
Experimento uma espécie de enjoo neste meu hábito de escrever em voo. Até deu rima e isso deveria deixar-me pra cima – Olha! Rimei de novo. Será porque voltei a com mais frequência voar e isso já me está a enjoar? Pensando bem, os voos nada têm a ver com o meu enjoo e é afinal com o stress que me magoo. Retorno para Salvador, a caminho de mais um período de trabalho difícil. Volto contrariado e apreensivo, devo dizer-me e principalmente, convencer-me.
“Escrever”, escreveu Pessoa, “é esquecer; Esquecer a vida”. Mas, aqui para mim mesmo, eu não sinto que, enquanto escrevo, esqueça o tanto desta vida que me apavora, que me atormenta. Diariamente surgem novos motivos para sentir-me atormentado. Sou hoje muito mais velho que Pessoa, ao tempo em que ele escrevia seus textos e poesia e acreditava que tinha à sua frente muita vida para esquecer. Com esta idade, não me restam ilusões enquanto escrevo meus arrazoados e poesia sem reconhecível valor literário. Também não me acho capaz de camuflar os dramas da vida cobrindo-a com um fino manto mais ou menos habilmente tecido com letrinhas. Viver no segundo milênio é desafio insano. Meus netos vão estudar dezoito ou vinte anos para saírem feito nômadas à procura de sobrevivência nos cantos mais remotos do planeta, tal e qual o faziam hordas de famintos analfabetos ao longo da maior parte do século XX.
Naquele tempo, uma pessoa letrada como Pessoa, lograva sobreviver muito bem do seu trabalho de simples amanuense bilíngue, empregado de escritório de importação e exportação, com tempo de, ao cabo das oito horas regimentais, se perder da vida enquanto se embrenhava, criativo escriba, no emaranhado da sua admirável pluralidade.
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