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Archive for Outubro, 2012

Jogada

Ora vejam!…Não tenho mais os cinco relógios na direção da minha vista do outro lado do meu monitor! Mudaram-me de sítio de trabalho e eu não tenho porque queixar-me disso. É certo que o movimento neste  tabuleiro afastou-me algumas casas da porta de saída, mas não sei dizer se isso é bom ou ruim porque, nesta altura da vida de peão deste xadrez, eu confesso-me incapaz de prever as próximas jogadas das pedras mais poderosas…

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O chão estava muito frio, todo o meu lado direito incluindo a cabeça, doíam como se tivesse sido atingido por…sei lá…alguma coisa contundente. Eu gemia e levei tempo a realizar que estava ao lado da minha cama. Sim, eu caíra da cama sobre a cerâmica do piso, porque não tenho uns míseros tapetes no greenhouse que estupidamente aluguei em Macaé. Ainda no chão,tateei sobre a cadeira que serve de mesinha, porque o quarto só tem uma unica do lado de bombordo e eu prefiro deitar do lado de boreste, onde não tem espaço para outra.  Encontrei o Blackberry e constatei: Três da matina!!! Escalei a cama para ajudar-me a ficar em pé e depois coxeei penosamente em direção ao  banheiro. Até o dobrar-me para levantar a tampa do sanitário exigiu um esforço danado acompanhado de gemidos e doces palavras. Tentei pôr minhas ideias em sintonia com a realidade, até para não errar o alvo, e tratar de fazer um ponto da situação: a) Ipso facto – Eu caí da cama durante o sono ; b) Tal incidente, que me lembre, jamais havia acontecido em toda a minha vida; c) As áreas amassadas do meu corpo doíam mas nada indicava algum “componente” quebrado.

Voltei para a cama com um sorriso amarelo de vergonha, porque o meu outro eu ria abertamente na minha cara pelo insólito. O filho-da-puta encarnava em mim como se nada tivesse a ver com o acontecido! Deitei de ventre pro ar e logo, instintivamente, me afastei do “precipício” em direção ao meio da cama. Gato escaldado de água fria tem medo e eu sentia-me dorido demais para assumir o risco de um repeteco. Surpreendi-me por me surpreender sem auto confiança: Afinal, pensei, se os meus sistemas deixaram que eu despencasse enquanto dormia, essa porra vai acontecer de novo, ou não acreditasse eu nas teorias do Murphy. Engoli em seco: Estaria eu, velho guerreiro, me cagando de medo do escuro e de cair da cama?!…

O meu sono foi-se e, pela primeira vez pós tombo-da-cama-abaixo, eu pensei nela. A minha companheirinha de cinquenta anos (ou quase) por certo que dormia naquele momento um soninho bom e descansado sem a perturbação do meu ressonar. Imaginei  acordá-la, ela ensonada e aflita atendendo o telefone lá na casinha em Niteroi e eu chorando: “Eu caí da caaaaaaama!…snif…!”. Acabei  por rir imaginando a reação dela e dos tapas que eu iria tomar. Concluí que, velho quase-setentão, gosto de chegar nela dando  uma de criança. Acho que envelheci mas não fiquei adulto.  De repente ocorre-me: Se a minha amada estivesse comigo, eu estaria agarrado a ela e não teria caído!…

Oooops! Sobrou pra ela a causa do meu despenque!…

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Alguns posts atrás eu fiz referência a um caixote cheio de livros doados por um amigo da família no início dos anos 60. Entre os muitos volumes, encontrava-se o must da época em literatura erótica: “O Amante de Lady Chatterlay” que, como é óbvio, se destinava exclusivamente ao meu pai. É extraordinário que, decorrido mais de meio século, eu tenha tão presente a suprema excitação que me tomava as entranhas enquanto devorava e saboreava sílaba a sílaba, frase a frase, capítulo a capítulo, montando minuciosamente na imaginação cada uma daquelas  cenas tão poderosamente carregadas de conteúdo puramente sexual! Esmagado pela avalanche hormonal e pela adrenalina da leitura proibida, todo o meu jovem ser entrava numa espécie de transe de explosivo desejo que, invariavelmente, terminava nas garras de Onan.

Não voltei a ler a obra de DH Lawrence na minha fase adulta mas, depois da recente leitura de “Fifty Shades of Grey”, passei a desenvolver um crescente desejo (ou será necessidade ?) de adquirir o volume. Tenho por certa a tese de que o motivo de tal interesse é o da comparação e das conclusões que disso poderei extrair. Fifty Shades é, a meu ver,  francamente ruim, repetitivo, cheio de clichés, pejado de lugares comuns e conceitos idiotas que tomam o leitor por idiota. A todo o momento a protagonista se refere à sua “inner goddess” que aparece para propocionar-lhe porres hormonais com ininterruptas cadeias de orgasmos que só me davam para rir e mais nadica de nada!! A minha (broxada) reação pode ter tudo a ver com a minha realidade quasi-septuagenária mas, ainda assim, busco auto convencer-me   que não: que é só porque o Fifty Shades é uma bosta mal escrita e que tudo será diferente se envolto nas irresistíveis narrativas de mestre Lawrence nas mil e uma peripécias de como a doce Constance Chatterley entregava doida e apaixonadamente sua Lady Jane  às delícias íntimas proporcionadas por John Thomas, o brinquedo do  rude e vulgar caseiro, que a transportava às mais longínquas galáxias…

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—Ah!…Que pedaço d’asno tu és, meu caro! —Exclama o meu outro eu. —O que te fará dissimular e tentar encobrir a realidade de que é tempo de tomares o curto tempo que te resta, só para ti?!…

Sim, as nossas altercações de sempre voltaram a ser muito mais frequentes, após um razoável período de convivência   um nadinha menos agreste. Agora, ele volta a infernizar-me, aproveitando-se das minhas fragilidades momentâneas (?!) de velho e pesado Condor com dor em tudo quanto é osso e órgão do meu corpo suplicante.

— Mas suplicante pelo quê? —Vocifera ele com voz esganiçada. —Se o teu ideal for continuar a trabalhar dessa forma insana até que a morte te surpreenda sem teres conseguido os teus outros objetivos pessoais que tão caros dizes serem, não há nada para suplicar a não ser por uma providencial bota que te dê de uma vez um bico no trazeiro!

O pior é que esse idiota, minha contrapartida, parece estar lentamente desequilibrando as forças para  o lado dele. Foram muitas as vezes que hoje adentrei os urinóis da vida. Desde a primeira dessas  vezes, detive-me contemplativo nos espelhos enquanto lavava minhas mãos; Juraria que nesta ultima eu estava muito mais envelhecido e descrente de todas as minhas teimosas certezas…

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Das Férias

As férias me emudeceram…

 

É como se só um vazio restasse

 

dos dias que se sucederam

 

que nada de nada me deram

 

do tanto que debalde esperasse

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