
Caminhávamos recentemente pela baixa de Lisboa ao fim da tarde, onde ruas, esplanadas e cafés fervilhavam de turistas e onde nosso idioma dificilmente é ouvido. Decidimos mudar o rumo, escalar e explorar as velhas ruelas e escadas de Alfama até aos miradouros e ao Castelo de São Jorge. A experiência foi inesquecível, mas em nenhum momento senti nas ruelas a vibração que o meu poético imaginário construiu através do velho e autêntico fado. Como no Bairro Alto e na Mouraria, as vielas estão lá, os locais onde se canta o fado estão lá, mas a tradição pura e castiça não mais. As rimas abaixo revelam um pouco desse meu imaginário:
Pelas ruas de Lisboa
vagueio sem direção…
…e caminho por aí à toa,
Bairro Alto ou Madragoa,
onde o Fado é tradição…
Se pelas ruelas d´Alfama
vou em passos hesitantes,
e ouço uma voz em lamento
que canta seu fado, seu tormento
em versos tão lancinantes…
Versos de perda ou saudade,
de abandono ou crueldade,
das dores que su´alma sente…
E ecoam com voz magoada
pelas pedras da calçada
pisadas por tanta gente…
Percebo nas pedras, polidas
por gerações de passantes,
tantas mágoas, tantas feridas
em longas noites perdidas,
de solitárias almas errantes…
