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Archive for Março, 2021

Quaresma

Acabei de assistir a Orquestra e Coros da Gulbenkian no seu magnífico “Paixão Segundo São Mateus” de Bach. Na semana da Quaresma, o concerto acabou por arrastar-me, vil descrente mas melômano apaixonado por música antiga, para os tempos de criança nas poucas oportunidades que a vida me deu para estar presente e viver as delícias da quadra na milenar Sta. Maria de Salzedas, berço dos meus pais. Ainda soam e repercutem ao longo dos túneis da minha memória, a música da banda da aldeia e os foguetórios de Aleluia e do domingo de Páscoa, as doceiras com as gostosuras do melhor das tradições em seus tabuleiros, que incluíam amêndoas doces, as cavacas, o trigo amarelo, os biscoitos. As longas missas solenes na majestosa e imensa igreja do Convento, eram cantadas por alguns incríveis músicos-cantores locais e parte da banda e recordo a para nós velha senhora das antiquíssimas tulhas do Convento, do alto da sua ilustre figura, pilotando com maestria os complicados teclados, inúmeros pedais e registos manuais do órgão sem idade. Durante todo o tempo, homens do povo revezavam-se pedalando o pesado fole que fornecia o ar com energia suficiente para que as notas fossem geradas e fluíssem através dos tubos do velho instrumento…

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Quem gosta e sente a poesia, sabe que a poesia conta, no universo da literatura, com uma massa reduzida de leitores que a apreciem. Mas, quem gosta e sente a poesia, não deixa de criar e publicar cotidianamente em blogs e páginas sociais na internet, esperando que um ou outro poeta leia, goste e, suprema alegria, diga que gostou. A modernidade brindou-nos com essa modalidade de expor as estrofes que produzimos, sem nos lançarmos à aventura pelos difíceis caminhos da publicação em livro. Aos que, como eu, adoram a poesia e se atrevem a, em repentes de alma, dar à luz textos poéticos de maior ou menor valor literário, recomendo a leitura de “Os fios Da Escrita”, ensaios literários do Poeta e Escritor Adalberto de Queiroz, membro da Academia Goiana de Letras. Seguindo os fios, percorreremos cerca de 300 páginas de excelentes artigos sobre poetas e escritores brasileiros e estrangeiros, sonantes nomes de celebridades que bem conhecemos, outros eventualmente mal ou menos conhecidos, o que faz da publicação de Adalberto Queiroz, na minha opinião, para além da indubitável excelência literária, uma peça de valor didático. Parabéns, Mestre! E não me leve a mal haver optado pelo Kindle…

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Melhorar

Sábado, vigésimo dia de um Março quente que escorre rapidamente pelo suor e pelas dores de uma “artrose brava”, segundo informação do ortopedista. Não sei de onde, escuto a voz inconfundível de Martinho da Vila numa antiga mas sempre atual gravação repetindo que sim, que “a vida vai melhorar”! Naquele tempo, mais de quarenta anos lá atrás eu acreditei que sim, que iria, porque não? Mas o momento, ou pelo menos o meu momento é pouco propício para conseguir agarrar de volta o otimismo que me escorregou da mão. Vamos vivendo o dia a dia entre paredes, com a falta de paciência puxando o mau humor, que chama a depressão que ronda perigosamente nas imediações. Procuro equilíbrio para prosseguir interrompidas leituras, procuro sem alma, a alma para fazer soar de novo os silenciosos instrumentos…

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Royalty show

Sou mesmo de outras eras e isso faz de mim um sujeito com alguns dispositivos engatilhados de acordo com a minha criação de outras eras. Traição, invariavelmente, dispara um desses dispositivos. Harry traiu sua família ao ceder à estúpida exposição da roupa encardida que deveria ter sido devidamente lavada em casa. Meghan Markle “should have known better” antes de aceitar casar com um membro da realeza, significando submeter-se aos tradicionais grilhões da monarquia, or else. A merda jogada no ventilador vai gerar no futuro mais um malcheiroso campeão de audiência da Netflix. Afinal, são eles os alquimistas que transformam merda em ouro…

