Repousamos em família e em torno da lareira, porque passamos do insuportavelmente quente para temperaturas abaixo de 8 Celsius, passando por um estágio de chuvas torrenciais que nos impediram a partida, quando estávamos já na cabeceira da pista do SDU. A voz metálica anunciou a volta da aeronave para o pátio, porque o controle fechou o aeroporto. Outra voz não menos metálica ordenou a evacuação da aeronave e a retirada da bagagem nas esteiras. Seguiu-se longa fila de espera para obter, junto de atendentes pouco cordiais, novos cartões de embarque e “vauchers” de refeição. Encurtando, de um pequeno voo direto de 80 minutos, eis-nos voando, após horas de espera, para destino intermediário e, horas de espera depois, outro voo para o destino final, que atingimos já na madrugada de domingo, cerca de 14 horas além do previsto…
Calor intenso a meio do intenso momento das nossas vidas. Como escreveu e cantou Manzanero, aprendemos que “las semanas tienen más de siete dias”, longas como se apresentam, curtas como resultam. El Niño faz o seu papel, esculhambando as meteo, virando de vez a cabeça dos catastrofistas que sonham com impossíveis emissões zero.
Mas eu quero mesmo é falar num vinho preparado e fermentado a partir de uvas das castas touriga nacional, alicante, aragonês, petit verdot dentre outras, granjeadas nas terras do baixo Alentejo, parcialmente pisadas, dizem, em lagares de mármore e seu néctar estagiado em meias pipas de carvalho. Sendo o mármore calcário puro, qual será o efeito? Talvez no Ph, ou talvez seja apenas um apelo. Mas, o resultado que agora degusto, é um extraordinário vinho tinto de cor e claridade quase erótico, de sabor indescritível, de descida ao mesmo tempo suave e agressiva nos seus 14% do volume, com o rótulo “Marquês de Borba” colheita 2020! Beba-se, então, mesmo que sem companhia, já que a Nina nada tem a ver com Baco…
Estamos a treze de agosto, domingo. Um domingo chocho, cinzento, daqueles que não chove-nem-sai-de-cima. A noite anterior foi passada tomada pelas insônias e culminou com um despertar mal-humorado. Nina pisou meus calos antes mesmo de felicitar-me pelo dia dos pais, e lá fui eu suspirando ais, enquanto brigava com a cafeteira na preparação de um fortíssimo café, que sorvi em companhia dela, à mesa, mas no silêncio do meu silêncio. O dia prosseguiu carrancudo, até que Nina acudiu com cócegas e agarros, quebrando o gelo na minha volta de lavar o carro. Logo em seguida, eis que as distantes familinhas se fizeram presentes através do milagre do zapzap, com os habituais parabéns pela data, novidades e conversas associadas. O almoço especial, bacalhau no forno, seguido da sobremesa da minha preferência, selaram a comemoração a dois, sozinhos e reconciliados…
Nina era um queixume só pelas dores que estava sentindo nos ossinhos, depois de havermos caminhado pelo comércio do centro da cidade. Eu fiz o meu papel, alvitrando que fossemos almoçar no Plaza, já que eu sou mesmo aleijado em quaisquer atividades culinárias. Mais uma vez, a abnegada arrumou forças para preparar um almocinho e só me chamou para pôr a mesa onde me sentei em frente às apetitosas batatas coradas, arroz de brocoli e um filézinho na chapa que estava, sem embargo, delicioso. Fui comendo, lentamente, degustando, com toda a calma, até que não resisti perguntar: “Nina, esta carne é aquele filé suíno que compramos ontem no P.A., suponho?!”. Ao que Nina respondeu: ”Isso aí é sobrecoxa de frango desossado, espalmado e grelhado na chapa!…”
Ri muito, desavergonhadamente! Ela ficou séria primeiro, mas depois acabou caindo também na gargalhada! Francamente, que tipo de fulano come frango e acha que está comento carne de porco?!
Observo mentes doentes nada contentes com a eliminação do ex superteam de soccer dos EUA, tratarem de sonegar os detalhes de como um grupo em outras eras considerado imbatível, conseguiu a fúria de seus compatriotas, pelo insuportável comportamento woke, desrespeitoso com sua própria pátria, sob a influência da venenosa e ridícula Megan Rapinoe.
