—Mexeste no meu celular!
—Não, não mexi…
—Mexeste sim! Eu não o deixei nesta posição!
—Pode ser que tenha se deslocado, porque mexi na bagunça em torno dele.
—Xereteaste o meu telefone, isso sim!
O homem riu, enquanto manuseava seu próprio celular e negava veementemente.
—Qual é a graça? Acho um baita de um desrespeito invadir a privacidade do meu telelé!
O homem deixou de rir e reagiu com mais veemência elevando a voz e chapando seu próprio celular contra o tampo da mesa:
—Porque diabos haveria eu de querer policiar o teu celular?!!…
—Isso!!! Dás na mesa o soco que querias dar na minha cara!!
O quiproquó do velho casal parecia, portanto, desaguar para uma acusação de violência doméstica e o homem imaginou a mesa sendo levada para um exame de corpo de delito e formalizar na mariadapenha uma queixa por agressão física do seu tampo. A mulher saiu de cena para voltar em seguida e anunciar que ia sair para uma caminhada.
Saíu, bateu a porta, mas deixou o seu celular à mão sobre a mesinha da sala!! Nesse ponto dos acontecimentos, o homem esforçava-se por entender como tão fútil razão pudesse dar lugar a uma altercação e amuos mais próprios de crianças que de adultos idosos. Até que lhe ocorreu que a exagerada reação da esposa só poderia ter um motivo: Poderia muito bem haver coisa naquela coisada!…
Olhou para o celular e sentiu um desejo irresistível de, agora sim, devassar todos os segredos porventura ali contidos. Para isso, pensou, é preciso medir com acurácia e desenhar num papel as coordenadas do celular em relação a algum ponto de referência na mesa. Também era necessário medir rigorosamente o ângulo do aparelho em relação à aresta da mesa e para isso era necessária a utilização de um transferidor que não tinha à mão…
Mas era, enfim, muita mão de obra e o homem acabou desistindo dessa besteira e sintonizou a televisão no canal dos mistérios da Agatha Christie.
Pelo sim pelo não, no seu caderninho de apontamentos escreveu: “Comprar um transferidor”…
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