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Archive for Janeiro, 2021

Ósseo

Confesso que os meus tão recentes problemas ósseos, desencadearam-me sérios problemas óceos – quero dizer, de ociosidade mesmo, sem vontade outra que permanecer no meu canto sem fazer porra de nada. Mesmo assim, enfrentei o meu velho carro que já nem imposto anual paga em razão da sua provecta idade, coisa que deveria ser aplicada em mim, seu proprietário de provecta idade, dobrado e manquejante sobrevivente de uma vida inteira de desgastante trabalho. Liguei o borne positivo da bateria – os circuitos emitiram alguns gritinhos e gemidos de prazer, acredito que por trazê-los de volta à vida, porque eu sempre desligo a bateria por existirem fugas no sistema elétrico. Sentei-me aos comandos, dei a volta à chave e a resposta foi plenamente satisfatória: O motor de 2Litros virou obediente e sem rateios – “Oras”, pensei, “só fez sua brigação porque, afinal, é um jovem com apenas 130 mil rodados, apesar dos anos”.

Agora eu já estava no supermercado, acompanhando a minha+quetudo nas compras. Tá todo o mundo mascarado e, em consequência, não se veem caras. Conjeturo que, uma vez que se não veem caras, poderiam ver-se os corações. Mas não! Caras, só mesmo as frutas, verduras e mercearia. Todos os corações passam por mim batendo fraco demais para serem notados, muito menos vistos. Sorrio, pensando no susto se alguém escutasse meu coração batendo fora de ritmo deste jeito…

Agora passa junto a mim uma mulher – observem que eu disse “mulher” e não “uma pessoa com vagina”, o que ratifico, porque o texto é meu e vim ao mundo nos conturbados idos de milnovecentosequarentaequatro. Uma mulher, dizia eu, de pele muito branca, loura, de olhos azuis. Nenhum desses atributos me surpreenderia, não fora a profusão de multicolorida arte tatuada nos alvíssimos braços e porções expostas do peito e pernas da criatura! Não segurei e disse para a minha menina: “Vai ver que a arte tatuada é a excitatriz do homem dela!”.

Então, finalmente, cansei de pensar mal sobre a vida dos circunstantes. Mesmo a tempo, porque a minha companheirinha ordenou: “Vamos pra caixa”! Ordens são ordens e pronto!

À chegada a casa, cumpri com rigor as instruções dela para desinfeção, lavagem de mãos, desnude pelado, chuveirada com muito sabão. Tudo isso e todo esse tempo, suportando estas dores ósseas que me compelem ao ócio…

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Medo

A semana escorreu por entre meus tensos sentidos e receios, em louca correria em direção ao medo. Sempre tive medo de ter medo e por isso sentia enorme prazer em na cara do medo dar risada. Mas os meios de vida estão, como nunca, perdendo a vida, enquanto as pestes, biológica e política por seu turno cheias de vida, expandem-se em hiperatividade em direção ao caos. Riso, só de nervoso…

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Update

Voltei à farmácia e tomei a segunda injeção receitada há três semanas pelo Ortopedista que me examinou. É que as dores na perna nunca desapareceram por completo. Até este momento, a grande vantagem do tratamento de choque com anti inflamatórios, é que não mais estou anósmico! Como por milagre, passei a sentir todos os cheiros do planeta, coisa de que não desfrutava havia uns bons dois anos e a cuja deficiência acabei (mal) acostumado. Quanto tempo vou desfrutar do meu olfato eu não sei, sabendo que os meus problemas são resultantes de alergia e de póliplos nasais que teriam de ser cirurgicamente removidos.

Tem crescido drasticamente minha decepção pelas chamadas redes de relacionamento social, todas elas transformadas em insuportáveis campos de batalha política. Acabei de abandonar a minha conta no Twitter, mas encontro dificuldade em abandonar o FB. Comecei a colocar mais algumas fotos no Instagram, ao qual muito pouco uso dava, mas oh tristeza também aquele é campo minado, “assim” de idiotas achando-se donos de “verdades” do absolutismo aspirante a dono da vida e da morte dos cidadãos. Odeio todas as vertentes políticas, com ênfase nas tiranias que enxergam a “salvação” no arbítrio de estado, com parcial ou total cerceamento de liberdades fundamentais.

