Neste derradeiro dia de Março, acordei amargurado e descrente de tudo. Descemos, carregando a nossa solidão à rua e caminhamos, mão na mão, como sempre, os cerca de 300 metros que nos separam do verdureiro que, para nossa felicidade, continua a sua luta para sustentar sua família e a de seus empregados, enquanto garante o nosso abastecimento. Voltamos de mãos separadas, carregadas que estavam de frutas, legumes e ovos, que esperamos sejam suficientes para uma semana ou mesmo dez dias. Julgamos haver cumprido o melhor possível as recomendações para evitar o vírus que se por nós, septuagenários, for contraído, significa a emergência de um hospital e reduzidíssimas chances de sobrevivência. E os tempos estão tão tenebrosos, que tudo termina em fumaça pelas chaminés dos crematórios, sem nenhuma consideração pelos familiares. Dá arrepios, porque lembra outros tenebrosos tempos que a história não deixa esquecer. Porque o arbítrio está de novo à solta, com armas e cassetetes, destruindo vergonhosamente hortaliças e fruta grangeados por outros abnegados trabalhadores de mãos calejadas lá pelas lavras. O diabo está à solta e a minha amargura é não conseguir enxergar para além dos pavorosos cumulonimbus na rota desta pandemia viral, política e econômica…





