O peso da idade parece, num repente, haver sido exponenciado ao infinito. Sentado, mãos segurando a cabeça, o velho medita e reedita recentíssimos sons e imagens de uma súbita erupção de reações verbais no seio do seu cotidiano. Reconhece estar esse cotidiano insuportável para a companheira de longos anos, tanto ou ainda mais quanto para si próprio. Concede ser pessoa de raro rir e de pouco sorrir, a par com uma natural tendência à introversão e ao silêncio. Características que, realiza, em nada ajudam em qualquer momento de qualquer relacionamento, que dizer na tensão das atuais circunstâncias de longo isolamento compulsório. Reconhecer é uma coisa, tentar mudar de forma profunda sua pessoa para uma personalidade alegre e extrovertida será, na sua idade, promessa condenada ao insucesso. E o idoso acaba por desaguar num sentimento de culpa, por haver arrastado a mulher ao longo da vida para uma existência aparentemente infeliz e atribulada. A sombra da depressão espreita e se estreita para penetrar pelas frestas, que o velho vai tapando como pode, enquanto pode. Porque acredita em sindrome de Poliana, no sono encontrará a positividade nos verdes campos do subconsciente e dele procurará arrastar consigo uma benfazeja bolha que se expandirá pelo dia de amanhã…
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