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Archive for Maio, 2014

Caminhei calmamente pelo convés principal em direção à superestrutura retorcida e enegrecida pelo fogo. Parei e sentei sobre um dos cabeços de amarração e abri a pasta contendo questionários técnicos que teria de preencher, relativos a todos os equipamentos existentes nos compartimentos de máquinas. Eram muitos e eu pensei no longo e solitário trabalho que me esperava. Ainda sem muita convicção, subi os degraus de acesso ao castelo de popa, onde encontrei a caixa de ligação dos “arraiais” de luzes instaladas para iluminar precariamente a praça de máquinas e adjacências. Acionei o disjuntor e entrei pelos corredores queimados e deformados do alojamento, até encontrar uma das portas de acesso às máquinas.

Liguei a potente lanterna de mão, enquanto penetrava no recinto e experimentava a solidez do piso e varandas de aço, apesar de tudo haver sido vistoriado pelas equipes de segurança e de muitos reforços e estrados haverem sido adicionados. Iniciei a descida para os sombrios pisos inferiores da praça de máquinas, esforçando-me por fazer muito barulho, como se, com tal proceder, pudesse tranquilizar o meu espírito. Em alguns pontos, a falta de iluminação era um sério obstáculo, porque a luz da lanterna, de feixe dirigido, mantinha as sombras no em torno, confundindo-me na escolha do melhor itinerário de descida. Atingi finalmente a parte superior do motor principal e dirigi o foco para o tanque diário de combustível; Fora dali que descera a cachoeira de fogo e logo o inferno se espalhara rapidamente por todos os cantos, num cerco letal para as dezesseis pobres almas ali incineradas vivas…

Desci os degraus para o ultimo piso e esgueirei-me com dificuldade por entre os calcinados equipamentos, estruturas, tubulação e cabos elétricos. Definitivamente, a iluminação instalada estava muito longe de permitir um trabalho sério e seguro, sobretudo por uma pessoa só. Nos dias de hoje, com as exigências de segurança ditadas pelos modernos regulamentos SMS, seria inimaginável a decisão de um trabalho de levantamento de tal envergadura dentro de um navio devastado por um violento incêndio, ser levado a efeito por um só homem, sem qualquer acompanhamento ou apoio.

Decidi-me por iniciar a minha tarefa dentro da sala das puríficas, primeiro porque era um dos recintos mais bem iluminados, e em segundo porque os equipamentos ali instalados estavam praticamente incólumes. O fogo não penetrou ali, porque decorria uma inspeção de centrifugadores com a presença de três engenheiros, sendo um do armador, outro do estaleiro, finalmente o terceiro, um surveyor do LLoyd’s Register. A localização da porta do compartimento das puríficas impediu completamente a fuga do grupo, pois foi exatamente por ali, que o diesel em chamas fluiu. Cerraram, pois, a porta de aço, na esperança de que se tratasse de simples princípio de incêndio que logo seria debelado. Os três homens pereceram à míngua de oxigênio e seus corpos foram literalmente assados pela altíssima temperatura, que se podia imaginar observando, nos quadros elétricos, as botoeiras de comando e outros componentes de plástico e nylon derretidos sem que o fogo lhes tivesse chegado! Por um bom tempo, não consegui impedir-me de meditar sobre o sofrimento atroz daqueles infelizes nos momentos que antecederam a perda da consciência.

Finalmente, com um profundo suspiro, abri a pasta e dela retirei os questionários relativos aos sistemas de centrifugação de diesel, óleo pesado e lubrificantes, metendo definitivamente a cara no serviço. Passaram-se duas horas desde que desci à posição em que estava e o trabalho fluía com progresso aceitável. Por essa altura, meu espírito estava totalmente envolvido pela atividade, o sombrio local não mais me afetava e o destino trágico dos que ali pereceram nem de leve me tocava. Entretanto, alguém foi enviado para me dar suporte e ajuda, a julgar pelos passos que escutei nos “walkways” superiores do espaço de máquinas.

De joelhos ou estirado nos estrados, examinava em detalhe o estado em que se encontravam os componentes dos equipamentos e depois sentava e tomava notas para os relatórios que ajudariam a decidir o que iria ser recuperado e o que tomaria simplesmente o caminho da sucata. Longos minutos se escoaram e a ajuda que achei estar a caminho não havia meio de chegar! Pousei a prancheta e atravessei a porta. Posicionei-me junto do Motor Principal e olhei para cima, tentando divisar alguma lanterna que me permitisse localizar quem estava descendo, que poderia muito bem estar confuso para achar os caminhos e escadas. “Oi!”, Berrei; “Quem está aí em cima? Sabe como descer? Precisa de ajuda?”. Nenhuma resposta. Ruídos, só mesmo as leves batidas do casco contra os postes de acostamento e amarração tipo duque d’alba.

