O rápido embarque para uma missão de pouco mais de vinte e quatro horas não teria história para contar, não fora o denso nevoeiro que se formou durante a madrugada em torno da Ilha de Santana. Acordei com os lúgubres uivos modulando os dois pontos e um traço repetidos a cada trinta segundos correspondentes à letra “U” em código morse, para avisar os navegantes da presença da nossa ancorada mole de ferros flutuantes…
Tateei o canto do beliche até achar os óculos e o celular, que ali deixei estrategicamente colocados. Ensonado, vi que eram 03H20 e senti que estava com a bexiga estourando. Com a facilidade natural de um bom septuagenário, logrei descer a escada de três degraus. Lembrei-me que aceitei sem problema deitar no beliche de cima, porque o companheiro de cabine, conquanto conte menos de 50 anos de vida, é brutalmente obeso…
Escalei-me de volta para a cama, mas o interrompido sono não voltou. Se o aviso sonoro de “Código U” havia sido ligado, pensei, é porque havia nevoeiro que poderia impedir ou pelo menos atrazar a vinda do pequeno barco de apoio que me transportaria de volta a terra. Não tardou muito e achei-me no convés portando a minha velha Canon D350 equipada com uma lente também fraquinha 1:4 com zoom de 17-85. Para fotos de trabalho é ainda bastante aceitável, mas lamentei não haver levado para bordo equipamento melhor.
A madrugada estava fantasmagórica e eu mergulhei livremente nas profundezas do mais insólito, ilógico e utópico conteúdo do meu mundo interior. Incapaz de descrever, nos limites deste escrito, tudo o que me passou pela mente, deixei gravadas em fotografia as imagens do meu amanhecer envolto na neblina das incertezas…
“O Sol nascente derrete a neblina
que me esconde a alma,
que esconde as incertezas
de um dia mais a menos…”
++++
“Rising Sun melting the mists
That hide my soul´s uncertainties
Of yet another day
Subtracted from lifetime…”
(prosa poética de outros textos escondidos)

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