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Archive for Janeiro, 2026

Horologia

Gosto de relógios. Mais do que gostar, eu sou apaixonado por relógios. Mas, ao longo da minha vida não consegui encontrar as trilhas da fortuna que me permitisse, hoje, materializar o desejo de possuir uma ou mais dessas maravilhas mecânicas, que são os medidores do tempo. Claro que não estou falando de medidores eletrônicos vulgarizados a partir da década de 70 do século passado e, pelo menos inicialmente, vendidos quase que a preço de banana. Falo da complexidade mecânica, da engenharia pura, da arte, da relojoaria tradicional, atualmente produzida exclusivamente como joias de altíssimo custo. Meu avô materno, seguido pelo único filho, eram negociantes com ourivesaria e relojoaria, pelo que ainda recordo as marcas expostas, tais como: Omega, Patek Philippe, Zenith, Cyma, Longines, e outros, ao tempo comprados pela classe média e também por operários e agricultores, com exceção do Patec, que já naquele tempo era coisa para rico. Eu possuí e destruí n relógios de pulso, sempre de marcas mais baratinhas. Com o susto do surgimento do quartzo, parecia que a horologia dos mestres Suíços iria desaparecer. Contudo, os tradicionais deram a volta por cima e reapareceram com preços somente ao alcance de poucos que também podem comprar uma Ferrari ou um Lamborghini. Finalizando, contento-me com o meu humilde “Tag Heuer”, ainda que longe do nível de valor de um “Rolex”…

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Evasão

Essa tempestade chamada de Kristin fez realmente uma lenha desgramada no meu pequenino país. Mas, preservo na memória alguns temporais violentos e cheias catastróficas no meu rio Douro. Se batizaram o mau tempo nesse tempo, eu não lembro. Mas recordo acompanhar o meu pai a “ver o mar bravo”, que incluía navios jogados nos escolhos, quebrados em pedacinhos.

Evadindo-me das más notícias, sintonizei-me na Gulbenkian para, comodamente, assistir ao vivo e com todas as cores e sons, a mais um belíssimo concerto a partir do grande auditório em Lisboa, com a orquestra completa dirigida por Lorenzo Viotti. Penderecky deixou-me literalmente em pandarecos com seu concerto para violino nº 2; a solista era a virtuose ucraniana Diana Tischenko, cuja performance divinal incluía mudanças drásticas de rosto e mise-en-scène, hora dramática, hora poética, hora de incrível agressividade, como se ela estivesse a ler para nós uma intrincada novela musical, que de fato era! Suas vestes vermelho-vivo dramatizavam ainda mais sua atuação. Os muitos diálogos dela com solistas da orquestra são mais que admiráveis, intrincados, tecnicamente extraordinários! A certo ponto, ela levou a frase e entregou-a a uma fagotista que a concluiu de um só fôlego até à quase exaustão, a julgar pelo seu rosto tingido de vermelho! A peça terminou com Diana sola, num loooongo sustain de uma só nota, seguindo-se igual tempo de silêncio absoluto até que relaxou para o grande, interminável aplauso. Teve “encore”, mas, sinceramente, são consegui identificar a peça. A mulher precisava mesmo era descansar, porque deve ter perdido uns 2 quilos. Na segunda parte, fomos brindados com a Sinfonieta em Si maior de Erich Korngold. Como não conhecia, achei que, por ser “Sinfonieta”, tratava-se de uma curta peça; ledo engano, porque é uma sinfonia longa, ou pelo menos, longa para o que eu esperava. De qualquer forma, é obra admirável de um compositor, que se mudou para os Estados Unidos, onde se dedicou a musicar filmes, com “scores” inesquecíveis e que influenciaram o estilo de compositores como John Williams (e.g. Star Wars, Harry Potter). Williams até hoje fala de Korngold como uma referência…

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Polítika

Um dia, não há muito tempo atrás, eu escrevia no meu bloguinho: “Salvo alguma honrosa e por mim ignorada exceção, currais políticos são criadouros das mais deploráveis, perigosas e peçonhentas bestas dentre os bípedes deste planeta…” Decorrido o tempo que decorreu, a minha pouco amistosa avaliação da classe política não terá certamente mudado, muito embora reconheça agora algumas não ignoradas honrosas e nada abundantes exceções.

Política, aqui em casa, pode eventualmente gerar indesejável mal-estar; não que haja contraste ideológico entre nós, mas porque eu não raramente reajo mal a que tal tema seja trazido a discussão, sem falar que não suporto televisão aberta, geralmente carregada de engajamento partidário. No entanto, entrego-me, rendo-me, para o fato de que ela gosta e não posso nem quero, nem tenho o direito de contrariá-la…

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Sanatório Geral

Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro, estão dentre as principais obras do grande Machado de Assis que lemos inteiramente, relemos aleatoriamente e sempre descobrimos algo que nos fascina. Mas Machado estende-se em Contos, em poesia e em novelas. No momento, escrevo referindo-me a “O Alienista”. A Casa Verde do Dr. Simão Bacamarte parece ter-se expandido exponencialmente e neste momento, todos nós, repito, TODOS nós, encontramo-nos internos desse gigantesco manicômio. E não adianta você vir dizer-me: “Eu não!”…

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Help!