Voltei ao trabalho com um encolher de ombros, mas alguma coisa havia mudado em mim. A minha atenção e concentração na tarefa não era mais a mesma e sentia uma horrível sensação de desconforto que me impedia de prosseguir. Peguei a prancheta e a lapiseira, para voltar imediatamente a pousá-las e a atravessar a porta, porque os passos voltaram a fazer-se ouvir, acompanhados de rangidos próprios de alguém que caminha sobre estrados de aço mal suportados! “Quem está aí em cima?”, bradei. Esperei alguns minutos, voltei às puríficas e, antes que pensasse de novo no serviço, prestei atenção aos passos que desta vez se ouviam pelos corredores do alojamento. Eram espaçados, iam e vinham como se alguém estivesse procurando uma saída.

Sem fôlego, com o coração saindo pela boca, canela da perna direita esfolada, um ferimento na mão esquerda e todo sujo de foligem e óleo, foi como me encontrei a mim próprio no convés principal, após a tão alucinada e desesperada procura pela luz do dia. Entrei, sim, em pânico a tal ponto que não logro sequer lembrar de nenhum detalhe da minha frenética subida através das agora aterradoras sombras do calcinado navio.

Quando recuperei o sangue frio, fui até à borda e desci pela escada improvisada, unica forma de embarcar e desembarcar, já que o navio estava sem escadas de portaló para acesso. O guarda, postado nas imediações e encarregado de controlar quem subia, confirmou que ninguém embarcou ou desembarcou durante o tempo em que eu estive a bordo…

 

Qualquer semelhança com fatos acontecidos, não é mera coincidência.

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Clarice

Resenhar Clarice?!… Suponho que não poucos o haverão feito de todos os seus livros. Não disponho de dados bibliográficos dessas resenhas e, confesso, tampouco as procurei ou procurarei, porque eu prefiro a elas não ter acesso e deixar-me levar, sem influências, por minhas proprias ideias.

Clarice Lispector é autora de pequenos livros de extensos textos. Extensos, na medida em que neles não funciona nenhuma técnica de leitura dinâmica. Ou se leem com redobrada atenção, ou não se haverão lido. Junto com a “redobrada atenção”, o leitor deverá disponibilizar uma alma com os portais escancarados e dotada de sagacidade capaz da proeza de emparelhar com a alma da escritora.

E Clarice é dona de uma alma labiríntica onde vezes sem conta me perco por me faltar a tal sagacidade em dose que me permita seguir suas pistas, em grande parte deixadas em hieroglifos filosóficos cujo entendimento requer perspicácia na leitura e fôlego para, a pulmão livre, mergulhar profundamente nas águas vivas e não raramente revoltas do seu âmago. Mas, como Lóri pensa em Uma Aprendizagem: ou o Livro dos prazeres, “…não entender é tão vasto, que ultrapassa qualquer entender…”

Não creio, pois, que algum dia me aventure pelas vertentes pedregosas que adivinho de tormentoso caminhar, na redação de uma resenha de qualquer dos seus livros que até este momento tive oportunidade de ler. Apenas uma certeza eu tenho: Lê-los-ei todos e, após degustá-los a meu prazer, ousarei ousar uma vez mais em algumas linhas calcadas na linha dos meus pensamentos.

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Preferiria não ter escrito o post anterior. Deveria então eliminá-lo, simplesmente. No entanto não o faço, porque, descubro, não quero fazê-lo. Ele reflete um momento de extrema tensão pessoal – um pique subito na minha curva de humor, mau humor, no caso. Ora, se essa curva é um histórico do meu humor, história não se elimina. Só os asnos políticos o fazem.

E eu deploro asnos políticos, demagogos de todas as malditas ideologias que se ancoram ad eternum nos seus poleiros com verborréia fácil e irresponsável uso das cada vez mais diminuidas riquezas geradas pela decrescente massa dos que produzem realmente, em ações iminentemente empobrecedoras e emburrecedoras.

Mas, reconheço, eu deveria então consultar esse gráfico do meu humor e procurar passar ao largo, o mais afastado possivel, de tudo o que possa afetar-me o “simpático”. Confirmo que o FB pode sim, afetar-me e muito. Logo, tudo o que tenho a fazer é evitá-lo, como aliás me havia anteriormente determinado em procedimento íntimo. É só seguir e cumprir o procedimento.

Em post recente, eu havia me comprometido a deixar de vez o caos da realidade “real” e mergulhar completamente na “realidade poético-filosófica” nas entranhas do meu impossivel. Afinal, com setenta completados, não devo e não posso martirizar-me. A crua verdade pode, se quisermos, até ser motivo de pândegas considerações: A maioria dos meus amigos são meus ídolos no campo artístico, mas politicamente inconciliáveis; melhor então passar bem afastado de tal barreira…

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Suo frio e sinto-me agoniado com um forte sentimento de fracasso. “Fracasso? Mas porquê?”- penso em voz alta, alta demais, falsa demais, que demais são os motivos que carrego comigo para me sentir fracassado. Decido despejar a culpa toda sobre o FB – Face Book, estupida torre de babel eletrônica, caótica e pejada de armadilhas. FB – Fu#@#ng Bastard! Eu te abandono e… tenho dito, pronto! Lá eu não volto mais. (Será?…)

 

Update em 21 Maio: Voltei ao FB!…

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Sou um chato…

… porque deploro secretismos e hermetismos onde deveria haver cristalina transparência, assim como desprezo teorias de conspiração que, de ordinário, emanam e exalam de malcheirosas fossas de tendenciosismo politico.

