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Archive for Março, 2020

Neste derradeiro dia de Março, acordei amargurado e descrente de tudo. Descemos, carregando a nossa solidão à rua e caminhamos, mão na mão, como sempre, os cerca de 300 metros que nos separam do verdureiro que, para nossa felicidade, continua a sua luta para sustentar sua família e a de seus empregados, enquanto garante o nosso abastecimento. Voltamos de mãos separadas, carregadas que estavam de frutas, legumes e ovos, que esperamos sejam suficientes para uma semana ou mesmo dez dias. Julgamos haver cumprido o melhor possível as recomendações para evitar o vírus que se por nós, septuagenários, for contraído, significa a emergência de um hospital e reduzidíssimas chances de sobrevivência. E os tempos estão tão tenebrosos, que tudo termina em fumaça pelas chaminés dos crematórios, sem nenhuma consideração pelos familiares. Dá arrepios, porque lembra outros tenebrosos tempos que a história não deixa esquecer. Porque o arbítrio está de novo à solta, com armas e cassetetes, destruindo vergonhosamente hortaliças e fruta grangeados por outros abnegados trabalhadores de mãos calejadas lá pelas lavras. O diabo está à solta e a  minha amargura é não conseguir enxergar para além dos pavorosos cumulonimbus na rota desta pandemia viral, política e econômica…

 

 

 

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Livro

Que furtar é uma arte, eu aprendi de criança com a aflição e revolta de uma mulher a quem, num ajuntamento de feira, fizeram um cirúrgico corte na bolsa, de onde extraíram seus valores sem que ela ou alguém se apercebesse. A operação terá rendido ao ladrão alguns parcos trocados, mas que eram fruto de violento trabalho braçal de sol a sol. Não tardei, porém, a aperceber-me que o desalmado carteirista que tanto chocou meu coraçãozinho de criança, era apenas um borra-botas tão miserável quanto a vítima. Inúmeros outros igualmente desalmados exímios na arte de furtar me surgiriam. Desalmados, exímios e intocáveis…

O volume intitulado “Arte de Furtar, Espelho de Enganos, Theatro de Verdades, Mostrador de Horas Minguadas, Gazua Geral dos Reinos de Portugal”, foi escrito, composto e oferecido ao Rei D. Pedro IV nos idos de 1652. Mas sabe-se que, definitivamente, não foi escrito pelo da Pátria tão Zeloso padre Antônio Vieira. Vemos que o exemplar por mim fotografado na gigantesca biblioteca do não menos gigantesco Palácio e Convento de Mafra, é de uma nova edição impressa em 1829 na Tipografia Rollandiana em Lisboa. Mas o livro, dizem os investigadores das cousas históricas, terá sido antes sub-repticiamente impresso como se o fora em Amsterdam, mas na verdade o fora por um tipógrafo veneziano em Lisboa. Tinha mesmo de ser tudo muito camuflado, porque o autor coloca entre os artistas do furto, desde as “Unhas Bentas” do Clero e da Inquisição, passando pela nobreza, os militares e até as Unhas Reais com seus gastos excessivos e consequente brutal tributação.

Enfim, a arte do furto atravessou séculos, as unhas cresceram e estão mais afiadas que nunca nas exímias manápulas de verdadeiros bandos organizados legitimados pelo voto das vítimas…

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Do Casulo (9)

Fui acordado na madruga por dolorosérrima cãibra nos tendões dos pés. Caminhei a sonolência em silenciosos gemidos pelo quarto e banheiro. Na volta ao leito, sono perturbado por constatar não ser sonho a nossa conturbada realidade, corujei a escuridão sem um pio até que, já com um pouco de claridade penetrando pelas frinchas da cortina, finalmente apaguei pela eternidade de uma inteira hora.

Constato que partículas malcheirosas de substrato fecal, seguem desaguando a cada momento no meu FB. Mas devo com humildade dizer que sempre desisto de desistir dessa coisa afinal nem tão completamente inútil, porque, querendo continuar a alimentar o meu Blog e estando os blogs muito esquecidos para não dizer em desuso, o FB é, em última análise, a única forma de arrastar alguns pouquíssimos leitores para as minhas Mukandas.

