
Acabei de assistir a Orquestra e Coros da Gulbenkian no seu magnífico “Paixão Segundo São Mateus” de Bach. Na semana da Quaresma, o concerto acabou por arrastar-me, vil descrente mas melômano apaixonado por música antiga, para os tempos de criança nas poucas oportunidades que a vida me deu para estar presente e viver as delícias da quadra na milenar Sta. Maria de Salzedas, berço dos meus pais. Ainda soam e repercutem ao longo dos túneis da minha memória, a música da banda da aldeia e os foguetórios de Aleluia e do domingo de Páscoa, as doceiras com as gostosuras do melhor das tradições em seus tabuleiros, que incluíam amêndoas doces, as cavacas, o trigo amarelo, os biscoitos. As longas missas solenes na majestosa e imensa igreja do Convento, eram cantadas por alguns incríveis músicos-cantores locais e parte da banda e recordo a para nós velha senhora das antiquíssimas tulhas do Convento, do alto da sua ilustre figura, pilotando com maestria os complicados teclados, inúmeros pedais e registos manuais do órgão sem idade. Durante todo o tempo, homens do povo revezavam-se pedalando o pesado fole que fornecia o ar com energia suficiente para que as notas fossem geradas e fluíssem através dos tubos do velho instrumento…

