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Archive for Março, 2016

Continuidade

“Diga-lhe que fico”! As palavras, minhas palavras, estalam e reverberam quicando pelos sinuosos labirintos da minha pensatrix. Somos mesmo problemáticos! Sim, comprometi-me a estender meu shuttle service pela BR 101 por mais alguns nem tão poucos meses, embora mantendo o propósito de parar este ano. O momento é de desafio, cujo tamanho cresceu na razão inversa dos proventos. Meu descanso, o livro, as guitarras – tudo adiado.

Minha garganta queima e dói, espirro muito e estou com medo. Gripe, Dengue, Zica e outras maleitas tão feitas de riscos e perigos para os que, como eu, já dobraram o cabo dos setentas – o cabo das tormentas. O momento é tenso, denso, intenso. Penso, penso, mesmo assim ainda penso e, em consequência, existo. “Existo-me”! Insisto-me.

Então tá…

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Volare

shark

O meu tempo escoou-se nos anais do tempo, os valores foram-se modificando seguindo as múltiplas partituras das sinfonias à sobrevivência. Polifônicas, por vezes românticas e poéticas melodias de doce e suave envolvência, logo seguidas por cacofonias perturbadoras, estridentes, turbulentas, não raramente culminando em tempestuosas apoteoses de milhares de tímbales.

Movimento-me, sonhador, entre Cessnas e Pipers de uma Escola de Pilotos nos arredores de Curitiba, transportado às brumas dos meus teen no pequeno aeroclube da cidadezinha em morenas praias, acreditando que poderia vir a ser um comandante cruzando os ares do Planeta tripulando as mais avançadas aeronaves. Agora, entre Cessnas e Pipers, realizo que os ares do Planeta que cruzei, cruzeio-os não apenas como simples passageiro mas como um eterno piloto frustrado. “Errei feio”, avalio. “Ou talvez não”- concluo…

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Realidade

Olhei com alguma tristeza para o meu velho Astra, desbotado e ofegante da viagem. Mais uma vez comportou-se bem para um veterano com treze anos completados desde que o adquiri e coloquei em circulação pelas estradas desta vida. O velho e fiel Astra, pensei, dificilmente será algum dia reposto por alguma nova, reluzente e possante máquina. Não que me desagradasse a ideia de ter um carrinho com as tecnologias modernas, tão tardiamente vulgarizadas no Brasil. O meu Astra, velho de guerra, não possui abêésses nem almofadas que inflam nas batidas, muitos menos computador de bordo ou controle automático de velocidade de cruzeiro e o seu rádio é do tempo em que os animais falavam. A realidade é que, a não ser que me saísse uma loteria – coisa altamente improvável pela simples razão de que é raríssimo jogar, eu não terei mais condições de ganhar para um carro novo – fim –

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Velório

Passaram-se os dias, rascunhos sem conta foram descartados sem que nenhum post acabasse tomando seu lugar no Blog com o rosto e forma de uma das minhas mukandas. E o vilão de tudo isso, é o vilão principal deste e de todos os momentos: O maldito político! Por mais que eu diga que político bom é político sendo velado, ele, o político, continua mais vivo que nunca e fazendo mais merda que nunca. O pior é que tem circos “assim”de palhaços políticos nas duas nações separadas pelo oceano.

Mas viremos por agora o disco e velemos respeitosamente quem da lei da morte se libertou, deixando uma sensação de vazio nos palcos dos nossos dias: Nico Breyner cansou-se deste vale de lágrimas e fez wafa assim sem mais nem menos, sem avisar amigos e admiradores. No tempo em que assinava a extinta TVA, que incluía a RTP internacional, tivemos muitas oportunidades de apreciar seu trabalho. O nosso amigo Jorge Antonio, Realizador/Diretor de cinema, dirigiu-o em “A Ilha dos Cães” que em Abril terá sua estreia nos cinemas de Portugal e, salvo erro, em Angola.

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Vejo um pêndulo gigantesco que balança sobre a minha cabeça com absurda lentidão. O tempo atrasa, o dia colide com a retaguarda da noite, porque o atraso pendular é noturno e não sabe que o pêndulo do dia está no tempo do tempo. Acordo atrasado, é claro e a minha percepção do tempo está defasada do tempo real. Sentei na beirada da cama e deixei que meus olhos focassem a realidade real e dessem a ordem para desligar o meu complexo sistema noturno de realidades absurdas.

Depois, caiu a ficha e acabei por sentir-me fora do meu mundo. Este mundo que eu espreitei através das vidraças não poderia ser meu mundo. Tive vontade de voltar pra cama e desligar de vez o disjuntor principal, só para não ter de enfrentar a selva, a selva, a selva povoada de animais peçonhentos de duas pernas. Mas eu também sou animal de duas pernas e já terei por certo ao longo da minha vida tido meus momentos de animal peçonhento.

Esqueci a cama e entrei debaixo do chuveiro frio, que aqui é frio pra burro apesar do calor senegalês que tem feito. Olhei a estreita parede de azulejos e imaginei que ali houvesse um grande espelho refletindo meu corpo nu. Imaginei-me, é claro, atlético, jovem, bem dotado e irresistível, porque não? Mas depois cometi o erro de ficar na frente do espelho espelho meu, que riu da minha cara e desdenhou dos meus encolhidos atributos…

A propósito, amanhã é o décimo dia de Março e desta vez não esqueci de lembrar-me que, se amanhecer vivo, meus atributos completarão setenta e dois…

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Do tempo restante

Sendo o futuro nada mais que uma hipótese diluída nas névoas do caminho ainda por percorrer, o que restará pela lógica da minha própria lógica para ser vivido, deveria ser sorvido e saboreado a cada nanossegundo, como se fosse derradeira a próxima sístole do meu coração. Mas isso não acontece e, dir-se-ia, acabo por levar muito a sério o meu outro lado disposto a continuar a brincar de imortal até que a morte finalmente me surpreenda.

“Agora que tenho tempo, descubro que tempo já não tenho”. Não sei de quem é a frase que a Nina escreveu num papelinho que pendurou no monitor, numa silenciosa advertência de que urge parar com o que faço para efetivamente dedicar-lhe, dedicar-nos o que resta do que resta.

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Aridez

Faz algum tempo que me evito e não converso comigo. Também, repito-me, nada tenho para dizer-me, nada, nada. Se encetar agora alguma conversa, corro o risco de não encontrar assunto, de tal forma a bolha do nada se expandiu. Esvaziei-me ao ponto de chegar a convencer-me de que a minha massa cinzenta se tornou o invólucro de uma lacuna. Aridez absoluta, estéril, algo assim como um deserto deserto, decerto…

Mas eu sei, ou pelo menos julgo saber, que doente eu não estou, tirando aquelas mazelas que aos costumes dizem tudo. Hoje fiquei feliz porque a pneumologista que requisitou scanners do meu tórax, depois de longo, tenebroso e ruidoso silêncio, respirou fundo e disse que o meu pulmão continua limpinho e dando pro gasto.

Telefonei ao meu amigo Valdemar Aveiro. Falou muito do muito que sofre pela companheira destruída por cruel doença. Disse-me das alegrias que seus livros lhe dão para contrabalançar a dor, por isso está bem ativo preparando seu quinto título. “Escreva, Nelson, escreva e publique, porque esta vida é curta demais!…”  Veio-me à ideia  Caeiro, que escreveu não recordo onde: “Se eu morrer de novo sem publicar livro nenhum, sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa, não se ralem. Se assim aconteceu, assim está certo”.

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