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Oxigênio

Uma vez mais satisfaço minha curiosidade e vejo os números da maldita. Manaus, município de 11,400Kms2 e 2.2 milhões de habitantes, em crise porque as plantas da maior e mais importante produtora/fornecedora de gases industriais e médicos (a White Martins) instaladas na região, não conseguiram com a necessária rapidez elevar sua produção para as necessidades hospitalares, apresenta uma alarmante subida do número de casos. Há, pois que trazer oxigênio médico de outras plantas o mais perto possível, com maior produção para atender. Até ontem, dia 16/01/21, em toda a duração da pandemia, há a lamentar um total de 2.832 óbitos, o que resulta em cerca de 1.287 óbitos por milhão. Número lamentavelmente alto mas, mesmo assim, menor que por exemplo o município de Curitiba, Paraná, com uma população de 1,94 milhões e que contava até ontem 2.949 falecidos, o que dá cerca de 1.527 óbitos por milhão.

Continuando, o estado do Amazonas, com seu enorme território de 1.571.000Kms2 e apenas 4,2 Milhões de almas, em razão do mau desempenho de Manaus, lamenta um total de 3467 falecidos, que resultam em cerca de 825/milhão – menos que o “rate” total brasileiro. Melhor não falarmos do município do Rio de Janeiro, cujos números são bem mais alarmantes.

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Suponho…

…Enquanto estou a Sabadar uma manhã de fortes e ásperos tons de cinza, tão ásperos que sinto arranharem-me a pele. Sentado na varanda, meus olhos travam sobre um ponto no além de enevoado verde escuro. Tristemente me alegro, suponho que por me sentir ameaçado, suponho que por estar vivo maugrado as ameaças. Mas ameaçado eu sempre estive ao longo da minha tão longa e aventurosa vida – Longa, se comparada aos meus familiares que tão jovens se finaram, mas que será muito curta, se comparada à longevidade nas minhas filosóficas expectativas, nas quais naturalmente suponho flanar nas supranaturais fronteiras da física imortalidade. Conheci-me verdadeiramente a mim próprio brincando de imortal, especialmente nos momentos em que graves perigos me espreitavam em tocaias paraletais. Momentos em que tive medo, suponho porque me lembrei de sentir medo, suponho que por sentir que tenho um cú. E, como sabemos, quem tem, tem… Largo, afinal e generosamente, minhas suposições à rédia solta e elas, tal como eu supunha, mergulharam em terrenos movediços das aterradoras e nauseabundas fossas políticas. Optei por abandonar minhas suposições deste sábado de cor cinza mais rascante que palha d´aço…

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Deveria colocar mais exclamações, mas esta uma que no título coloquei, por pequenina que pareça, é do tamanho do Himalaia. As moças são mesmo admiráveis instrumentistas e eu acabei acachapado pelo tanto de virtuosismo. A live delas foi ontem à noite, mas acordei esta manhã compelido a procurá-las no Youtube. O matumbo era eu, porque elas são consagradas figuras do Choro e só o perdidão aqui, de tão magnífico trio não sabia a existência…

Elisa Meyer, que toca bandolim, banjo, clarinete e piano, fez aflorar em mim a lembrança de um bandolim, que na verdade era um banjo (afinação GDAE), que existia em casa do meu pai junto com uma guitarra-banjo daquelas muito usadas pelo pessoal do jazz´n´blues lá na Louisiana. Aprendi com certa presteza o básico dos dois instrumentos, mas a dedicação e estudo que poderiam fazer a diferença entre arranhar umas melodias e a dominância musical, ficou nas brumas do tempo perdido e jamais achado, em que pesem as experiências tidas em grupos amadores sem expressão, tocando guitarra elétrica ou, eventualmente, contrabaixo. As irmãs são mesmo caso sério! A flautista Corina (flauta transversal) e a violonista Lia (6 e sete cordas) são igualmente virtuosas. Queixo caído para a Lia, exímia nas “baixarias” ao violão. Para quem não sabe, esse “baixaria” refere-se aos arranjos de violão usando e abusando dos baixos, que é uma característica do Chorinho brasileiro…