Domingo, após noite muito mal dormida com os sintomas de infeção urinária, cistite ou o que seja desse tipo. Decidimos procurar obter prescrição para EAS e cultura da urina, além de um antibiótico empaleador, caso se confirmasse a suspeição, na emergência de um bom hospital, que pediu a módica quantia de 2000,00 pela consulta. Considerando que a minha cardiologista top especialista nas minhas mazelas cardíacas de arritmia com fibrilação atrial cobra 500, eu fiquei momentaneamente sem fôlego, mas nem tive tempo de dizer nada, porque a Nina foi dizendo à atendente que todos os sintomas haviam desaparecido de susto, enquanto se dirigia para a saída! Porque, eu havia esquecido de dizer que era ela e não eu quem precisava de ajuda. Chegando de volta ao condomínio, demos de caras com o nosso amigo e vizinho Zé Luiz, MD de clínica geral, que meia hora depois nos entregou as requisições – free of charge, pura amizade! Foi, afinal um bom domingo, apesar dos incômodos de uma cistite…
Hoje rasquei em tiras uma lista bem antiga de telefones. Fui lendo, página a página, os nomes e números ali escritos e relembrando cada uma daquelas personagens. Personagens da minha vida, uns de boas lembranças, outros nem tanto, outros ligados aos maus momentos e até à traição no seio do trabalho, quero dizer no meu mundo de sobrevivência. Fui eliminando um após outro, bons e ruins, momentâneos amigos, falsos amigos ou declarados inimigos. Em nenhum momento tive intenção de investigar quais deles ou delas continuam, como eu, entre os vivos. Eis que surge um nome que me cativou a atenção e a vontade de saber sua sorte. Um escocês que nada teve de notável durante o tempo em que juntos trabalhamos e a vida arriscamos num navio de perfuração, mas que, alguns anos depois indiquei para outra plataforma em que eu estava e aí ficamos anos só nos encontrando por alguns minutos no helipad, um embarcando outro desembarcando, ou na leitura dos diários e relatórios deixados na escrevaninha por cada um de nós. Procurei e encontrei no FB Russell Philips, escocês meio difícil mas bom de trampo, já com 74 anos de idade, também aposentado e há vinte anos vivendo em Penang na Malásia. Contou-me do passamento da sua esposa, naquele tempo lutando contra o câncer, e seu posterior casamento com uma indonésia de Borneo que é sua companheira até hoje. Nossa troca de palavras terminou com a seguinte frase dele: “Old friends are our best friends”! Fiquei, afinal, sensibilizado e feliz pelo reencontro…
Tony Bennet, o magnífico crooner, levou sua belíssima voz de invejável extensão praticamente imaculada através de sete décadas! O lançamento do seu último álbum já com 95 anos de idade, é um record que será difícil igualar. Seu estilo de gentleman nos palcos, sua maneira única de interpretar, seu respeito e admiração pelos músicos que o acompanhavam sempre me cativam quando revejo algum dos shows em blue ray que tenho no meu pequeno acervo. As várias gravações de duetos que podem ser encontradas no Youtube, são por mim revisitadas com frequência, sempre com renovada admiração, como se fosse a primeira vez.
De repente, minha realidade aflora em mim completamente irreal. Desengavetar as bikuatas escondidas há quarenta anos, que incluem papelinhos com frases das meninas: “Eu te amo, papai, eu te amo mamãe”, escrita infantil, desenhinhos, coraçõezinhos. Cartas dos nossos pais e outros familiares que há muito deixaram este plano! Tudo isso custa um bocado a picotar na máquina, porque também para nós a idade chegou, sem dó nem piedade. Fiquei piegas, não mais contenho as lágrimas, que na verdade nunca consegui conter, mas lograva esconder. Lembro de dizer num poema sobre “lágrimas que vergonhosamente me envergonho de mostrar”!
Fico por aqui, com os olhos vermelhos, não sei se de chorar ou de rir, porque outras cousas e lousas encontradas nos deram pra gargalhar, para variar e compensar…
Falar em qualquer mudança, seja de casa, de estado, de país, de status, empurra-nos invariavelmente para dolorosíssimas e traumáticas passagens de vida que procuramos manter seladas. No entanto eis-nos, uma vez mais, a enfrentar uma mudança de endereço após mais de 40 anos de permanência na mesma morada. Não obstante serem circunstâncias muito diferentes, pode ser e é mesmo uma experiência que muito mexe connosco. Especialmente se, como é o caso, estamos numa faixa etária que naturalmente nos arrasta para o desejo de permanecer na nossa habitual zona de conforto. O caos se alastra pela casa habitualmente limpa e organizada, agora tomada por caixas contendo os discos, os livros, os filmes, as utilidades misturadas com as inutilidades, roupas que se separam para doar na igreja, que se separam para usar e, pior, as outras que se separam apenas para preservar um recuerdo, porque não cabem numa perna, muito menos na cintura. “Ah! Como eramos magros e elegantes!”; “Ah! O que o tempo fez com gente!”…
Entre os escombros, encontrei um par de isqueiros “Zippo” que me foram oferecidos ao tempo de um remoto tempo em que, noutras latitudes, tomei parte em trabalhos de conversão de estruturas navais petroleiras, para uma grande firma francesa. Nessa época, em terras africanas, jovem com o sangue na guelra, eu fumava que nem uma besta, incluindo os pavorosamente fortes “Gauloises”, preferência dos homens do mar! Os tempos mudaram, mas o zippos ficaram e ficarão, sem uso, artigos de museu pessoal pelo tempo em que eu viver, porque sei que um dia, qualquer dia, alguém os descartará por mim…