Acordar de madrugada, espiar pela janela os primeiros e tímidos sinais de um novo dia ensolarado e quente de um verão pavorosamente quente. Um copo de água, a higiene matinal, uma fruta um pãozinho integral, um copo de água, a medicação matinal para controlar os desbalanços químicos dos meus desgastados órgãos. Depois, é a rotina, a rotina, a rotina dos dias vendidos. Se vendi os dias, é claro que os dias não mais me pertencem. Os compradores têm todo o direito de deles, dos meus dias, disporem e usufruírem . “Que insanidade, abrir mão dos parcos dias que me restam”, digo-me amiúde enquanto me revolto! Mas a revolta dá em nada – eu vendi e pronto, tá vendido! Ao trabalho que se faz tarde!
Mas, no caminho do trabalho tem um atalho. Atalho que algumas vezes me leva à praia, de onde posso enxergar o erguer do poderoso Sol em toda a sua omnipotente imponência! Omnipotente, imponente e pleno de dominadora arrogância! Emociona-me, todavia, antes de assustar-me com a grandiloquência e absolutismo do seu poder. Sou, pois, um adorador do Sol, fulcro central do meu Universo e da Mãe Natureza que a minha vida sustenta! Sustenta também, reflito, as vidas dos que compram os meus dias, convencidos, pobres mortais, de que são muito poderosos.
Uma destas manhãs, descobri nas sombras outro Ser meditativo da madrugada. Solitária menina, ajoelhada sobre um banco, segurava um livro e dividia-se entre o processo de nascimento do Astro-Rei e o que estava escrito no livro que segurava. Estava ainda escuro para uma fácil leitura, pelo que acredito que a solitária menina sabia o texto de cor e que o recitaria para o todo-poderoso que assomava lá no rubro horizonte. Invejei a solitária menina, tão menina, terrena, serena, pequena-grande menina terrena! Terá ela, tão jovem, já começado a vender como eu vendo, seus dias a troco da sobrevivência?…

Nelsinho, bravo!
Muito Honrado pela visita!! Muit Obrigado!