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Archive for Fevereiro, 2021

Get Back!…

“…Get back to where you once belonged!”, escutei o número dos Beatles agora pela décimamilésima vez na minha vida e soou-me como se fosse um novo sucesso. Eu precisava mesmo voltar, tomando atalhos para contornar o meu momento tão abarrotado de dúvidas sobre as certezas e de certezas sobre terríficas dúvidas. Os tempos são mesmo para os muito fortes, dirão, como certamente dirão que são para os homens de fé. Eu nunca achei que eu me enquadrasse em nenhum dos casos, muito embora, paradoxalmente, forte eu haja sido em tantas provações, misturando força de carácter com fé e falta dela. Agora aqui estou eu, espremido entre dores, pavores e horrores perante a verdade crua e nua, sem paradoxos: A vida, que sempre foi frágil, atingiu níveis extraordinários de fragilidade. Pela periculosidade da peste da vez e, para mim, pela fragilidade que sinto perante as moléstias que tanto me molestam…

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O idoso achegou-se silenciosamente à porta da cozinha e observou pensativo e pesaroso, o vai e vem da vassoura engenhosamente embrulhada feita um rodo sobre a superfície molhada com água e detergente. Comentara um pouco antes que os pisos da cozinha e área encontravam-se brilhantes e asseados, não justificando, a seu entender, a necessidade de tal faxina. Não adiantou, porque os padrões de qualidade do casal no que concerne a limpeza parecem diametralmente opostos. Pensando um pouco mais, as divergências tendem a passar além dessas simples coisinhas domésticas, mas não é isso que agora está em foco. Como atravessa uma fase de dolorosos problemas ortopédicos, o homem pergunta-se como ela consegue! Afinal, trata-se de uma mulher nos seus 75 e que sempre trabalhou muito! Vai ver que por isso mesmo, ela não consegue ficar um pouco mais de tempo parada! Ah como é cansativo vê-la naquela azáfama permanente, feito frenética formiguinha! Não tardará, pensou, iria escutar o habitual lamento: “Quando está limpo, ninguém repara nem valoriza todo o trabalho que deu, mas se deixar sujo…” Enfim, retirou-se o homem em silêncio de volta para seus habituais afazeres com o computador e seus periféricos, outrora valiosas ferramentas agora transformadas em instrumentos de lazer, finadas que há muito foram as tão saudosas atividades remuneradas. Ficou mais frequente sentir-se como que um peso morto. Não morto, no sentido de morto mesmo. Mas no mínimo, moribundo. “Peso moribundo é ótimo!” pensou sorrindo. Relembra  um período conturbado a bordo de um Navio Sonda, depois de sofrer uma pequena queda que o deixou com um braço dolorosamente contuso, pisado. A dor incomodava-o e, mesmo sem querer, agarrava o braço e queixava-se de quando em vez. Um operador rádio observou-o por um tempo e disse-lhe: “Você está moribundo e não sabe!” O tal operador não sabia da missa a metade, não por ser judeu, mas por tanto desfrutar da sua boa vida sem risco de acidente em seu tranquilo e climatizado ambiente de trabalho. No convés a história era uma realidade imensamente diferente. A dona de casa tem razão; Ninguém dá valor ao trabalho dos outros, a não ser que dê pro torto e tudo pare…

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Do Nada

Creio existirem variadas formas de fazer nada. Entendo que os efeitos aumentam se aos trabalhos de fazermos nada incluirmos, em doses a gosto, o pensar nada. Quando enceto uma fatigante atividade de produzir nada, acabo esgotado e com sérios problemas gerados pelos efeitos colateriais de nada fazer, especialmente se acompanhado do atrás dito nada pensar. Concluí então ser prudente adicionar um touch de pensamento pouco ou nada profundo às atividades, especialmente as mais severas. Tentar modificar o valor de Pi, por exemplo, sendo como é uma perfeita inutilidade, todavia já emprega um nível de pensar, que nem é bom pensar. Idióticos pensamentos de políticos idiotas certamente que ajudariam, não fossem eles, os políticos, quem mais se dedicam à produção de nada, por tortos, caóticos e sujos caminhos. Aqui para nós: Fico por aqui, porque estou mesmo a fim de fazer nada…

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Diminuido

Porque me sinto assim

com esta fragilidade,

perdi confiança em mim,

terei perdido a tenacidade?…

Sinto muito sentir que perdi mesmo confiança naquela tenacidade além da resilência que fazia de mim a pessoa que me conheço, ou que eu achava que conhecia. Mesmo considerando a obrigatoriedade diária de tomar um exagero de drogas para me manter, com todos os seus lamentáveis efeitos colateriais incluindo nisso o humor, vinha resistindo razoavelmente ao longo dos anos. Devo ou não acusar o avanço da idade como principal culpado? Devo, claro, porque o avanço da idade vai fatalmente alterando as capacidades. Sei que preciso concentrar-me para gerar defesas e remar contra a corrente que tão enexoravelmente me arrasta. Mas tem esta praga de artrite ou lá o que seja que me acometeu desde pouco antes do Natal e me quebra as vontades…

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Já tive melhores momentos na minha vida, mas reconheço que estar com vida e alguma esperança já é coisada positiva, afinal. Comprei uma impressora nova, com forte cheiro a nova, para minha alegria – porque as minhas duas narinas reconheceram cada odor. A minha velha HP com uma dúzia de anos deu o que tinha pra dar e pronto. Dir-se-á: Mas impressora não é necessária – ela consome árvores, etceterá, etceterá. Mas fiquei feliz com a minha comedora de árvores que também digitaliza e não carece de um cabo ligado ao PC, porque é inalambrica como dicen los hermanos.

Dia destes, no espaço FB da Laura Rónai, ela compartilha uma matéria de Luiz Ribeiro, que não conheço, mas de cujos textos Laura se declara admiradora, o que é recomendação mais que respeitada, porque ela não é “só” grande musicista e flautista de dotes virtuosos. Quando se dispõe, ela escreve muuuuito! Então o Luiz Ribeiro, lendo “A Cidade Sitiada” de Clarice Lispector foi tão impactado pela frase “ Sem ser pai, já não era filho” pinçado dos pensamentos de Perseu dentro do trem que partia, que a tomou como mote para escrever sua coluna. Já eu, velho filho, pai e avô, só consegui ser impactado pelos dois cálices de Porto que o personagem ingeriu. Tenho no Kindle e li A Cidade Sitiada há já algum tempo – mais que suficiente para esquecer o que eventualmente foi memorizado pelo par de neurônios que me restam. Vou ser franco: A obra não me tomou pela alma e agora, vejam só, tenho a petulância de achar-me um pouco mais em condições de entendê-la. Ou talvez não, veremos…

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