O título, belíssimo e desconcertante, mexeu comigo mesmo antes de sequer dar um passo para adquirir o livro. Recolhi-me ao meu casulo, vasculhei-me, vasculhei-nos, inquiri-nos e tateei freneticamente as cicatrizes de velhos ferimentos na alma. Ponderei então que se eu ainda posso tatear cada uma das cicatrizes, resulta que a minha amnésia não avançou para cicatrizar as cicatrizes. Considerando a insegurança das minhas ponderações sobre o tema, fiz o óbvio: Desisti e li o livro.
“Segredos verdadeiros são sepultos. Enterrados vivos, são aflição constante para todos os túmulos. Por mais que se acredite, nenhum segredo é só seu, todos têm uma vitima oculta, o segredo explica o silêncio que por si o explica”.
Assim enceta o autor sua jornada através da sua narrativa recheada de filosóficas utopias, desutopias e pura poesia plena de surpreendente humanismo, até desaguar no estuário gostoso do amor e romance. Na minha caminhada ao longo do texto, dei por mim nem tão poucas vezes calcorreando penosamente conhecidas veredas cheias de pedras e espinhos em direção ao local onde, diziam-me, morava a felicidade.
Bebi o livro degustando cada página, porque em seu âmago eu me encontrei na minha própria trajetória. Como estou só no momento, servi-nos duas taças de um tinto de razoáveis reservas alentejanas: Brindamos, eu e eu mesmo, à vida, suas alegrias e misérias, suas vicissitudes e ferimentos que a indefectível amnésia um dia cicatrizará.
Ao Autor, Milton Camargo, congratulações pelo excelente texto, esperando pelos próximos!
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