extravasar felicidade enquanto brincavam na areia, com a areia. Acerquei-me dos cachorros, que pararam imediatamente suas brincadeiras e, amistosos, me observaram com grande curiosidade. Admirei os bichos, fotografei-os, invejei-os. Postei uma das fotos no Face Book com uma frase poética que me ocorreu e que a Maga – Magali Campelo Magalhães sugeriu converter em estrofe, que acabou seguida de sextilhas rimadas:

***

Quanto mais profundamente

olho nos seus olhos,

mais eu sinto que gostaria

de ser um cão brincando n’areia…

…libertando-me do bípede!

***

Assusto-me por um momento,

com tal força de pensamento

que m’impele a ser um cão

e correr solto e livre pelo areal,

célere feito e dito um animal,

do mais canino coração!

***

Mas, Oh! Crua realidade!

Acordo; E no que acordo, a verdade:

Não sou cachorro, não!

Continuo bípede, velho, vertical,

Continuo a julgar-me “racional”

achando-me superior ao cão…

…com um canino coração.

Read Full Post »

« Newer Posts - Older Posts »