Faz algum tempo que me evito e não converso comigo. Também, repito-me, nada tenho para dizer-me, nada, nada. Se encetar agora alguma conversa, corro o risco de não encontrar assunto, de tal forma a bolha do nada se expandiu. Esvaziei-me ao ponto de chegar a convencer-me de que a minha massa cinzenta se tornou o invólucro de uma lacuna. Aridez absoluta, estéril, algo assim como um deserto deserto, decerto…
Mas eu sei, ou pelo menos julgo saber, que doente eu não estou, tirando aquelas mazelas que aos costumes dizem tudo. Hoje fiquei feliz porque a pneumologista que requisitou scanners do meu tórax, depois de longo, tenebroso e ruidoso silêncio, respirou fundo e disse que o meu pulmão continua limpinho e dando pro gasto.
Telefonei ao meu amigo Valdemar Aveiro. Falou muito do muito que sofre pela companheira destruída por cruel doença. Disse-me das alegrias que seus livros lhe dão para contrabalançar a dor, por isso está bem ativo preparando seu quinto título. “Escreva, Nelson, escreva e publique, porque esta vida é curta demais!…” Veio-me à ideia Caeiro, que escreveu não recordo onde: “Se eu morrer de novo sem publicar livro nenhum, sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa, não se ralem. Se assim aconteceu, assim está certo”.
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