A Camões:“…Se te imito nos transes da ventura, não te imito nos dons da natureza” (Bocage)
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São indeléveis as marcas deixadas pela minha formação. Apesar da amálgama de traidores, entulheira de politicos e oportunistas destes tempos, porto no meu âmago a lusitanidade do jeito que me foi ensinada num tempo de miséria pós guerra, em que os males do culto à personalidade, catolicismo exacerbado e opção unica, tinham pelo menos a virtude de nos disciplinar e nos ensinar a amar e respeitar a nossa terra.
“Havia na parede um Jesus crucificado ladeado por duas grandes fotos encaixilhadas, de dois senhores. Um dêles era muito velho com grandes bigodes brancos e vestia um uniforme com uns pincéis dourados sobre os ombros. A minha professora estava em pé, junto de uma grande escrivaninha sobre a qual estavam livros e cadernos, uma varinha e uma palmatória. Abaixo das fotos e do crucifixo, havia um quadro de ardósia parecido com a minha lousa, só que tão grande, que a minha professora tinha de ficar em bicos de pés para escrever alguma coisa na borda de cima.
Eu e os meus coleguinhas estávamos também em pé com os braços postos ao longo do corpo, palmas das mãos para dentro conforme nos ensinaram, dizendo ser a posição de sentido e respeito por um senhor que acabou de entrar na sala e disse ser o diretor da nossa querida Escola. O nosso diretor falou em boas vindas e muitas outras coisas, como disciplina e bom porte, atenção nas aulas e, principalmente, castigos.
Chegou depois um senhor abade, que explicou que o Jesus na parede foi ali colocado para proteger e iluminar todos nós na classe e também os ilustres senhores das fotos que governavam o nosso querido país e eram o excelentíssimo senhor presidente marechal Óscar Fragoso Carmona e o excelentíssimo senhor presidente do concelho professor doutor Antonio de Oliveira Salazar, a quem devíamos honras e respeito.
O senhor abade falou em catequese, que eu só mais tarde soube o que era, na obrigação de ir à santa missa, sob pena das penas reservadas aos meninos pecadores, garantindo que essas penas eram castigos muito piores do que as bolhas na pele causadas pelas fustigadas de urtigas quando mentíamos ou diziamos coisas feias.
Depois dos senhores saírem da sala, a minha professora mandou sentar e gritou “silêncio” tão alto, que eu fiquei com medo e comecei a chorar baixinho.
A minha professora era bonita como a minha mãe e não usava chapéus ridículos como as outras professoras. Eu gostava que ela sentasse junto de mim e pegasse a minha mão para me ensinar a fazer o “a” redondinho, mas ela era má quando se zangava e batia nas nossas mãos com a palmatória. Doía muito, sobretudo nas manhãs de inverno. Conforme passávamos de ano, ela foi ficando cada vez mais má e impiedosa no uso da “régua de cinco olhos”, quando não sabíamos a tabuada ou não resolvíamos os problemas de aritmética que ela passava.
O nosso diretor chamava-se senhor Pinho, era gordo e tinha umas mãos enormes, cujos dedos eram tenazes que apertavam e torciam as nossas orelhas com força brutal, se éramos apanhados a brigar com outros companheiros no recreio(…)”
(Parte de um texto no livro do meu caos)
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