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Archive for Janeiro, 2015

Segregação

herself

Faz algum tempo que não me visito. O diacho é que não estou mais sentindo falta de mim e por isso não me procuro. Secou, a minha alma, como a água das represas! Empoeirada alma, inerte e confusa com tantas miragens neste árido pedaço de deserto. O que, de alguma valia, eu me diria se me visitasse? Nada mais faz sentido, nada, nada, nada. A não ser ela, porque nela tudo volta a fazer sentido. É outro mundo, em outra galáxia para a qual eu viajo no espaço-tempo, à velocidade da luz. Visito-a, mas não me incluo na visita com medo de contaminar o encontro. É assim…segrego-me para ser feliz!

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H2O

O fraticida caminhava de pulsos amarrados, escoltado por gente armada e seguido por pequena multidão que ia engrossando conforme os mirones postados no caminho iam aderindo ao estranho e silencioso cortejo. O destino eu não sei, mas lembro-me de escutar que a Guarda Republicana estava a caminho para assumir e conduzir o preso para onde ele teria de ser posto a ferros. Esta é uma das indeléveis recordações de criança em que as imagens me ocorrem com perfeita definição, apesar da minha pouca idade – eu teria os meus cinco, talvez seis anos! Irmão matou o próprio irmão numa discussão sobre …água para a rega!

A região sudeste brasileira resvala para uma seca caótica de efeitos desastrosos e nunca esperados. Afinal, lembro-me, quando optamos por morar no país, alguém nos disse: “O Brasil é o país do futuro, porque tem muita água”!  Algumas particularidades surpreenderam-nos sobremaneira, no que concerne ao cada vez mais preciso fluido. Uma delas foi sem duvida a constatação de que os brasileiros dividiam igualmente o custo da água! Um sujeito que morava sozinho era obrigado a pagar o consumo de uma família de seis ou mais, porque não havia hidrômetros individuais, coisa que nunca havíamos visto!! Quarenta anos depois continua não havendo hidrômetros nos edifícios de apartamentos, mesmo os de recentíssima construção. Na míngua e consequente elevação do custo do liquido da vida, prevejo violentas querelas. Mas…quem sabe, deus seja mesmo brasileiro e recomeça a chover e tudo vai continuar igual…

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Solitária menina

Sun Prayer

Acordar de madrugada, espiar pela janela os primeiros e tímidos sinais de um novo dia ensolarado e quente de um verão pavorosamente quente. Um copo de água, a higiene matinal, uma fruta um pãozinho integral, um copo de água, a medicação matinal para controlar os desbalanços químicos dos meus desgastados órgãos. Depois, é a rotina, a rotina, a rotina dos dias vendidos. Se vendi os dias, é claro que os dias não mais me pertencem. Os compradores têm todo o direito de deles, dos meus dias, disporem e usufruírem . “Que insanidade, abrir mão dos parcos dias que me restam”, digo-me amiúde enquanto me revolto! Mas a revolta dá em nada – eu vendi e pronto, tá vendido! Ao trabalho que se faz tarde!

Mas, no caminho do trabalho tem um atalho. Atalho que algumas vezes me leva à praia, de onde posso enxergar o erguer do poderoso Sol em toda a sua omnipotente imponência! Omnipotente, imponente e pleno de dominadora arrogância! Emociona-me, todavia, antes de assustar-me com a grandiloquência e absolutismo do seu poder. Sou, pois, um adorador do Sol, fulcro central do meu Universo e da Mãe Natureza que a minha vida sustenta! Sustenta também, reflito, as vidas dos que compram os meus dias, convencidos, pobres mortais, de que são muito poderosos.

