Sou, de ordinário, extraordinariamente resistente a sair em busca de ajuda médica para as mazelas que o avanço da idade vai me impondo. Por livre e espontânea pressão da minha mais-que-tudo, cujos olhos ultimamente mudam de cor com crescente frequência acompanhando seus acessos de falta pura e simples de paciência para me aturar, cumpri a recomendação da pneumologista que me atendeu há mais de dois meses para que eu procurasse apoio de um especialista sobre os meus antiquíssimos problemas de sinusite crônica e quase permanente anosmia.
Procurei na lista de otorrinos um nome feminino que me soasse simpático e me sugerisse suavidade e compreensão. Mas, por maior brevidade de data, achei-me sentado frente a frente e nervosíssimo, com a doutora Núbia, a quem apresentei os exames, testes e demais históricos a que ela deu relativa importância. De poucas palavras e gestos decididos, ordenou-me que sentasse numa cadeira tipo de dentista, ligou equipamento, orientou uma tela para que eu pudesse também ver e, sem a mínima cerimônia, enfiou um instrumento com câmera pelos buracos dos meus dois narizes acima, fazendo-me assistir a um filme de terror através de horrendos tuneis tomados por formações estranhas. “Polipose nasal bilateral; Necessidade de microcirurgia nasal” – falou, escreveu e assinou.
Saí do consultório prometendo-me que não farei porra de cirurgia nenhuma e conviverei para o resto da minha vida com a falta de olfato, que tem afinal algumas vantagens e.g., há anos que não sinto o cheiro que deixo no banheiro todas as manhãs. Para completar, entro na farmácia para comprar os medicamentos receitados e despendi 400,00 reais. “Vaca!” – pensei, para logo em seguida acrescentar resignado: “Com todo o respeito…”