
Que furtar é uma arte, eu aprendi de criança com a aflição e revolta de uma mulher a quem, num ajuntamento de feira, fizeram um cirúrgico corte na bolsa, de onde extraíram seus valores sem que ela ou alguém se apercebesse. A operação terá rendido ao ladrão alguns parcos trocados, mas que eram fruto de violento trabalho braçal de sol a sol. Não tardei, porém, a aperceber-me que o desalmado carteirista que tanto chocou meu coraçãozinho de criança, era apenas um borra-botas tão miserável quanto a vítima. Inúmeros outros igualmente desalmados exímios na arte de furtar me surgiriam. Desalmados, exímios e intocáveis…
O volume intitulado “Arte de Furtar, Espelho de Enganos, Theatro de Verdades, Mostrador de Horas Minguadas, Gazua Geral dos Reinos de Portugal”, foi escrito, composto e oferecido ao Rei D. Pedro IV nos idos de 1652. Mas sabe-se que, definitivamente, não foi escrito pelo da Pátria tão Zeloso padre Antônio Vieira. Vemos que o exemplar por mim fotografado na gigantesca biblioteca do não menos gigantesco Palácio e Convento de Mafra, é de uma nova edição impressa em 1829 na Tipografia Rollandiana em Lisboa. Mas o livro, dizem os investigadores das cousas históricas, terá sido antes sub-repticiamente impresso como se o fora em Amsterdam, mas na verdade o fora por um tipógrafo veneziano em Lisboa. Tinha mesmo de ser tudo muito camuflado, porque o autor coloca entre os artistas do furto, desde as “Unhas Bentas” do Clero e da Inquisição, passando pela nobreza, os militares e até as Unhas Reais com seus gastos excessivos e consequente brutal tributação.
Enfim, a arte do furto atravessou séculos, as unhas cresceram e estão mais afiadas que nunca nas exímias manápulas de verdadeiros bandos organizados legitimados pelo voto das vítimas…
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