Uma destas manhãs, descobri nas sombras outro Ser meditativo da madrugada. Solitária menina, ajoelhada sobre um banco, segurava um livro e dividia-se entre o processo de nascimento do Astro-Rei e o que estava escrito no livro que segurava. Estava ainda escuro para uma fácil leitura, pelo que acredito que a solitária menina sabia o texto de cor e que o recitaria para o todo-poderoso que assomava lá no rubro horizonte. Invejei a solitária menina, tão menina, terrena, serena, pequena-grande menina terrena! Terá ela, tão jovem, já começado a vender como eu vendo, seus dias a troco da sobrevivência?…

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A voz de Carminho garante-me um gostoso cafuné de alma enquanto devoro quilômetros calor adentro, dentro da minha bolha rolante comodamente refrigerada. Emparelho minha pensatrix com os versos que repousam sobre a melodia deliciosamente enfeitada pelos gemidos das guitarras. São sempre rimados, aqueles versos tão bem cantados! Ah! E como eu gosto da poesia rimada, ao ponto de jamais me atrever a dispor prosa poética em quadras, quintilhas ou sextilhas não rimadas.

O meu sistema dessincroniza-se de forma automática ao final da faixa e o pensamento acorda para a crua realidade: Encontro-me aos comandos de uma máquina de idade avançada, porém dotada de cavalaria para, enquanto eu deixava que o fluxo da poesia penetrasse nas veias e se juntasse ao fluxo sanguíneo, correr quilômetros sobre tempo inadequado à segurança. Ainda bem que acabei de trocar pneus e todos os amortecedores…

Desligo o som e concentro-me na condução, porque o trecho duplicado da BR 101 acabou. Daqui em diante os erros serão de mais difícil correção e podem acabar muito mal. O Charlie Hebdomadaire dirigia por trilha extremamente perigosa e acabou assim, muito mal, muito mal, muito mal. Tiro o meu chapéu e rendo-lhes minha homenagem, porque, no momento em que nos defrontamos com uma nova inquisição religiosa e cruzadas no sentido inverso, é preciso ter a coragem de os mandar por todos os meios à merda e ousar enfrentar esses malditos para garantir a liberdade de todos os credos, ou de simplesmente não crer em porra nenhuma.

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Guerra

nós (1 of 1) - Copy

Um dia eu escrevi:

“Sentado na minha confortável poltrona acolchoada com a maciêz do meu descrêr, prezo-me e regozijo-me por não me encontrar entre os incontáveis milhões de seres biológicos deste pequeno planeta, amarrados a mais ou menos obscuros preceitos e preconceitos filosófico-religiosos que regem e dominam suas vidas por meio de forças diversas: Das mais violentas e sanguinárias autocracias do absolutismo religioso armado e cruel, àquelas de foro íntimo. As vergastadas sanguinolentas podem não ser a mais contundente forma de auto inflingir estúpido sacrifício pelo sofrimento. A auto flagelação pode incluir o não menos estúpido e não menos cruel processo de aniquilação pessoal em seus valores  profissionais, estéticos, de saúde física e psicológica…”

O ataque ao Charlie Hebdo não deixa dúvida de que as trevas estão tão cerca quanto nos tempos da inquisição. Os resultados dessa ação extremista não devem tardar com reações também extremistas no sentido oposto. Por isso, escrevi no Face Book uma referência ao Clã Le Pen, que certamente procurará tirar grande proveito para uma vez mais tentar chegar ao poder. Isso, sem falar que esta execução coletiva foi perpetrada a meio de manifestações de rua na Alemanha contra a islamização em curso naquele país. Pior, é que essa islamização éstá em curso em toda a europa, quiçá em todo o mundo civilizado. É a guerra! Mais ou menos na surdina por enquanto, mas é a guerra.

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Virada

fogos (3 of 1)

Extinta a ultima girândola de multicoloridos fogos de artifício, podemos ver que a mesa está posta para doismilequinze; A toalha é surrada, cheia de nódoas e manchas. Sobre ela, baixela fina, faianças, rica porcelana e talheres de prata dispostos de modo a encobrir da melhor forma a indelével sujeira. Mais tarde, os convivas chegarão impecáveis nos trajes que tão bem parecem cobrir-lhes as mazelas de alma e corpo. Os senhores do poder se repetirão, garantindo assim a continuidade da rota em direção à continuidade…

Certezas para doismilequinze, só uma: a de que eu próprio e quem eventualmente leia estas linhas, sobrevivemos ao findo período. A propósito: Preciso de alguém que me dê uma boa e irrefutável definição de “Esperança”.

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