Após o café da manhã, parco como é habitual, o velho casal separa-se como não é habitual. Ela vai para a consulta odontológica e ele vai para onde a leitura o leve de leve a perder-se desta realidade tão drástica que vivemos. A caminhada ficará, pois, para o dia seguinte. Aconteceu que a mulher retornou a casa surpreendentemente mais cedo, misturando as causas do tão cedo retornar com notícias sobre inundações nas unidades acima, causadas pela desatrosa instalação de painéis solares tão custosos quanto inúteis, impingidos pela administração do prédio. Algum pouco tempo depois, soa a hora de almoço e o velho casal senta à alva mesa da cozinha iniciando silenciosamente a função. Até que a voz do homem se sobrepõe ao tilintar dos talheres e dispara a pergunta inesperada, tumultuante, conflituosa, avassaladora:
“Como foi lá na dentista?”…E o céu caiu-lhe em cima da cabeça! Para piorar muito as coisas, o homem não conseguia parar de rir, o que resultou no pranto da mulher, que o acusava de jamais lhe prestar a atenção que merecia e carecia. “Mas…” balbuciava o homem por entre as tentativas de disfarçar o riso; “Eu me confundi com a história da inundação e não me dei conta do que falaste sobre a consulta!”
E lá ficou o velho casal, amuado, calado, desconsolado, porque afinal, a idade dá mesmo para ficar desligado e desatento…
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