A voz de Carminho garante-me um gostoso cafuné de alma enquanto devoro quilômetros calor adentro, dentro da minha bolha rolante comodamente refrigerada. Emparelho minha pensatrix com os versos que repousam sobre a melodia deliciosamente enfeitada pelos gemidos das guitarras. São sempre rimados, aqueles versos tão bem cantados! Ah! E como eu gosto da poesia rimada, ao ponto de jamais me atrever a dispor prosa poética em quadras, quintilhas ou sextilhas não rimadas.
O meu sistema dessincroniza-se de forma automática ao final da faixa e o pensamento acorda para a crua realidade: Encontro-me aos comandos de uma máquina de idade avançada, porém dotada de cavalaria para, enquanto eu deixava que o fluxo da poesia penetrasse nas veias e se juntasse ao fluxo sanguíneo, correr quilômetros sobre tempo inadequado à segurança. Ainda bem que acabei de trocar pneus e todos os amortecedores…
Desligo o som e concentro-me na condução, porque o trecho duplicado da BR 101 acabou. Daqui em diante os erros serão de mais difícil correção e podem acabar muito mal. O Charlie Hebdomadaire dirigia por trilha extremamente perigosa e acabou assim, muito mal, muito mal, muito mal. Tiro o meu chapéu e rendo-lhes minha homenagem, porque, no momento em que nos defrontamos com uma nova inquisição religiosa e cruzadas no sentido inverso, é preciso ter a coragem de os mandar por todos os meios à merda e ousar enfrentar esses malditos para garantir a liberdade de todos os credos, ou de simplesmente não crer em porra nenhuma.
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