De resto, digo que os meus problemas de alergias nas vias respiratórias continuam, permanecendo portanto posicionado entre os que dependem do isolamento para lograr sobreviver ao surto de C19. No entanto, tem o abastecimento e tem também a chamada para a vacinação contra o H1N1, que ainda não tivemos coragem de atender. Ontem, sábado, dediquei boa parte da tarde concluindo a interrompida operação de troca de encordoamento da guitarra portuguesa, sua final afinação, e reinício de estudo de escalas, acordes e exercícios de dedilhar com as unhas postiças, coisa nada fácil – Para mim é bem mais prático usar palheta, mas isso é um escândalo para os mestres puristas…

Hoje tem almoço de punheta de bacalhau, mas oh tristeza das tristezas: Não há mais vinho em casa!!

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O dia de ontem foi especialmente depressivo para mim. Eventos de vida cuidadosamente programados com muita antecedência, foram afinal cruelmente dissolvidos quando ainda faltam mais de trinta dias para a data. Sabia que poderia, nas presentes circunstâncias, haver algum adiamento, mas a esperança sempre é a última que sucumbe.

Reli o que escrevi aqui no blog ao final de fevereiro: “Afinal o coronavírus é ou não um vírus coroado? Rei da vez, absolutista rei do mundo que o mundo deixa cagado de medo, propelindo as economias a deslizar ladeira abaixo, gerando desemprego, crise, a fome que logo poderá ir chegando sorrateira…”. Mais tarde, referi-me aos perigos da histeria: “A História conta-nos muito sobre a letalidade da histeria, que pouco fica a dever à mortalidade pandêmica. Parar o Planeta resolve o surto?”. E voltei alguns dias depois: Tsunami viral, global! Como sobreviver à peste e sobreviver à fome, que é outra forma de peste que já se instala e alastra com as economias em desastrosa paralisia?”.

O assunto é tão polêmico quanto crucial e de decisão extremamente problemática. Miséria já será apenas mitigável no pós vírus, porque estabelecida ela já está com o desemprego em massa que sabemos estar em curso em todos lugares industrializados, porque somando a esse surtasso, os donos da energia fóssil pulverizaram o sistema com um damping de preços que inviabilizaram investimentos industriais. Todo o mundo pra rua e já agora, todo o mundo de volta para a caverna, como queriam os talibãs…

Em tempo: POLÍTICO É O MAIS PERNICIOSO E PERIGOSO DOS VÍRUS.

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Do Casulo (7)

O meu lado mais pessimista alerta que no Brasil, a presente luta pelo poder amalgamada com a desastrosa crise econômica criada pela paralisia das atividades produtivas pelo coronavírus, é mistura muito mais explosiva que o trinitrotolueno…

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Graham Macey sempre foi uma pessoa de difícil trato e de reações inesperadas. No entanto, atravessou junto conosco duas décadas de convívio e duras provações, tanto no mar quanto em projetos diversos. Seu falecimento foi mais uma nota triste a tanta tristeza que rola neste momento.

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Do Casulo (6)

Encord.

A tolerância vai descendo pelo dreno, reconheço-me mais irascível e de pavio curto. Distancio-me quanto posso dos loucos campos de batalha das redes antissociais, que são armas do ódio disparando, de parte a parte, rajadas incessantes de agressão e insulto.

Na noite de ontem, retirei do estojo a minha tão abandonada guitarra portuguesa. É um instrumento lindo, que adquiri com o firme propósito de aprender e chegar ao ponto de ser capaz de tocar como um simples amador caseiro pode tocar. A firmeza ficou pelo caminho, nos descaminhos das muitas horas de trabalho longe de casa, diluída em promessa de que tudo mudaria com a aposentadoria. Já vimos que não mudou. As cordas de aço perdem a sonoridade e precisam ser trocadas de vez em quando. Se o instrumento não é usado, piora muito e, como aconteceu ontem, durante a afinação logo uma das cordas da primeira ordem rebentou. Preparei a corda e instalei-a ontem mesmo, mas ficou bem patente que todas deveriam ser também trocadas.

Instalar um encordoamento de guitarra portuguesa, precisa de um nadinha da habilidade de um luthier para medir e marcar o correto comprimento e preparar a laçada do leque, usando uma ferramentinha apropriada. As cordas novas são vendidas só com a laçada da ancoragem, porque existem três tipos de guitarra portuguesa com comprimentos de corda e afinações diferentes. A minha é de construção e afinação “Lisboa”.

