Os meus pés estão do outro lado de um projetor de luz branca e forte. Eu não os enxergo, mas sinto hora o afago das mãos enluvadas, hora as tormentosas intervenções dos ferros que podam minhas doloridas calosidades. Retiro uma revista do suporte junto de mim e tento ler, mas acabo por desistir e optar por continuar imerso nos meus pensamentos que, dou-me conta, interpretam as minúcias que meus olhos vão descobrindo e admirando nos fragmentos visíveis do rosto da podóloga. Rosto lindo, com uma expressão de autenticidade africana, lábios carnudos, vermelhos, pele brilhosa e feliz. Adoro fotografar rostos e aquele mereceria um ensaio de preparação esmerada. Belisquei-me, para acordar para a realidade: O belo rosto é de uma quiropodista em plena função e não de uma modelo. A foto da ilustração, de pouca qualidade, não foi “roubada”, mas quase…
Há várias semanas que não me atrevo sequer a entrar no blog. A verdade é que não é de agora esta espécie de sentimento de auto rejeição e profunda vergonha de reler o que escrevo, o que faz de mim uma fraude, posto que o verdadeiro poeta escreve sem culpa o que lhe dá na telha. Deixar-me arrastar pelo inesgotável caudal de trabalho, tem sido uma forma de justificar o ostracismo literário, do qual tento agora sair com a ajuda das forças que possam acudir-me.

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