
“…Sim, chove!”, disse eu pra ela, após espiar pela janela. Pela janela enxerga-se a rua, muito calma, onde não se vê vivalma, vivalma! Isso seria normal, não fora esta uma rua principal! “Fica, que eu também volto pra cama, porque afinal, ninguém nos chama…” Ainda é muito cedo e essa calma me dá um medo, um medo…
Mais um dia a menos, de menos paciência que o dia passado, mas por certo de mais paciência que o dia vindouro, partindo do princípio que acordarei vivo para esse vindouro dia da continuidade trancado em casa. Hoje é sábado – detalhe de nenhuma importância para idosos aposentados, ainda mais nas atuais circunstâncias de clausura defensiva. Também era detalhe de nenhuma importância na minha vida de Oilman embarcado em plataformas no meio no mar. Só o dia do tão esperado desembarque era, então, detalhe importante. O risco era consideravelmente alto, mas nunca senti medo de nada. A minha falta de medo, por outro lado, exponenciava o meu risco, porque eu era dado a mergulhar em loucas atividades nos tempos do pioneirismo em navios-sonda, há uns trinta anos lá atrás. Hoje ninguém me permitiria tais loucuras.
A lembrança do fearless Oilman foi só uma consequência daquele medo que expressei no primeiro parágrafo. Agora, escrevendo estas tortas linhas, penso ser aquele um medo filosófico com alguma carga de cabin fever. Ou não: O prospecto de morrer sem ar me apavora, desde que vi a minha tia Amelinha entubada num hospital em Vila Real de Trás-Os-Montes nas suas derradeiras horas…
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