Colega de muitas aventuras e agruras no mar lembrou-me sua existência através do Skype. Disse-me que sobrevive com sérios problemas cardíacos e que achava que eu não queria mais falar com ele, já que eu resistia a responder às suas mensagens. Dou-lhe razão, mas não tenho nenhuma razão para evitá-lo. A não ser pela mesma razão que me leva a evitar-me a mim próprio. Contou-me de uma próxima “cirurgia de coração aberto” para consertar uma válvula, e do seu afã de resolver as pendengas da vida, para que sua atual esposa tenha tudo claro e escrito em testamento. Reconhece ser uma operação de risco, lembrando-me com isso, os vários riscos que eu próprio corro, sem que haja em algum momento pensado em testamento. De alguma forma, essa simples palavra confunde-me e pode até drenar alguma porção de autoconfiança da qual sentirei depois falta. Nesta idade, autoconfiança não se encontra no dobrar da próxima esquina. Acho que a nossa querida Poeta Alda Lara tem a ver com esta minha reação de melancolia e tristeza ao soar a palavra “Testamento”…
“À prostituta mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo os meus brincos, lavrados
Em cristal, límpido e puro…
E àquela virgem esquecida
Rapariga sem ternura
Sonhando algures uma lenda,
Deixo o meu vestido branco,
O meu vestido de noiva
Todo tecido de renda
Este meu Rosário antigo
Ofereço-o àquele amigo
Que não acredita em Deus…
E os livros, rosários meus
Das contas de outro sofrer,
São para os homens humildes
Que nunca souberam ler
Quanto aos meus poemas loucos,
Esses, que são de dor
Sincera e desordenada…
Esses, que são de esperança
Desesperada mas firme,
Deixo-os a ti, meu amor…
Para que, na paz da hora,
Em que a minha alma venha
Beijar de longe os teus olhos,
Vás por essa noite fora…
Com passos feitos de lua,
Oferece-los às crianças
Que encontrares em cada rua.”
(Alda Lara, Benguela, Angola)