A Vanessa Ornella, além de ser uma amiga das mais queridas que tenho nesta vida, é Médica Veterinária e uma soberba pena de ouro impregnada do mais puro e desconcertante talento! Seus textos costumam ser plenos de espaço para boas risadas, mesmo que o assunto seja de alta seriedade ou até com carga dramática. Ela tem o dom único por mim tão invejado de decorar seus escritos aqui e ali com palavraços que perdem sua vulgaridade e se transformam em saudáveis gargalhadas! Seu grau de potencialidade para um livro de muito boa venda é DEZ! A Cora Rónai um dia referiu-se a ela como “sua escritora preferida” mas ela é minha também, viu Cora? A seguir, um copy/paste de um texto dolorido que ela gostaria de não haver escrito, mas que a revela em sua plenitude:
” Eu nunca escondi que sou uma chorona incansável. Choro quando fico presa no trânsito, quando estou no quilômetro final de uma meia maratona, quando reencontro um amigo querido que há muito não vejo ou quando testemunho qualquer gesto banal e anônimo de carinho ou amor explícito; choro lendo a primeira página do jornal, choro de preguiça, de cansaço, de alegria, enfim, eu choro tanto, mas tanto-tanto, que meu oftalmologista já prescreveu, contra as minhas recidivantes mazelas de olho seco, que eu chorasse “um pouquinho menos, Vanessa, porque chorar demais reduz a qualidade da lágrima”. E a minha lágrima, como vocês devem imaginar, jamais levaria um ISO 9000.
Por capricho do destino ou talvez apenas para hipertrofiar minha musculatura lacrimal, descobri na semana passada que a Princesa Radija, minha Pastora Islandesa de 10 anos, tem linfoma. Há umas duas semanas, minha mãe notou uns caroços no pescoço do cão, então pedi-lhe que a trouxesse pro Rio para verificação médica. Na chegada à civilização, na primeira palpadinha que dei naquele pescoço peludão, percebi os caroços – e o calvário que teríamos pela frente.
O linfoma é um câncer incurável no cão, mas seu controle quimioterápico consegue proporcionar aumento de sobrevida com qualidade de vida por “algum tempo”. “Quanto tempo?”, sempre quiseram saber todos os proprietários de cães que já atendi com essa doença. “Não há como dizer. A literatura diz que de seis a doze meses, mas é impossível saber. Cada caso é um caso.” Geralmente, depois dessa má notícia, os proprietários choram. Eu permaneço em respeitoso silêncio até que eles absorvam o impacto dessa bomba atômica, e então digo: “O importante é que nós podemos dar ao seu cão a chance de permanecer com qualidade de vida por muito mais tempo do que se ele não fosse tratado. E quando a gente ama uma criatura, poder tê-la feliz ao nosso lado por mais dois meses, dez meses, quiçá dois anos!… é muita coisa.” Nesses momentos, eu sempre penso nas pessoas amadas que já se foram e por quem eu daria 90% do meu fígado funcional para poder tê-las ao meu lado por uma mísera hora que fosse. Apesar da chorona incorrigível que sou, e mesmo com todos esses pensamentos tristonhos na mente, eu simplesmente não choro porque este não é o momento de chorar: é um momento para alentar e orientar. E é exatamente o que eu faço. Ou o que eu costumo fazer.
Com a Radija, no entanto, eu falhei nisso, e falhei feio. Eu só me perdoo porque, afinal, ela não é uma paciente:ela é o meu cachorro. Ela morou em Santa Teresa comigo quando era filhote, dividimos iogurtes e cama, ela customizou meus móveis e alguns dos meus sapatos e teve o didatismo de me ensinar, em primeiríssima mão, que, apesar de todo seu charme blasé, ela não é exatamente o modelo de cachorro que consegue conviver pacificamente com entregadores, jabutis, micos, gambás, gatos, ouriços e bichos que corram menos do que ela em geral. Foi por todos esses motivos de raiz afetiva que eu precisei pedir ajuda aos meus colegas-amigos para: 1) cuidar da Radija; 2) dar a má notícia aos meus pais.
Ainda bem que eu tenho amigos. A um deles, o Rômulo Braga, o melhor radiologista veterinário do mundo, com quem fiz alguns dos exames de imagem para saber a extensão do comprometimento tumoral, eu disse: ”Quer saber? Ainda bem que eu sou veterinária numa hora dessas.” Eu estava blefando, claro. Ele percebeu e, delicadamente, discordou. Disse que preferia não ser veterinário numa hora dessas, porque conhecer bem o desfecho mais provável de algumas doenças também é muito triste. Ainda me fazendo de fortona, argumentei que, se eu não fosse veterinária, dificilmente teria o amparo carinhoso e espontâneo de tantos veterinários picudos como os que têm me ajudado a cuidar da Radija, como ele próprio, os oncologistas Glauco Mello e Simone Cunha e a nutricionista Paloma. E o Rômulo, que é uma criatura celestial e elevada, sorriu e disse: “Teria, sim.”
Nesse momento, ele me pediu licença e afastou-se para abraçar e beijar uma senhora que acabara de sair soluçando de um consultório da OncoPet. Ouvi-o proferir umas frases meio zen-budistas sobre a vida e a morte e, quando retornou, perguntei-lhe: “Cliente sua, Rômulo?”. “Não. Nunca tinha visto, mas ela precisava dum abraço, né?”.
Ontem à noite, antes de dormir, abracei a Radija no chão da sala, onde ela costuma ficar estirada para escapar do calor. Ficamos ali deitadas em silêncio por algum tempo, de frente uma pra outra, meus dedos afundados em seus pelos macios e sua respiração úmida e morna em meu nariz. Senti meu coração se encharcar de um amor terno e calmo, estável e concreto, como o amor quase nunca é. Apertei sua pata enorme numa das mãos, como quem pega na mão da pessoa amada e, olho no olho, testa com testa, disse-lhe: “Eu jamais permitirei que você sofra.”
Sei que eu choro por qualquer besteira, mas existe uma grande diferença entre o choro à toa e o choro por justa causa. No choro justificado, não são apenas lágrimas pobres e sem qualidade viscosa que se derramam pelo mundo, e sim grossas gotas de tristeza sentida, de onde se pode destilar a própria alma de uma pessoa.
A tristeza maior é saber que o tempo não para – e o cronômetro já foi acionado. Mesmo com tanto verão e carnaval, com tanta beleza e tanta poesia, há momentos em que a gente não consegue deixar de perceber que vida é uma guerra cruel da qual ninguém escapa incólume. (preciso consultar meu oftalmologista)”
Nelsinho, que honra aparecer aqui nas suas mukandas com tanta pompa! Você acertou, preferia jamais ter escrito o texto, mas já que está aí, e já que minha “cã” está aproveitando com extrema qualidade os parcos meses de vida que lhe restam, tenho poupado minhas lágrimas para coisas mais concretas, como as saudades sinceras dos amigos queridos, como você. Em julho, colocarei minhas saudades em dia! 🙂 beijo enorme, Van
Beijo, Vanzinha!