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Archive for Junho, 2013

Nina

Ah Nina, como o tempo passou!… A minha pele perdeu o brilho e consistência, meus olhos estão mais fundos e tristes, o rosto irregular e flácido, o cabelo todo branco. Minhas pernas estão cobertas de manchas senis e os braços, aqueles braços que achavas “lindos” quando te cingiam apaixonadamente, os anos distorceram sem dó nem piedade. Um pouco deprimido, mergulho nos abismos da minha alma até sentir-me como que suportado no espaço pelos mesmos misteriosos e finíssimos leitos de cor verde esmeralda já d’antes experimentados. Sinto-me a salvo neste estranho e delicioso plano, que me permite realizar coisas extraordinárias, como ir ao teu encontro naqueles mesmos locais de encontros, furtivos, maravilhosos, de enlevo inolvidável e vivê-los com a mesma intensidade como se os relógios houvessem congelado! É aqui que eu quero estar quando partir…

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Rotina

Quisera-me em ermo sítio, feito beatífico-bem-aventurado-meditabundo, descompromissado escriba!…
Na vida real sou, todavia, um obscuro autômato biológico, urbano, orweliano, dependente de energia monetária, compulsoriamente amarrado ao trabalho remunerado e aos comandos de sistemas faliveis, mutáveis, manipuláveis. Fisica e mentalmente rendido ao final de cada jornada de doze horas, desabo e adormeço seguindo o relógio dos galinácios. Invariavelmente, desperto no meio da madrugada cheio de promessas de modificação de hábitos; invariavelmente, desperto para a rotina – urinar, higienizar, defecar, chuveirar, vestir jeans/camisa/sapato, dirigir na madrugada com destino a mais rotina…

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Amálgama

Trituro, amasso e mesclo despudoradamente a amálgama das intermináveis passeatas  que teimam em pisotear meus pensamentos. Como não tenho o sentido do olfato, não corro sequer o risco de ficar agoniado com o eventual mau cheiro desta mescla, enquanto, descarado, vou modelando caricatas figuras de retórica com a ajuda do que de melhor posso encontrar no  seio do absurdo. Lotes enormes de absurdo enriquecido estão por aí à disposição para uso irrestrito e eu já desisti de resistir à tentação de apropriar-me e armazenar boas quantidades dessa valiosa e gratuita materia prima…

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Junho, 10

A Camões:“…Se te imito nos transes da ventura, não te imito nos dons da natureza” (Bocage)

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São indeléveis as marcas deixadas pela minha formação. Apesar da amálgama de traidores, entulheira de politicos e oportunistas destes tempos, porto no meu âmago a lusitanidade do jeito que me foi ensinada num tempo de miséria pós guerra, em que os males do culto à personalidade, catolicismo exacerbado e opção unica, tinham pelo menos a virtude de nos disciplinar e nos ensinar a amar e respeitar a nossa terra.

“Havia na parede um Jesus crucificado ladeado por duas grandes fotos encaixilhadas, de dois senhores. Um dêles era muito velho com grandes bigodes brancos e vestia um uniforme com uns pincéis dourados sobre os ombros. A minha professora estava em pé, junto de uma grande escrivaninha sobre a qual estavam livros e cadernos, uma varinha e uma palmatória. Abaixo das fotos e do crucifixo, havia um quadro de ardósia parecido com a minha lousa, só que tão grande, que a minha professora tinha de ficar em bicos de pés para escrever alguma coisa na borda de cima.

Eu e os meus coleguinhas estávamos também em pé com os braços postos ao longo do corpo, palmas das mãos para dentro conforme nos ensinaram, dizendo ser a posição de sentido e respeito por um senhor que acabou de entrar na sala e disse ser o diretor da nossa querida Escola. O nosso diretor falou em boas vindas e muitas outras coisas, como disciplina e bom porte, atenção nas aulas e, principalmente, castigos.

