Confesso que os meus tão recentes problemas ósseos, desencadearam-me sérios problemas óceos – quero dizer, de ociosidade mesmo, sem vontade outra que permanecer no meu canto sem fazer porra de nada. Mesmo assim, enfrentei o meu velho carro que já nem imposto anual paga em razão da sua provecta idade, coisa que deveria ser aplicada em mim, seu proprietário de provecta idade, dobrado e manquejante sobrevivente de uma vida inteira de desgastante trabalho. Liguei o borne positivo da bateria – os circuitos emitiram alguns gritinhos e gemidos de prazer, acredito que por trazê-los de volta à vida, porque eu sempre desligo a bateria por existirem fugas no sistema elétrico. Sentei-me aos comandos, dei a volta à chave e a resposta foi plenamente satisfatória: O motor de 2Litros virou obediente e sem rateios – “Oras”, pensei, “só fez sua brigação porque, afinal, é um jovem com apenas 130 mil rodados, apesar dos anos”.
Agora eu já estava no supermercado, acompanhando a minha+quetudo nas compras. Tá todo o mundo mascarado e, em consequência, não se veem caras. Conjeturo que, uma vez que se não veem caras, poderiam ver-se os corações. Mas não! Caras, só mesmo as frutas, verduras e mercearia. Todos os corações passam por mim batendo fraco demais para serem notados, muito menos vistos. Sorrio, pensando no susto se alguém escutasse meu coração batendo fora de ritmo deste jeito…
Agora passa junto a mim uma mulher – observem que eu disse “mulher” e não “uma pessoa com vagina”, o que ratifico, porque o texto é meu e vim ao mundo nos conturbados idos de milnovecentosequarentaequatro. Uma mulher, dizia eu, de pele muito branca, loura, de olhos azuis. Nenhum desses atributos me surpreenderia, não fora a profusão de multicolorida arte tatuada nos alvíssimos braços e porções expostas do peito e pernas da criatura! Não segurei e disse para a minha menina: “Vai ver que a arte tatuada é a excitatriz do homem dela!”.
Então, finalmente, cansei de pensar mal sobre a vida dos circunstantes. Mesmo a tempo, porque a minha companheirinha ordenou: “Vamos pra caixa”! Ordens são ordens e pronto!
À chegada a casa, cumpri com rigor as instruções dela para desinfeção, lavagem de mãos, desnude pelado, chuveirada com muito sabão. Tudo isso e todo esse tempo, suportando estas dores ósseas que me compelem ao ócio…


