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Archive for Outubro, 2022

Insegurança

O amanhecer de hoje colheu-me a estender, acordado, o sonho que do sono extraí e tomei por realizado. O dia decorreu, porém, sem que aquele sonho meu se haja materializado. Meu mundo, na aparência, continuou hoje tal e qual o de ontem. Mas, na realidade eu sei que drásticas pioras ocorreram. Pisei o chão com firmeza, para do chão testar a firmeza capaz de garantir suporte para o absurdo peso que sinto em mim. Penso carecer de muito mais autoconfiança para deixar de sentir-me inseguro, feito uma presa cercada de vorazes e invisíveis predadores…  

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“Boa noite, Tito Paris, muito gosto em revê-lo!”; e apertamos efusivamente as mãos, enquanto cruzávamos a entrada para o hall do teatro. Tito terá ficado a dar voltas ao miolo, de onde conhece o fulano que o cumprimentou como se tratasse de pessoa chegada ao seu núcleo de conhecimentos, ou núcleo profissional. Porque um simples fã teria provavelmente pedido uma selfie, ou um autógrafo colhido no programa da noite, que era de música clássica onde o artista era, como eu, mero espectador. Mas eu me classifico como um admirador do trabalho de Tito Paris e isso não inclui bajulação. Foi Nina que notou ao nosso lado a sua figura típica, com seu clássico boné. Aposto que por debaixo da samarra ele usava os indefetíveis suspensórios, outra das suas marcas pessoais. Enfim, admiro Tito Paris, não só porque ele é um bom músico e tem uma voz que muito me agrada, como e principalmente, por tão belas melodias que produziu para a Cesária Évora, diva da música cabo-verdiana. Na minha juventude em Angola, fiz-me apaixonado por mornas e coladeiras.

Agradou-me muito o concerto da noite, com a excelente Orquestra Clássica Metropolitana em toda a sua juventude! Abertura Coreolano, de Beethoven, Concerto para saxofone, de Glazunov, Sinfonia incompleta de Schubert. Menção especial para o solista, saxofonista M. Teles – admirável performance!

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A Livraria

Agustina acabou de completar um século de nascida e eu sigo lendo-a, já encarando o quarto de seus livros, mas reconhecendo que preciso relê-los para entrar plenamente no âmago da escritora. Esta semana levaram-me até uma “livraria” situada numa praça de uma pequena povoação alentejana. Os livros lá empilhados são de puro mármore e convidam a junto deles sentar num dos bancos e mergulhar na leitura. Agustina foi lembrada, porque um dos livros de mármore tinha entalhado o título “A Sibila” …

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O Bolhão

O motorista do táxi explicava com entusiamo as virtudes do renovadíssimo mercado do “Bolhom”, apesar de concordar que falta aquela pitada de tradicionalismo das antigas peixeiras aparentemente zangadas umas com as outras, que soltavam com toda a naturalidade os mais cabeludos palavrões. O Bolhão não está mais o mesmo: Paredes e tetos reconstruídos, metais decapados das ferrugens, metalizados, primorosamente pintados, bancas de vendedores funcionais e bem organizadas. Tudo convertido em atração turística! No entanto, para mim, portuense de nascimento, há o saudoso vazio daquelas duas mulheres que noutros tempos surpreendi conversando sobre seus amores e desamores enquanto exibiam retratos dos amados, que de forma sacana passavam sub-repticiamente sobre o baixo-ventre. O falecido Chef Bourdain teve oportunidade de escutar duas peixeiras comentando sua altura: “…Ele é bem alto! Mas dizem que homem alto, piroca pequena!”

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Mediocrices

Com o último trimestre do ano em pleno curso, contabilizo a inutilidade do meu dia a dia vagando pelas internetas, assimilando coisas medíocres tratadas como grandes assuntos. O intestino muda-se para o cérebro, as ideias resultam malcheirosas e levam-me ao vexame de sentir-me descartável. Seria terrível, não fora o contraveneno de leituras sérias, produzidas em outros tempos por respeitáveis e venerados homens e mulheres de letras. Nos últimos tempos venho despendendo uns cobres a jogar nas lotéricas sortes, sem que sorte alguma premie os trocados investidos. “Jogar é a primeira tara da civilização…” escreveu num dos seus livros Agustina Bessa-Luís. Nunca fui, todavia e felizmente, jogador de compulsão, sequer jogador habitual. Mas, não sou de todo impermeável à promessa de milhões despencando em cascata nas minhas murchas algibeiras…

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