Minhas mãos acompanham-me a idade: Têm manchas senis, veias grossas no dorso, as palmas estão castigadas e, em sua brancura, transparece em profusão o azul venoso. Das calosidades do trabalho pesado de outros tempos, nem sombra; só as calosidades nas pontas dos dedos da mão esquerda, de tanto trilhar as cordas das minhas guitarras. Mas as chamadas linhas da vida continuam inalteradas, “legíveis” por uma competente cigana. Recordo aquela velha de longas, complicadas e rodadas saias, com pano suficiente para fazer uma tenda de campismo; Eu teria os meus doze e sentia-me bem importante com os meus ralos pentelhinhos.
Na palma da minha mão,
vejo-me as linhas de vida
onde a minha sina foi lida
por velha cigana d´então
Pensativo, olho-me a mão
assim, engelhada e venosa
recordo que a cigana d´então
por algumas moedas de tostão
anteviu-me uma vida ditosa
A velha cigana segredou
com ar sério e verdadeiro
o que a minha mão lhe contou:
“seria mulherengo, putanheiro…”
E que das águas do mar
um navegante eu seria
e do outro lado desse mar
felicidade eu encontraria
E disse-me que eu casaria
com uma lindíssima dama
e que com essa bela dama
um rancho de filhos geraria
Que seria longa, a minha vida
a julgar pelo que na mão lia
mas não disse quão sofrida
essa minha longa vida seria…
Quase tudo a velha acertou
do tanto que ela me falou
para merecer o seu pão…
e agora da memória avivo
porque eu ainda estou vivo
olhando as linhas da mão.
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