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Archive for Junho, 2019

Flor de Liz  – palavra e símbolo, remetem-me de forma automática a Alexandre Dumas e às aventuras dos Três Mosqueteiros. Nos meus teen, abria aleatoriamente um dos três volumes originais da obra e caía na releitura com a avidez da primeira vez. A belíssima e perigosa Milady de Winter (Milady Clarick ou Milady simplesmente), escondia em seu ombro La Fleur de Lis tatuada a fogo, que era ao tempo, a marca da infâmia e do crime…

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Minhas distrações e singularidades vêm rendendo algumas risadas e gozações. Na mais recente, entrei no banheiro após uma caminhada; Livrei-me da roupa suada até que chegou a vez da cueca, que retirei enquanto levantava a tampa do sanitário para aliviar a bexiga antes de entrar no chuveiro. Adivinha para onde eu joguei a cueca!…

No verdureiro aqui perto de casa, entro sozinho com alguma constância para comprar frutas tais como bananas ou tangerinas, mas tenho de ser acompanhado se a necessidade for de legumes de qualquer espécie. Se me pedir rúcula, há grande probabilidade de eu aparecer com agriões ou outro qualquer vegetal. Dia destes, enquanto a Nina fazia o pagamento no caixa, eu saí pelo piso irregular da calçada em direção a casa…empurrando o carrinho do mercado! Só dei conta porque olhei para trás: Ela de braços cruzados, batendo a ponta do pé direito no chão e com cara de disposta a fusilar-me.

 

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Esperanças

Se a esperança é só por si uma vitória,
dou então vivas à minha glória!
Posto que de tão esperançoso,
sou mesmo, na vida, um vitorioso…

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Completa-se amanhã, derradeiro dia de Junho, o quinquagésimo sexto aniversário em que um esperançoso sonho se converteu na realidade vitoriosa: Ganhei a namorada da minha vida! Vamos comemorar com muito carinho, com “aquele” bolo que só ela sabe fazer!

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Mas escuta, Nina:

Eu continuo um obstinado,
irremediavelmente a ti ligado…

 

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Retirada

Viver e sobreviver das Artes é difícil, porque sempre foi mesmo muito difícil; E se, como era costume dizer-se, “Viver é só por si uma Arte”, resulta, a meu ver e sentir, ser a nossa vida um gigantesco palco onde podemos, bem ou mal, representar o que pretendamos e sejamos capazes de incorporar, na tentativa de agradar a quem esteja disposto a pagar, garantindo-nos a próxima refeição. E assim vamos, ao longo da vida, fazendo de operário ou gerentão, faxineiro ou doutor, abnegado professor, dono de pé-sujo ou próspero comerciante, dono de circo ou só palhaço, ou mesmo um desses fulanos assustadores, tais como um desalmado cobrador de impostos ou um não menos desalmado e desonesto político. Contudo, no caminho de todos, de todos sem exceção, o inevitável declínio surgirá…

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Nesse imenso palco ao longo da vida te dispões

Dans la grand scène sob os projetores te expões

ante um respeitável público, que implacável será!

Se medíocre ou ruim julgam teu desempenho,

ou se por cansaço de súbito te falta empenho,

do frustrante insucesso teu público te não livrará…

 

Mas, quando agrades, os focos da ribalta brilharão,

com aplausos retumbantes e elogios te brindarão,

prestígio e recompensas quiçá lograrás auferir;

E essa comédia de vida ao longo da vida encenarás,

das vantagens dessa vida na vida te beneficiarás,

até que o ocaso da vida na vida começa a intervir…

 

Tua dinâmica de palco vai perdendo valor

Tua voz diminui em intensidade e ardor

Lâmpadas vão fundindo, sem reposição…

Lentamente, as sombras baixam sobre a cena.

Sem aplausos, a alma como que se apequena

e, conquanto ela pareça resignada e serena,

a retirada de cena atormenta o teu cansado coração…

 

 

 

 

 

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“Desaprendi o nada que aprendi!”- fustiguei-me, como é meu costume quando perco o sono no meio da madrugada e solto a cachorrada sobre mim próprio. Observei que, para minha tranquilidade, devo optar por repousar na almofada o diminuído ouvido esquerdo. O direito, de audição incólume, capta de forma aterrorizante as arrítmicas batidas do meu coração sempre aflito para me manter vivo. Na quinta estarei no consultório da Nágela, que há três anos monitora minha arritmia, pelo que lhe pagarei uma taxinha de quatrocentas estalecas. Sem um seguro saúde e sem apoio credível de um serviço de saúde pública, mesmo o simples check up anual tem um custo estúpido.

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Wuthering

Chove...

Terçafeirei a madrugada de ventos uivosos e chuvas torrencientas, aninhando-me na minha fonte permanente de calor. Mas ela, a minha fonte, ficou com calor e correu comigo. Olhei a noite através da vidraça, por sobre o cartaz que diz “Vende-se” para informação de possíveis aves letradas que eventualmente façam voo pairado naquele nível. Depois urinei e flatonitruei a madrugada do meu wuthering height, sem culpas ou, no máximo, com vagas culpas e idióticos risos de volta para o meu aninhar – logo repelido. Agora já é uma manhã chuvosa. Humor de má catadura, penso em voz alta: “Que vida a minha, porra!…”

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RIP

Então, Agustina Bessa-Luis deixou hoje este vale de lágrimas. Viveu noventa e seis anos e, penso, terá partido com a mesma serenidade no rosto, tal qual imaginei no rosto da Doris, que com a mesma idade a precedeu há três semanas. O que elas têm a ver uma com a outra? Muito, na minha análise de admirador de ambas. Uma, Escritora, contista e roteirista de inegáveis valores, outra, Atriz e cantora de valores inegáveis. Não estou triste, contudo. As duas não se ralam mais com o esculhambo que está este mundo…

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