Chegou depois um senhor abade, que explicou que o Jesus na parede foi ali colocado para proteger e iluminar todos nós na classe e também os ilustres senhores das fotos que governavam o nosso querido país e eram o excelentíssimo senhor presidente marechal Óscar Fragoso Carmona e o excelentíssimo senhor presidente do concelho professor doutor Antonio de Oliveira Salazar, a quem devíamos honras e respeito.

O senhor abade falou em catequese, que eu só mais tarde  soube o que era, na obrigação de ir à santa missa, sob pena das penas reservadas aos meninos pecadores, garantindo que essas penas eram castigos muito piores do que as bolhas na pele causadas pelas fustigadas de urtigas quando mentíamos ou diziamos coisas feias.

Depois dos senhores saírem da sala, a minha professora mandou sentar e gritou “silêncio” tão alto, que eu fiquei com medo e comecei a chorar baixinho.

A minha professora era bonita como a minha mãe e não usava chapéus ridículos como as outras professoras. Eu gostava que ela sentasse junto de mim e pegasse a minha mão para me ensinar a fazer o “a” redondinho, mas ela era má quando se zangava e batia nas nossas mãos com a palmatória. Doía muito, sobretudo nas manhãs de inverno. Conforme passávamos de ano, ela foi ficando cada vez mais má e impiedosa no uso da “régua de cinco olhos”, quando não sabíamos a tabuada ou não resolvíamos os problemas de aritmética que ela passava.

O nosso diretor chamava-se senhor Pinho, era gordo e tinha umas mãos enormes, cujos dedos eram tenazes que apertavam e torciam as nossas orelhas com força brutal, se éramos apanhados a brigar com outros companheiros no recreio(…)”

(Parte de um texto no livro do meu caos)

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Os olhos que olho no espelho me parecem  menos vivos que ontem. Enquanto esfrego a pele de forma frenética e auto flagelante com a máquina de barbear na tentativa de bem escanhoar os espetos brancos, analiso os pormenores daquele rosto refletido no espelho cruel. Cruel e deslavado mentiroso. Dele eu demando o meu legítimo direito de recusar ser retratado de forma menos respeitosa e passei a exigir correção na exposição da minha cara que me é tão cara e me acompanha desde que nasci. Puz-me a fazer caretas pro miserável até cair na risada. ­­”É então assim, que se chega a doido!”, concluí desgostoso, raspando os pêlos em torno das orelhas. Faço isso vezes sem conta, porque vivo apavorado de, ao deixar crescer a pelagem, amanhecer na pele de um qualquer animal felpudo. Termino o ritual com alguns borrifos de Polo – minha colonia preferida cujo cheiro há muito não experimento por me encontrar completamente anósmico. É assim…Todos os males chegam com a idade. Botei a língua pro espelho antes de sair e arrependi-me. Achei-a muito branca! Será que tenho alguma doença de vaca?!

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A Crise

 

Cores

Uma vez mais, sobrevoo a substancial quantidade de esboços de poesias e textos interrompidos, com motes cuja conclusão sou incapaz de enxergar. Esta crise criativa é real e palpável, mas insisto que seja tão somente mais uma das muitas que de quando em vez me acometem e me desencorajam. Incapaz de escrever, eu leio. Besteiras, sobretudo! Agora, passando um trapo sujo sobre todas as criticas nada favoráveis que fiz a “Fifty Shades of Grey“, eis-me envolvido com a leitura de “Fifty Shades Darker“, segundo volume da trilogia de E L James. Ah sim: Reli, cinquenta e cinco anos depois, em bom inglês, “Lady Chatterley’s Lover” de DH Lawrence, versão sem os cortes resultantes de toda a estupida polêmica e processos dos anos que seguiram à sua publicação. É de fato uma excelente peça de literatura, mas a empolgação ficou longe, comprovando os efeitos brochantes da “septuagenaridade”. Pelo menos no meu caso…

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