Acomodando-me uma vez mais sobre a poltrona acolchoada com a maciez dos meus descreres, observo a massiva manifestação de fé, ao vivo e com todas as maravilhosas e contrastantes cores do Rio de Janeiro durante a missa do Papa na praia de Copacabana. Tal como em imagens que me foram em outras ocasiões oferecidas na TV nas quais multidões compactas de peregrinos aglomeravam-se em Meca, em Fátima ou mesmo no Vaticano, surpreendo-me engasgado por infinita e incontornavel emoção! É real, legítima e inquebrantável a fé que move essas multidões!
Recuso-me e sacudo-me para livrar-me de qualquer rótulo. Nem ateu nem agnóstico nem crente. Sou exatamente o que sou e assim morrerei: Ensinado a temer nunca soube o quê por via de tradições centenárias familiares e dos longos períodos de doutrinação e catecismo, teria de trocar de alma para lograr apagar todos os resquícios desse aprendizado. Nunca me senti de fato interessado em encetar uma espécie de revolução interna que incluísse uma autolavagem cerebral no sentido de eliminar o que em mim existe ancorado e em repouso.
Um dia após o outro ao longo das minhas sete décadas, a leitura, a meditação e questionamento, fizeram de mim um crítico de todas as religiões, sem exceção, que acuso de propensas ao radicalismo, especialmente quando aliadas a forças de estado, responsáveis pelos mais vergonhosos banhos de sangue da história da humanidade. Reconheço também que é exatamente nos países com os menos religiosos cidadãos do mundo, onde o nível de vida e assistência propiciados em troca do trabalho, desde o nascimento até à velhice, é mais elevado e justo.
Mesmo assim, concluindo, posto que sou dotado de uma alma gentil, sensível e com algum recheio filosófico, o nó na garganta sofoca-me e os meus olhos vertem na presença da comovente fé de quem crê…
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