A idade vai avançando, estranhas recordações de vida assomam e assombram meus dias e noites. Estranhas porque tão a despropósito. Ou talvez venham a propósito, porque o presente é mesmo um despropósito. Os amaldiçoados wokes terão, sem dúvida, bastante a ver com esse estado de espírito, mas não só. Neste caso, reencontro-me, numa dessas recordações, brigando com a mecânica de uma Solex, uma desgraça francesa cujo motor teima em me deixar no pedal. E entro, incapaz de resolver a avaria, pedalando num pátio onde se reparavam bicicletas; enquanto o faço, interfiro de alguma forma com outro cliente. Era o dono de uma enorme “Jawa”, que solta o verbo sobre mim, enquanto me ameaça fisicamente. Chamou-me de “branco de segunda”, porque ele, o poderoso dono da Jawa, vociferava, aos berros, ser branco de lá, da Europa, enquanto que eu, provavelmente não teria esse status e portanto seria, no seu julgamento de jerico preconceituoso, de uma casta inferior.
Enquanto degusto com gosto uma talhada de queijo de ovelha e uma taça de vinho, surpreendo-me divertido pela súbita recordação de um tal incidente ocorrido há tantos anos – cerca de 65 ou 66, em morenas terras africanas. Mais queijo e mais vinho se seguiu, que esta vida é muito curta…
Deixe sua opinião