A volta ao estudo e memorização da escala vai certamente suavizar um pouco minha crescente falta de paciência e preocupação com a sobrevivência em grave perigo pelo andaço pulmonar e pela ameaça de fome em razão do colapso da economia.

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Do Casulo (5)

Liberdade

É viral a nova forma de tirania

de poder mundial, quem pensaria?!

Ditador que não aparece na sacada,

nem saúda suas forças em parada!

Não discursa baboseiras vazias

Nem impõe uma das conhecidas ideologias.

Cesse tudo o que sobre Poder se tem falado,

porque o Poder agora é do Vírus Coroado!

 

No entanto…

Descendo da bolha para arriscada missão logística, li avisos nos elevadores sobre as “medidas” tomadas e normas a observar no condomínio, em relação ao presente desastre viral. Em vários pontos do édito, a palavra “Proibido” deixa-me pensativo, incomodado. O alcaide proíbe a sauna, em vez de simplesmente comunicar sua desativação por motivos óbvios. Um calafrio estranho na espinha, porque paira no ar a terrível palavra “exceção”, que fatalmente se liga à perda da tua liberdade, do teu livre arbítrio. Parece não ser mais proibido proibir…

 

Foto: “Liberdade”

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Do casulo (4)

Máscara

Insisti e observei uma vez mais minha imagem no espelho oval de moldura dourada, que há mais de quarenta anos reflete fielmente meu envelhecimento. Indagava sobre meu look com o rosto parcialmente coberto por uma máscara que acabara de ser diligentemente confecionada pela minha maisquetudo, artista faztudo de habilidades mil! Não sentindo reações negativas por parte do espelho, resolvi prosseguir no meu intuito de sair à rua e fazer uma rápida sortida à farmácia da esquina. O objetivo era conseguir três meses do caro anticoagulante de uso contínuo com algum bom desconto, aproveitando para obter álcool gel e máscaras descartáveis, na sombra de uma compra substancial. Voltei para casa com um mês de medicamento, sem álcool, sem máscaras…

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Magia1

…E domingou cor-de-chumbo, adicionando peso à exasperante imobilidade.

Imobilidade que lamento no meu trautear silencioso, incessante, incontrolável: “Moon River, wider than a mile…”: Não há fronteiras nem limites para o pensamento e prossigo: “I´m crossing you in style, someday…”: Para mim, este “someday” é “agora”, neste preciso momento em que tanto a minha liberdade quero de volta. E em frente eu vou, na ânsia de voltar a usar o meu mundo a meu próprio arbítrio: “Where ever you´re going, I´m going your way… E arrasto a minha maisquetudo: “Two drifters, out to see the world/There´s such a lot of world, to see!…”

Volto à realidade do que meus olhos alcançam e que logo muito se alegram encontrando a companheirinha de viagem, “Huckleberry friend” da minha canção…

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Chove... (2)

“…Sim, chove!”, disse eu pra ela, após espiar pela janela. Pela janela enxerga-se a rua, muito calma, onde não se vê vivalma, vivalma! Isso seria normal, não fora esta uma rua principal! “Fica, que eu também volto pra cama, porque afinal, ninguém nos chama…” Ainda é muito cedo e essa calma me dá um medo, um medo…

Mais um dia a menos, de menos paciência que o dia passado, mas por certo de mais paciência que o dia vindouro, partindo do princípio que acordarei vivo para esse vindouro dia da continuidade trancado em casa. Hoje é sábado – detalhe de nenhuma importância para idosos aposentados, ainda mais nas atuais circunstâncias de clausura defensiva. Também era detalhe de nenhuma importância na minha vida de Oilman embarcado em plataformas no meio no mar. Só o dia do tão esperado desembarque era, então, detalhe importante. O risco era consideravelmente alto, mas nunca senti medo de nada. A minha falta de medo, por outro lado, exponenciava o meu risco, porque eu era dado a mergulhar em loucas atividades nos tempos do pioneirismo em navios-sonda, há uns trinta anos lá atrás. Hoje ninguém me permitiria tais loucuras.

A lembrança do fearless Oilman foi só uma consequência daquele medo que expressei no primeiro parágrafo. Agora, escrevendo estas tortas linhas, penso ser aquele um medo filosófico com alguma carga de cabin fever. Ou não: O prospecto de morrer sem ar me apavora, desde que vi a minha tia Amelinha entubada num hospital em Vila Real de Trás-Os-Montes nas suas derradeiras horas…

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