Lembro do tempo em que, em casa, eu empreendia e levava a cabo praticamente qualquer serviço doméstico de elétrica ou de tubulação ou de pintura, mesmo após despender o melhor de mim em quatro semanas na plataforma. Adquiri uma luminária de teto com ventilador e, claro, meti os ombros na sua instalação. Vai ser moleza, garanti eu para mim próprio! Mas estou aqui todo quebrado, o negócio deu pro torto, porque não era para eu fazer isso sozinho. A Nina ajudou muito, mas ela é pequenina para segurar a peça no alto enquanto eu fazia as ligações. Acho que vou pedir ajuda externa, enfim…

PS: Conseguimos, sem externos!

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Chat GPT

“Para quem está ativo no trabalho, na profissão, aquele suspiro tipo “cheguei vivo até aqui!”
Tem algo quase ritual nisso: a semana pesa, a sexta aparece, e sente-se o corpo mudar de marcha. É como se o mundo ficasse meio cúmplice, dizendo “vai, respira um pouco”
.”

Esse arrazoado acima, foi redigido automaticamente pelo “Copilot”, quando sugeri criar um texto falando em Sexta feira. A coisada foi mais extensa, mas eu, revisor, cortei sem dó. Se cortasse tudo, não poderia falar cobras e lagartos, concluindo que não é de admirar como tem idiotice escrita nos posts de influenciadores de imbecilidade garantida. Mas isso existe, porque tem quem se deixe influenciar…

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Pérsia

Eu completava 47 anos de idade, quando testemunhava, através dos noticiários, o desenrolar da revolução que deporia a realeza iraniana. Muhammad Reza Pahlavi, sua linda esposa Fara Diva e família, abandonaram às carreiras sua terra, para não serem trucidados pela loucura homicida dos fanáticos seguidores do Aiatolá Komeini, estabelecendo uma república islâmica sanguinária que perdura até aos dias de hoje. Lembro que o Shah era acusado de muitas mortes entre os opositores, o que certamente não tenho como duvidar. No entanto, lembro de milhares de enforcados nos meses e anos que se seguiram à revolução, seja porque fossem homossexuais, ou porque fossem prostitutas, ou porque resistissem às mudanças impostas pelo tirânico poder absoluto, de um maldito regime totalitário e violentíssimo. Enquanto o sangue corria em torrentes pela velha Pérsia, não lembro de grandes manifestações da mídia lamentando que seu apoio ao Aiatolá que voltava do exílio, tenha desaguado naquele horrífico banho de sangue que se seguiu e que tem novo capítulo neste momento…

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Lucas

O Lucas é o meu único neto. Único varão de uma porção de mulheres. Mais precisamente, cinco meninas, rebentos das minhas duas filhas. Por isso, neste dia em que ele completa dezanove anos, eu não resisto a lembrar o evento no meu blog, com uma foto que dele fiz há uns catorze anos. É o passado-presente no nosso espaço-tempo registado nesse instantâneo. O futuro está presente também, a ele pertence e será o que será. Happy birthday, Lucas!

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A Sesta

O despertador eletrônico do quarto marcava catorze horas e uns quebrados, quando despertei de uma sesta bem dormida, mas mal despertada, porque queria dormir mais; e isso me incomodou, pensando no tão repetido “O sono é a antecâmara da morte”, atribuído a Hamlet de Shakespeare, mas que, nos meus passados de rapazola creditava-o a Alexandre Herculano, para contar uma piada com um insulto, atribuído a Albino Forjaz de Sampaio. Pelo menos eu me surpreendi sorrindo, enquanto levantava da cama e, meio trôpego, abordava a privada para descarregar o xixi. Eu adorava ler e escutar coisas do Forjaz de Sampaio, com os meus doze ou treze anos. Os tempos são outros, as realidades são as de oitentão com dificuldade em caminhar, mesmo forçando-me por necessidade física. Mas não custa dar uma espreitada no passado criança que gostava de hóquei em campo e quebrava a cabeça de quem me quebrava a cabeça, num olho-por-olho que sempre acabava bem, depois de alguns pontos…

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1984

A capivara posou para mim sem reclamar. Uma pose bonita, aliás, enquanto lagarteava ao Sol da tarde no Parque Bariguí. Menos à vontade nos sentimos nós, humanos, com a presença no mesmo parque magnífico, de um elevado número de “fotógrafos” ou que diacho eles são, aboletados com cadeiras, guarda-sol, computadores portáteis e, especialmente, câmeras fotográficas de alta resolução equipadas com lentes poderosas, caçando descaradamente os rostos das pessoas passantes. Ao que parece, o interesse deles é os que se exercitam correndo em volta, mas pude constatar que disparam também sobre quem foi simplesmente observar as capivaras. Isso me parece atropelo ao meu direito à privacidade. Se não é, pelo menos não deixa ninguém tranquilo, nestes tempos de tecnologia IA e ferramentas de roubo de dados pessoais, onde o rosto é elemento primário de identificação digital. Há alguns dias, eu assistia a mais um Podcast da Sabine Hossenfelder, nada tranquilizador em relação à rápida e crescente perda de privacidade em aeroportos, transportes, lojas, centros comerciais e nas ruas das grandes cidades. Sem falar no WiFi, internet, celulares com localização, etc. A novela do George Orwell é nada…

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