Ah! O convite ao recolhimento e contemplação: A nossa Lua, em toda a vermelhidão de recém-nascida! Em alguns, a meu ver, longos minutos, as cores do parto terão dado lugar ao brilho feérico que iluminará minha noite. Digo minha, porque sou eu quem para mim próprio canta ao descaramento prateado da diva. Se você dela gosta como eu gosto, solte-se e solte seu pessoal cantar, que eu, asseguro, não vou me incomodar…
Nada em mim de mim esconde os efeitos do meu envelhecimento. E o espelho colabora de forma ativa e desapiedada, refletindo o que de mim remanesce. Tenho vontade de descrever em detalhe o que refletido vejo, mas duvido do que vejo e isso, de certa forma, acaba por me ajudar. Descobri na piscina pública que tenho frequentado por determinação médica, coisas novas a meu respeito: Por exemplo, que ao contrário de quando era jovem, procuro agora esconder meu corpo no vestiário durante o banho e troca de roupa. Insegurança é meu nome, incluindo nisso a constatação de quão mau nadador eu sou ou estou, apesar das loucuras cometidas em alto mar nas lides de “moon pool” e nas aventuras de caça submarina a pulmão livre. Seria aquele o mesmo eu? Cessarei pois, de mim, os cânticos às epopeias a que sobrevivi, porque meus valores não mais tão alto se alevantam…
Dezdejunho cutuca-me no meu tão cedo despertar, para me lembrar a minha data por português haver nascido. Minha pátria tem um não-sei-quê que me orgulha e me faz reagir geralmente mal quando ela é vilipendiada e agredida por “nacionais” de escroto jaez com vocação de traidores. Reafirmo deles ser abertamente inimigo, enquanto ratifico indeléveis juramentos…
Muqueca de arraia com pirão de milho, bem picante, híper apaladada, de fazer inveja a qualquer cozinheira baiana, foi o almoço preparado e servido pela Nina quando cheguei de volta a casa, cansado das muitas braçadas na excelente piscina municipal de Palmela. Não terá sido a melhor resposta às minhas queixas de completa falta de preparação física para enfrentar a natação que, espero, me ajude a consertar meus ossos, mas foi uma festa para a gula…
Procuro viver, pois, porque o cavaleiro da foice está ativo como nunca e ontem mesmo, teve o atrevimento de ripar R.J., meu patrão por várias dezenas de anos. E ele era um fulano de incalculável capacidade empreendedora, workaholic incurável, meu companheiro de algumas aventuras muito doidas em estranhas e perigosas estruturas de extrair energia nos mares. Por alguns momentos passa-me pela mente a admiração e, convenhamos, a inveja positiva que eu nutria pela largueza da sua visão numa atividade de custos e resultados multimilionários, mas pejado de riscos tão gigantescos, que se me afiguravam como pura loucura na minha ótica de simples “Oilman”…
Mas o mundo do poderoso R.J., admirável empregador massivo, ruiu e viu-se arrastado pelos tenebrosos efeitos da estagnação pós lava-jato, seguindo-se a desastrosa queda dos preços do petróleo quando os modernos e ultradispendiosos equipamentos começavam a pagar-se em outros campos do mundo. A sobrevivência da indústria está mundialmente na corda-bamba e a figura do “Oilman” desaparecendo em todos os níveis…