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Debalde busco ideias para prosseguir. Ocorreu-me então questionar se ajudaria chutar o balde do debalde; Será que tal ação resultaria numa “baldada” barulhenta capaz de perturbar meu silêncio e consequente agravamento da minha falta de idéias? Pior: Atrairia com o aparato de tal chute os extremados defensores do vernáculo, organizados e politicamente corretos, em aterrador processo que me levaria ao calvário?  Decidido, baldeei-me para fora desse meu violento intuito. Em boa hora o fiz, pois logo em seguida o debalde se retirou tranquilamente da frase e o meu buscar de ideias deu alguns sinais de que poderá passar a ser mais positivo. Ainda não sei se a retirada do debalde foi cauda entre as pernas, ato de pacifismo, ou benaventurança pelos pobres-de-ideias…

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Seravô

Quando eu era neto pequeno e achava o meu avô muito velho, eu não fazia idéia de que viveria o suficiente para vir a ser o que sou hoje: um avô muito velho, no entendimento dos meus pequenos netos. Pensando um pouco, eu poderia muito bem ser chamado de muito velho pelos meus pequenos bisnetos, caso alguma das minhas filhas houvesse privilegiado ser mãe antes de obter uma graduação. Mas isso não aconteceu e, após as graduações, elas privilegiaram pós graduações, lutas homéricas pelo ingresso no mercado de trabalho e sobrevivência, embarcando finalmente em casamentos dos quais bem cedo resultaram descasaladas (ou será descasadas…) e sem filhos. Seguiram-se re casamentos tardios e as mães de casamentos tardios propiciam avós tardios. Não sei nem faço ideia de como prosseguir e muito menos concluir esta matéria. Fiz, pois, uma pausa e observei as duas meninas absorvidas em suas brincadeiras, no momento milagrosamente de acordo uma com a outra: Isadora lidera Clarice e vejo que já desmancharam e retiraram o belo ramo de flores da jarrona de vidro que, não menos milagrosamente, lá permanece em uma peça só. Agora a jarra de vidro mudou de serventia e está sendo enchida com os bonequinhos – a mãe e o pai, cada um a seu canto de fones nos ouvidos e olhos pregados nas telas dos seus computadores, dialogam com gente invisível, ditam e recebem ordens, impossibilidados de ditar ordens aos rebentos. Ou serão rebentas? Elas, se deixadas soltas, rebentam com tudo. O avô aqui deixa que rebentem e a avó dali, só está interessada em fazer uma comidinha prá gente. Mas…Contra todas as previsões, parece que tudo deu certo: As meninas retornaram o ramo de flores para a incólume (wow!) jarrona de vidro e parecem a fim de acatar o chamado da vovó para comer uma sopinha!…

A propósito: HAPPY BIRTHDAY, netinho LUCAS, lá em cima em Flower Mound, Texas!!

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Ansiedade

Ah esta ansiedade no meu peito,

que me agita, me faz suspirar…

É um dormir sem dormir direito,

É uma intranquilidade ao acordar!

Pela vidraça espreito o mundo

Que me espreita por seu turno

Eu só lhe enxergo o que é imundo

Ele só me enxerga lúgubre, taciturno…

A solução é sonhar, sonhar, sonhar

Porque sonhar nunca é demais,

aprendi com a minha alma;

“Parar de sonhar, jamais!”,

Sentenciou a minha alma!

Posto que doces sonhos são viver

e de viver não se pode abrir mão,

há que sonhador continuar a ser

até que pare o coração…

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Falar de Fado

Carlos do Carmo foi pela natura dotado com a voz do fado, penso que através de sua mãe, a excelente Lucília do Carmo. Eu sempre pensava que se eu pudesse comprar uma voz como se fosse um instrumento a escolher numa loja de música, compraria a dele para cantar fado.  Porque cantar rimas amargas de dor de corno ou de esperançosos amores com voz afinadinha, com potência suficiente para fazer-se ouvir e admirar au naturel, sem amplificação, foi sempre e afinal, condição essencial para atrever-se a abrir a boca dentro de uma taverna típica de alguma viela obscura da velha Lisboa. Dos idos tempos em que eu afirmava “detestar” o fado, recordo todavia a ponta de inveja que eu sentia por certas vozes masculinas “arrastadas”, meio rouquenhas, aparentemente calcadas nos vapores etílicos e madrugadas varadas enquanto por lá se iam perdendo os últimos resquícios da virtude…

Enfim, não estou insinuando que a imensa e irrepreensivelmente afinada voz de Carlos Do Carmo tivesse características de ginginha e carrascão, muito pelo contrário. Mas era marcadamente fadista e “quem ma dera…”

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