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Archive for Agosto, 2022

Odisseia

Decidido! Desta vez faríamos jus aos caraminguás há tanto tempo pagos pelos ingressos sênior para visitar a Quinta. Havendo certificado que os ingressos estavam ainda válidos e à mão no telelé, programei o GPS para as coordenadas da entrada da desejada Quinta. O resto foi mú-mú: A2, A5, IC19, chegada a Sintra, N375…bingo! Eis-nos nos portões principais da Quinta. Agora só faltava arrumar um lugar pro carro. A estradinha estava coalhada deles – de carros e fomos avançando de mansinho, convencidos que em algum momento surgiria um espaço. 500 metros depois, descemos uma ruazinha que descobrimos sem saída e sem vagas – voltamos para descobrir que a estradinha que nos trouxe, era sentido proibido para retornar! Lá seguimos subindo para o desconhecido, cada vez mais longe do objetivo, cada vez mais embrenhados no serpentear de estreitas vias no meio da floresta, entretanto com a bexiga estourando. Eis que surgem os portões forjados de uma outra Quinta que não a Quinta que pagamos. Deve ser uma Quinta menos importante, porque sobravam vagas no estacionamento em frente. Havia também mesas rusticas com famílias devorando seus farnéis à sombra magnífica das frondosas árvores. Estacionei o carrinho e saí procurando um lavabo, um WC, um mictório. A moça da entrada da Quinta disse que se eu pagasse o ingresso, teria um “lá no fundo” – não sei se do inferno. Com vontade canina, procurei desesperadamente uma árvore naquele mundo de árvores. Encontrei-a num recinto emburacado, pejado de lencinhos higiênicos. Homem não costuma usar lencinhos para enxugar o biquinho do perú. Então, concluí, o lugar é mijadouro unisex e eu não perdi mais tempo. Felizmente a minha +que tudo não experimentava tal urgência fisiológica e esperava-me dentro do carro, tranquila e mordaz, escutando música. Foi longo o caminho florestal percorrido até ao retorno a Sintra, onde esperávamos finalmente estacionar e de lá cavalgar um tuk-tuk salvador que nos conduzisse às portas do paraíso iniciático. Mas também lá, entramos em labirínticos caminhos seguindo setas idiotas e mentirosas. O saco estourou e, perdido, programei o GPS para me guiar de volta a casa. Quando à Quinta, coloquei no som a de Beethoven…

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Despertar

…E lá está o Sol que rompe as névoas da madrugada, por entre meus repetidos bocejos de mal acordado. Brilhará ao longo de mais um magnífico dia de incomparável azul-celeste, ou não; dizem que teremos umas chuvicas esta semana. Que venham, para regar um pouco toda essa secura e pincelar de verde-esperança, o negrume da terra queimada…

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Volta

Na ausência, relocalizei-me e reciclei-me. A reciclagem poderá não ser muito credível, contudo, porque não fui capaz de defini-la. Nessa ausência de razões múltiplas, que poderão até ser condensadas em perda pura e simples de confiança em mim próprio, senti volatizada toda a vontade de escrever, enquanto ruborizava envergonhado, se relia textos meus. Na procura por energias, prossigo em leituras e releituras – Marcel Proust, Agustina Bessa-Luís…

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Ereção

Ereção

O tempo virou, esfriou, está ventoso e desagradável; reclamo, como reclamava há uma semana atrás pela razão inversa, de temperaturas de veranico. Apraz-me, pois, queixar-me por qualquer coisa de coisa qualquer. Há dois dias que venho observando a montagem de uma grua enorme de construção civil. Nos meus tempos de atividade offshore eu chamaria tal operação de “ereção”. Agora eu evito, curiosamente, cautelosamente, usar o termo, mas não explico o porquê da cautela. Realizo que é obra de grande investimento, a julgar pelos meios em equipamento sendo empregues. “Só pode ser edifício” – concluo e desligo…

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Leitura

É na leitura que encontro, ou pelo menos tenho encontrado, o alheamento que tanto almejo. Alheamento da (para mim) insuportável realidade que me rodeia, cotidianamente descarregada em vómitos de fel pelos noticiários da TV que a mim chegam em sons surdinados, através das frinchas das portas que fecho para me isolar. Concedo razão a quem me considere um tipo bem esquisito que se tranca num casulo recusando ouvir o mundo, como se ao mundo não pertencesse. Mas sim, sei-me escravo desse cruel planeta onde nasci, lá atrás no tempo, num exato momento em que multidões de semelhantes eram queimados vivos em dantescos rios de fósforo descendo dos céus em nome da paz…

Na leitura, convenientemente escolhida de acordo com o meu desejo e humor do momento, logro transportar-me a outras dimensões, necessariamente menos catastróficas, ainda que, aqui ou ali, muito sofridas por amores que findaram ou que nem se iniciaram porque não correspondidos, ou descrevendo o penoso atravessar de grandes dificuldades de sobrevivência, porque viver é uma aventura que pode ser extraordinária, vencedora, ou miseravelmente ordinária…

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