…Então, ele distribuía sorrisos de improviso que, imaginava, apareceriam a alguém mais atento, como idióticos protótipos de sorrisos sorridos com verdade. Enquanto circulava entre convivas barulhentos e mais ou menos etilizados, inclinava levemente cabeça e corpo tão repetidamente que, dir-se-ia, parecia um judeu orando no muro. Depois, quedava-se sentado, sorridentemente rendido, observando, observando…E tudo observava sem nada entender, porque nada queria entender mesmo e porque também ele tinha a noção de que era vantajoso que, possuindo uma inteligência, a colocasse em “Idle” sem ocupá-la a tentar entender bulhufas do que estava ocorrendo em seu torno. Queria, sim, que essa inteligência que possuia fosse sempre capaz de fazê-lo entender-se a si próprio sem importar em que circunstâncias. Pelo menos que sempre lhe desse a pista certa para achar-se em si, consciente de ter uma consciência de ampla dimensão em todas as dimensões. Estava, é claro, desfolhando pensamentos no local errado! Encontrava-se numa festa privada, e a “música”, em volume absurdamente alto, abafava qualquer pensamento gritado, quanto mais pensado! Ocorreu-lhe que deveria integrar-se, encher a cara e entrar na roda sacudindo o esqueleto em sincronia com as sacudidas das frenéticas bundas ao ritmo do funk. Sentiu-se rir, enfim, com verdade, imaginando-se no inimaginável. Inimaginável, mas não impossivel, admitiu de si para si com pouca segurança. O riso franco e autêntico rendeu frutos tão inesperados quanto imediatos. A mulher magra dona de espantosa e improvável ginga nas magras cadeiras exibida no fragor do funk, acercou-se em ataque direto. Fez perguntas, assegurou-se de que ele não usava aliança e foi aos finalmentes pedindo troca de telefones. Surpreendido, ele ficou sem ideia de onde meter as mãos e os pés, enquanto procurava uma saída. E a saída salvadora veio da própria funkeira de ágeis cadeiras magras: “Mmm..então, cê está sozinho mas é casado, não é? Perguntou. “Sim, sou!” gemeu. Alguém chamou e as magras cadeiras navegaram no recinto, afastando-se sem retorno…
Archive for Julho, 2014
A festinha
Posted in Uncategorized on 27/07/2014| Leave a Comment »
Conjecturas aladas
Posted in Uncategorized on 19/07/2014| Leave a Comment »
Enlatado num alado tunel de metal por dez enfadonhas horas comprimido numa cadeira “econômica” extremamente desconfortável a que por aqui se convencionou atribuir a pomposa classificação de “Poltrona”, carrego comigo as mazelas naturais relativas à minha idade e tenho grande dificuldade para dormir em voo. Desfilam então pela minha pensatrix, torrentes de questionamentos e conjecturas. O que será “elite branca”? Soa-me como uma designação racista inventada por políticos racistas e mal intencionados para explicar manifestações desfavoráveis, com ou sem xingamentos. Mas, analisando ao perto, a tal elite branca é afinal uma classe bastante multiracial e heterogênia da sociedade que se preparou, que empreende, que trabalha muito duro, que alimenta a garganta escancarada e debochante de uma máquina fantástica e nunca vista de compra de votos mediante distribuição de bolsa-parasita a uma massa que não se preparou, que não tem emprego nem tem nenhuma intenção de procurá-lo, ameaçando paralisar um país de potencialidades ímpares no planeta, mas de infeliz, paupérrima, retrógada e auto destrutiva mentalidade politico-administrativa…
Southbound soul
Posted in Uncategorized on 18/07/2014| Leave a Comment »
Voo a minha sonolência a trinta e sete mil pés de altitude e o meu espírito ergue-se para os que pereceram hoje numa máquina semelhante à que agora me transporta pelos ares, rasgada no céu em tiras cadentes, candentes, tenebrosas, escabrosas. Malditos sejam todos os politicos e militaristas do mundo, porque deles é o reino dos infernos. Preciso dormir, mas quero convencer-me de que não. não preciso e prefiro pensar, mas só consigo pensar que a pensar morreu um burro com albarda e tudo…De repente sinto dó de mim sem saber se tal é porque mereço esse dó que sinto, ou se sinto muito por sentir esse dó. Sou, afinal, um ser caótico com tendência à auto flagelação, concluo! No entanto…