Feeds:
Artigos
Comentários

Archive for Agosto, 2024

Porque será que tanto mexe comigo Florbela Espanca? Aliás, Flor Bela de Alma da Conceição Espanca, assim batizada em 1894, Vila Viçosa. E lá, na sua terra natal eu a encontrei hoje, no seu mausoléu de branco mármore. Emocionei-me como se viva ela estivesse ali, falando comigo! Eu queria contar-lhe a piada do comerciante de Évora, mas não tive oportunidade. Preferi deixá-la carregar-me nos seus rubros versos…

Das noites de volúpia, noites quentes

Onde há risos de virgens desmaiadas

Ouço as olaias rindo desgrenhadas…

Tombam astros em fogo, astros dementes,

E do luar os beijos languescentes

São pedaços de prata pelas estradas…

Os meus lábios são brancos como lagos

Os meus braços são leves como afagos,

Vestiu-os o luar de sedas puras…

Sou chama e neve branca e misteriosa

E sou, talvez, na noite voluptuosa,

Ó meu poeta, o beijo que procuras!

Read Full Post »

Realidade

Realidade é constatar que famosos tão admirados em períodos da minha vida, vão paulatinamente deixando este vale de lágrimas. Alain Delon tinha apenas 8 anos mais do que eu. Não era fan dos filmes dele, mas invejava-o pelo quanto de beldades ele levou para a cama, por ser um fulano muito mais que “bem apessoado”. O filho da mãe era realmente bonito e as mulheres em geral ficavam mesmo de quatro. Que eu tenha retido na memória, só um filme carregado de erotismo, que ele rodou com a Romy Schneider. Noite passada, enquanto a Nina falava sobre o quanto Silvio Santos significou para as famílias brasileiras aos domingos, por várias décadas, eu fotografava a Lua Cheia. Ela surgiu vermelhinha e enorme e foi ficando brilhante, sugerindo que ela é, afinal, “Cheia de Vida” e não somente uma rocha flutuando no espaço…

Read Full Post »

Minha aerocuriosidade é incurável, porque intrínseca (acho). Despendi bastante tempo sobre o terrível acidente do voo 2283, chegando até a ler, na íntegra, o manual do sistema “anti-icing” do ATR72, na hipótese de que o desastre terá ocorrido, por ação de congelamento das asas e superfícies de comando aerodinâmico. Mas, atualmente, não estou totalmente convencido de ter sido icing o que derrubou o avião daquele jeito. O ATR veio para o solo tipo “folha seca”, sem qualquer propulsão longitudinal, o que é extraordinário, na medida em que pode ser ouvido nos vários vídeos que estão à disposição na net, fortíssimo ruido típico dos motores turbo-hélice em alta rotação, denotando o desespero por obter tração. Como se ambos os hélices estivessem solidamente bloqueados em passo completamente neutro! Sem tração, não há velocidade. E velocidade é vida…

Read Full Post »

Pavoroso

Em Outubro de 1994, o voo 4184 da American Eagle, um ATR 72-212 Reg. N401AM, durante a descida e pouso em Chicago-O´Hare, experimentou problemas de comando que se foram agravando até à total incontrolabilidade, ao ponto de a aeronave inverter e assim embater no solo. Impressionadíssimo, segui e arquivei os documentos gerados na investigação. As 68 almas a bordo tiveram tempo pleno para viverem o pavoroso mergulho para o inevitável. A perda de controle teve como base as condições de formação de gelo nas superfícies e articulações dos planos de comando.

A tragédia de ontem com o voo Voepass 2283, levou-me de volta no tempo e ao meu antes sentido pavor, imaginando estar enlatado numa máquina de voar que perdeu as condições de voar, arrastando-me inexoravelmente para a morte. As causas poderão nem ser “icing”, na medida em que acredito que o fabricante terá extraído lições do acontecido há três décadas e evoluído em tecnologia para evitar situação semelhante…

Read Full Post »

Verão

Segundo dia de agosto que, se para uns é mês de desgosto, para outros será de imenso gosto e também de impensável mau gosto. Calor senegalês do verão sul-europeu, sem chuva e forçados a respirar as poeiras do Sahara, que aqui chegam tocadas pelos ventos do sul e se misturam ao mau-cheiro das águas do Sena e toda fedentina exalada pela ridícula olimpiada trazida pelos ventos do norte…

Read Full Post »

A idade vai avançando, estranhas recordações de vida assomam e assombram meus dias e noites. Estranhas porque tão a despropósito. Ou talvez venham a propósito, porque o presente é mesmo um despropósito. Os amaldiçoados wokes terão, sem dúvida, bastante a ver com esse estado de espírito, mas não só. Neste caso, reencontro-me, numa dessas recordações, brigando com a mecânica de uma Solex, uma desgraça francesa cujo motor teima em me deixar no pedal. E entro, incapaz de resolver a avaria, pedalando num pátio onde se reparavam bicicletas; enquanto o faço, interfiro de alguma forma com outro cliente. Era o dono de uma enorme “Jawa”, que solta o verbo sobre mim, enquanto me ameaça fisicamente. Chamou-me de “branco de segunda”, porque ele, o poderoso dono da Jawa, vociferava, aos berros, ser branco de lá, da Europa, enquanto que eu, provavelmente não teria esse status e portanto seria, no seu julgamento de jerico preconceituoso, de uma casta inferior.

Enquanto degusto com gosto uma talhada de queijo de ovelha e uma taça de vinho, surpreendo-me divertido pela súbita recordação de um tal incidente ocorrido há tantos anos – cerca de 65 ou 66, em morenas terras africanas. Mais queijo e mais vinho se seguiu, que esta vida é muito curta…

Read Full Post »