…porque desconfio de sociedades secretas de qualquer tipo e sinto-me incomodado se tentam arrastar-me por meio de melífluas frases, a acreditar nesta ou naquela filosofia com ou sem status religioso.

Sou realmente um  chato que desdenha de livros de autoajuda, astrologia, gurus místicos e pregadores do ocultismo em geral…

…e, last but not least, que se repugna com todas as formas de culto à personalidade tão presentes nos regimes autocráticos, ditatoriais de extremas esquerdas, direitas, canhotas/canhestras e religiosas

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“…deixa que digam, que pensem, que falem; deixa pra lá, vem pra cá, o que é que tem?…Eu não tô fazendo nada, você também! Vamos lá bater um papo bem gostoso com alguém, vem!…”

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Devaneios I

Tal como Pessoa, sou pessoa para quem “o ideal seria viver tudo em romance, ler minhas próprias emoções e viver meu desprezo por elas”. Chego ao exagêro de romancear meu dia a dia e inventar situações: Cômicas, constrangedoras, ridículas – ridicularizo-me amiúde – mas povoo meus romances com egocêntricas considerações absurdamente superlativas. Absurdas, superlativas e impossiveis, porque é no seio do impossivel que me sinto eu mesmo, sugerindo que sou fruto de improbabilidades. Sou então improvável, maugrado as batidas mais ou menos arrítmicas do meu coração. Tenho, todavia, nesse arrítmico coração, uma fé inquebrantável no “Amor”! Acredito até que seja a unica fé que verdadeiramente me mantem a alma em vida…

Far-me-ia d´outra fé um seguidor

não fora a esta fé tão devotado

qual fé poderá ser mor que o amor?

q´outra fé me traria tão alimentado

d´alma e coração com tal fervor

q´a esse amor sou, à fé, acorrentado?

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Fosforescência

Mergulhar como vim ao mundo naquela estranha fosforescência e agitar as águas para que se “acendessem ainda mais”. A magia era mais-que-real porque nela estava de corpo nu, integrado à escuríssima noite das águas de luz que me acolhiam em meu indizível êxtase! Êxtase de kandengue de sorte, especialmente convidado para aquela noite dos espíritos em festa! Nudez resplandecente que corria sufocando de gargalhadas pela areia tépida da prodigiosa praia na mãe África, mãe-de-todas-as-mães de poderes tais, ao ponto de ser capaz de trazer estrelas brilhantes para o mar, só para eu nelas me enrolar, só para eu louquear de alegria sem par…

 

Noite de águas de luz, praias do Lobito, Angola, anos 60

Foto: Encontrada na net, sem créditos

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Home alone

CL

Realizo-me em frenéticas tentativas de açambarcar o mundo com pernas, braços e alma. Mas tudo dá em nada: Segue-se uma penosa sensação de ser pessoa de absurda inutilidade – such an useless person – em qualquer idioma, em qualquer campo de qualquer campo…

A minha + que tudo viajou e no que o fez, deixou-me viajante d’um turbilhão de frustrações várias e várias e várias. Sou obrigado a reconhecer que, é muito claro, tudo o que eu queria era ter ido junto. Mas não fui e fiquei comigo próprio, falso e insuportável companheiro. Gastei meio sábado desocupando um armário de bugigangas informáticas que jamais voltaria a usar; Doei gabinetes de CPU com drives jurássicos que ainda funcionam, teclados, estabilizadores de tensão, altofalantes de multimídia, sacolas estufadas com cabos e conectores de todo o tipo e até um monitor flat screen em perfeito estado. Também baixei updates no Tom Tom depois de pagar o que me pediram, esperando que essas dispendiosas atualizações correspondam à realidade. Ao final, descobri-me havendo recobrado um pouco da minha autoconfiança e estima.

O que um sacrificado, mutilado e heroico pescador das geladas águas da Terra Nova tem a ver com Clarice Lispector? A pergunta é perigosa e de resposta complexa, na medida em que seria seguida por: “Justifique”! E “justificar”, significaria desenvolver um encadeamento de ideias e lógica de pontos de vista que poderia até dar quase como que uma tese. Terminada a leitura das extraordinárias aventuras de Howard Blackburn em “Lone Voyager”, volto para Clarice, por quem me confesso apaixonado.

 

 

 

 

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