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Setentaesete

Poderia eu afirmar-me pessoa de hábitos irrepreensivelmente saudáveis ao longo da minha vida? A minha resposta seria, digamos, dúbia, porque eu fui fumante pesadíssimo até aos meus 32 anos de idade e, até há uma porção de anos atrás eu era perfeitamente incapaz de recusar um whisky on the rocks ou um Gin tônico, ou que bebida fosse que contivesse álcool. Em minha defesa, eu diria que bebia muito bem, sem beber-me em demasia ao ponto de triste figura, que me orgulho nunca haver feito! Mas vangloriava-me, exagerado e fanfarrão, de tomar tanto whisky quanto Vinícius de Morais. Agora, quase abstêmio, não fossem as raras taças de vinho tinto acompanhando algum prato especial, não tenho certeza de que me arrependa de exageros d´outros tempos, mas magoo-me, sim, toda a vez que me surpreendo com um forte sentimento de culpa por adoecer, como se adoecer ou não dependesse da minha vontade. Ainda penso que ficar “estupidamente doente”, leva-me a perder o meu antigo prestígio de sujeito de alta resistência e à prova de tudo. Eis-me completando no dia de hoje 77 anos de idade, aceitando que a tal resistência de que me orgulhava vai num diminuendo. Fato: Sou um idoso com as fragilidades de um idoso – Fim-de-papo.

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Dia das mulheres

Redigi algumas linhas sobre as mulheres, mas não consegui manter o discurso demasiado longo, demasiado baba-ovo, num tempo de mulheres poderosas ou, como modernamente se diz, “empoderadas” que não carecem de matéria elogiosa dos marmanjos para se elevarem.  Pouco aproveitei do escrito original que insistia na minha tecla pessoal de grande admirador de mulheres inteligentes. Não que se encontre muito mais inteligência entre a população feminina atual. Mas é notável a superioridade da inteligência da mulherada no uso da sua inteligência. Bem, há sérias ressalvas no uso de toda essa inteligência na hora de procurar o amor, mas fica para outra ocasião…

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Surpreendo-me com desejos de voltar à poesia, mas a poesia surpreende-me com desejos que longe dela eu permaneça. Poesia é tal qual a música: quanto menos a praticamos, mais de nós ela se afasta e nos repudia, estranhos que passamos a ser à arte de rimar expressivas sílabas, ou melodiosos grupos de não menos expressivas notas. Sinto-me então enjeitado, mesmo dando-me conta de que fui eu próprio que me enjeitei, ao abandonar-me à mediocridade. “Nunca serei um poeta”, sentenciei sem veemência, na esperança de manter alguma esperança. Mas os anos passam, os farrapos da minha pobre poesia desagregam-se e eu cansei de mim…

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Passeio

Sem condições para acompanhar o ritmo de caminhada da Nina, procuro relaxar-me em passada-de-tartaruga pelas admiráveis belezas de uma manhã iluminada. A pedra de Itapuca em primeiro plano, parece realçar toda a força do verde-azul da Guanabara e suas belíssimas elevações. Lá estão o Pão de Açucar, a Urca, o Corcovado! Lá, longe, ao fundo, a Pedra Bonita. Paisagem linda, da Cidade Maravilhosa tão cantada e tão vilipendiada. De perto, bem pertinho, a realidade acaba por esmaecer toda essa beleza. Paro um pouco enquanto admiro o trabalho dos que mergulham para garimpar entra as rochas os quilos de mexilhão que vão sendo carregados nos botes. A sobrevivência pode ser bem difícil e trabalhosa. Adivinho que depois da colheita, há que preparar e transportar tudo para quem compra, que são os restaurantes que, neste momento, sofrem horrores para conseguirem manter-se. Os meios de vida estão todos nas vascas da morte…

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Shrink

Com vários fios ligados do meu tórax a um aparelho Holter, encontro dificuldade em adormecer. Uma vez mais, levantei e retornei ao escritório. Mecanicamente, liguei o PC e abri o word na folha dos textos do corrente ano, mas fiquei longo tempo de olhar perdido sobre as últimas frases lá escritas sem direção, sem motivação, sem razão. Deveria eliminar tais frases que nada iniciam e a nada conduzem? Decido-me por preservá-las para uso posterior, ou descarte posterior. Ao iniciar outra coluna, queixo-me das dores nos meus ossinhos. Mas desisto dos ossinhos falar, para não dar parte de fraco e dizer que me sinto doente. Não sei o que tenho e espero que os médicos interpretem os holters, mapas, raios dos Xis e análise de sangue e xixi e me digam, se puderem, quanto tempo ainda me resta de vida. No decorrer do presente mês, espero completar 77 – setenta e sete. Com o mau momento ósseo, logo me lembro de enxergar os dois 7 como duas bengalinhas para me apoiar! A minha maisquetudo diz que eu preciso mesmo é de um bom shrink…

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