Saída semanal do casulo para repor alguns víveres, ensejando ao mesmo tempo desenferrujar os músculos das pernas. Pareceu-me haver um pouco mais de movimento de carros e podemos ver que as não muitas pessoas circulando a pé na área e dentro do mercado, todas exibiam, tal como nós próprios, suas focinheiras de pano, como é recomendado. As compras foram leves por estarmos a pé, mas deu para incluir uma caixinha de bacalhau dessalgado. Ao retirarmos o produto do armário frigorífico, eu gritei a pleno silêncio dos meus pulmões: “P u n h e t a!”. Tal foi a estridência do silêncio, que a Nina escutou-me e assim foi o magnífico almocinho regado com um geladíssimo vinho branco bem maduro, bem seco. Ao repasto sucedeu uma curta sesta, interrompida pelo bradar dos alto falantes do big brother da vez no habitual brainwash: “fiquemcasafiquemcasafiquemcasafiquemcasa…” Nas entrelinhas, “Morra à míngua, mas morra em casa!”. Até esta hora, não escutei a presença, para mim aterrorizante, dos habituais helicópteros em looooongas pairadas não muito longe daqui. No meu apreensivo pensamento, eles vigiam, quais mastins na serra da estrela, os movimentos do rebanho de carneiros pagantes; Pagantes e confinados. George Orwell precisava estar aqui…
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