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Archive for Setembro, 2020

Imortalidades

Nada aprendi, afinal, com os erros cometidos e sofridos, a julgar pelos erros que insisto em cometer no outono da vida. De nada vale afirmar com convicção que não repetirei, porque é considerável o risco de que, em algum momento, o afirmado desrespeitarei. Concluo ser o errar tão imortal quanto a própria morte…

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Papo musical

Dia destes, alguém do meu círculo desdenhou do “samba de uma nota só” como “coisa” sem qualquer valor para quem tanto cultua o purismo erudito da música barroca. Sendo eu próprio também um apaixonado pela música antiga, não hesitei, todavia, a sair em defesa de uma peça de tão simplória base melódica. Referindo-me a “Amadeus”, argumentei, falando da simplíssima pecinha que Salieri escreveu para o imperador praticar sua performance e o efeito transformador dos geniais improvisos de Mozart sobre o tema.

É vero que, virtualmente, qualquer tema musical pode ser vertido para um pote e resultar em maravilha jazzística, tudo dependendo do génio do druida. O “Samba de uma nota só” pode até soar como uma enfiada linear de notas repetidas ad nauseam, mas que ganham todo o sentido uma vez engrenadas à metalinguagem do texto. Na sequência, tudo muda a partir do momento em que a genialidade instrumental a transforma num rítmico e sempre mutante Poema Harmônico!…

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Maudormir

Ah as cãibras, as cãibras, que mau dormir me provocam! É o despertar com dores insuportáveis, é a insuportável dificuldade para voltar a mal adormecer para em seguida ter nova crise, novo passear no escuro, a pisar gemidos surdos…Depois já é de manhã de amanhã. Será do vinho que bebi? Mas só duas tacinhas ingeri! Do caldo verde é que não foi, certamente. Foi talvez do doce pavê, mas conjeturar praquê? Não vou mesmo saber porquê…

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Hoje…

Proso-me embrulhado em poesia, posto que este belo dia foi-nos dado pra viver. De noite uivava o vento, que soava qual lamento de presságios de temer. Credito o temor ao cansaço, porque estava um bagaço quando cedo me deitei. Mas eis que novo dia pintou, o humor logo melhorou, porque, afinal, vivo acordei!

Cansado, na cama desabei

e já na cama te encontrei

tão cansada quanto eu…

Olhamo-nos enternecidos

mas estávamos tão rendidos

que o sono logo nos venceu…

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Outroacordar

Acordei disposto a sextafeirar uma semana atípica, resultante de atipicidades e loucuras outras. O Sol está lá, surgindo mais um pouco à direita das minhas referências. Reflito que daqui a uma semana deixarei, deste meu posto de observação, de assistir e fotografar o nascimento do Rei. Os dias sucedem-se, planos e metas também, apesar de aparentemente descabidos e questionáveis…

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Manhã

Mais uma manhã, tão bonita manhã! A poderosa fonte da vida se alevanta e exibe sua palete de cores em policromáticas promessas de que, ainda em mais um dia, poderei fingir ser alguém.

E agora eu era alguém…

que a vida enfrenta sem temor,

que a vida goza sem sentir dor

que minimiza o mal que a vida tem

Agora eu era alguém…

com imunidade a vírus e andaços,

a pestes políticas tolhendo passos,

que ironiza a maldade que a vida tem

E agora eu também era alguém…

Que a cada sístole do coração,

realiza que a vida não é em vão,

malgrado as maldades que contém!

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Doçuras

Vindimas são violentas empreitadas para quem a elas não está habituado. Dores musculares e de coluna ficaram por alguns dias após a colheita das docíssimas uvas que já terão sido transformadas no que resultará em docíssimo e espirituoso moscatel de Setúbal. A abelhinha da foto aproveitou os últimos momentos da doçura in natura. A colheita já aconteceu há quase duas semanas, mas a vontade de escrever só agora pintou…

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Sabadei cedo da manhã, sentado à escrivaninha fazendo que escrevo, fazendo que leio enquanto leio um manuscrito que, em abertura aleatória, me surgiu ante os olhos: Em “Feminina”, Mário de Sá-Carneiro diz que queria ser mulher e porque tal queria, em quadras rimadas. Depois de ler, fiquei com a impressão de que o Sá-Carneiro, se mulher fosse, seria uma puta de grandes dotes literários…

Atrás de mim, sentada no sofàzinho do escritório, a minha mais-que-tudo está embebida nos ins and outs internéticos com seu Ipad, que chama carinhosamente de “bichinho”. Ela nem imagina que seu homem há cinco décadas e meia, está avaliando a probabilidade de que poderia ter resultado uma mui respeitosa e filosófica puta, caso houvesse nascido mulher.

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Da Feira

Feiras de Livros são irresistíveis, não importa em que coordenadas geográficas. Feiras de Livros com extensão igual ou acima da de Lisboa, requerem também tempo e muita disposição para dedicar um mínimo de atenção a tantos stands com tal variedade em literatura. Especialmente com tanto calor, ainda que ao fim da tarde! Cansativo, porém delicioso…

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