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Archive for Abril, 2018

Colega de muitas aventuras e agruras no mar lembrou-me sua existência através do Skype. Disse-me que sobrevive com sérios problemas cardíacos e que achava que eu não queria mais falar com ele, já que eu resistia a responder às suas mensagens. Dou-lhe razão, mas não tenho nenhuma razão para evitá-lo. A não ser pela mesma razão que me leva a evitar-me a mim próprio. Contou-me de uma próxima “cirurgia de coração aberto” para consertar uma válvula, e do seu afã de resolver as pendengas da vida, para que sua atual esposa tenha tudo claro e escrito em testamento. Reconhece ser uma operação de risco, lembrando-me com isso, os vários riscos que eu próprio corro, sem que haja em algum momento pensado em testamento. De alguma forma, essa simples palavra confunde-me e pode até drenar alguma porção de autoconfiança da qual sentirei depois falta. Nesta idade, autoconfiança não se encontra no dobrar da próxima esquina. Acho que a nossa querida Poeta Alda Lara tem a ver com esta minha reação de melancolia e tristeza ao soar a palavra “Testamento”…

 

“À prostituta mais nova

Do bairro mais velho e escuro,

Deixo os meus brincos, lavrados

Em cristal, límpido e puro…

 

E àquela virgem esquecida

Rapariga sem ternura

Sonhando algures uma lenda,

Deixo o meu vestido branco,

O meu vestido de noiva

Todo tecido de renda

 

Este meu Rosário antigo

Ofereço-o àquele amigo

Que não acredita em Deus…

 

E os livros, rosários meus

Das contas de outro sofrer,

São para os homens humildes

Que nunca souberam ler

 

Quanto aos meus poemas loucos,

Esses, que são de dor

Sincera e desordenada…

Esses, que são de esperança

Desesperada mas firme,

Deixo-os a ti, meu amor…

 

Para que, na paz da hora,

Em que a minha alma venha

Beijar de longe os teus olhos,

 

Vás por essa noite fora…

Com passos feitos de lua,

Oferece-los às crianças

Que encontrares em cada rua.”

 

(Alda Lara, Benguela, Angola)

 

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Testamento

Eis-me aqui, ainda vivo, vivo!

Ainda nem fiz testamento…

Aqui estou eu, ainda ativo!

Brinco de jovem forte e altivo

Ninguém me escuta um lamento!…

 

Pois sim, digo pra mim;

 

Bem que tento me enganar

Mas idade é coisa séria

Meu tempo está a minguar

Não adianta bravatear

E soltar toda esta léria…

 

O testamento, dizem, é devido

Mas testamento do quê, por favor?

Tudo que em vida haja auferido

Deverá seu crédito ser deferido

Integralmente ao meu Amor

 

Epitáfio, disso eu não careço

Minha carcaça o fogo vai queimar

Em cinzas o destino que mereço

É, em mui vigoroso arremesso

Ser lançado às ondas do mar…

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Tão célere nossa vida se escoa

Tão curta a vida nos parece

Às vezes a vida é tão boa

Mas tanto nela se padece…

 

Diz-se que a vida é boa

Mas nem tão boa nem afável

Sobreviver não é coisa à toa

A vida, afinal, é nada amigável

 

A vida contém bons momentos

De ardente amor, amores

Mas não lhe faltam tormentos

E mágoas para alimentar as dores

 

Mágoas que a gente perdoa

mas a mente as não esquece

se a mente não as esquece

como é que a gente as perdoa?

 

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É a maldita palavra “Política” estalar nas imediações e eu me sentir vergastado. Ora acontece que essa ordinária invadiu-nos, está agora omnipresente e o pior: Essa coisa está interferindo no nosso casamento de mais de meio século! A minha reação alérgica a toda essa escumalha compele-me a manter-me afastado de notícias – sequer admito ouvi-las! Como a Nina, ao contrário, passou a viver seriamente os meandros desses malandros em confronto, dei por nós numa estranha frieza…

 

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