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Archive for Março, 2012

Millôr

Pesaroso e pensativo, procuro respostas para as perguntas que sempre me fiz ao longo da vida, toda a vez que alguém cuja obra me toca ou diverte ou seduz de alguma ou de todas a maneiras que existem, se retira do nosso convívio, privando-nos para sempre daquela expectativa de ver surgir sua última criação, frase de efeito, pensamento, crítica, livro: Porque tinha de ser êle (ou ela)?…

Sei que não existe resposta e agora estou especialmente sentido com o passamento de Mestre Millôr, pondo fim aos meus anseios de que ele pudesse ainda retornar por algum tipo de mágica, ou milagre, ou o que  quisessem chamar-lhe…

Um beijo grande, Cora!

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As imagens desfocam e distorcem diante de mim, o meu mundo entra num centrifugador, enquanto todas as minhas forças são empregues na resistência à perda dos sentidos. Algum tempo depois tudo pára abruptamente, uma sensação de enjôo aflora e eu passo as horas seguintes como que caminhando nas nuvens. A ocorrência do disturbio passou a ser frequente e, finalmente, reconheci a necessidade de pedir ajuda. Nos ultimos dias tenho frequentado consultórios médicos e clínicas, que me passaram uma quantidade enorme de requisições para testes ergométricos, dopplers, ultra sonografias e o escambau…

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Tadinha da minha mais-que-tudo! Agora ela se vê forçada a me acompanhar e ficar confinada no green house macaense, enquanto eu vou trabalhar todo o dia. Aquele burgo é insuportável para uma mulher que, como ela, detesta praia. Haja tricot, leitura e internet! Tudo isso, porque virei um fulano absurdamente inseguro e temeroso de estar só no caso de nova ocorrência. Quem diria…O poderoso oilman que se aprazia  encarar os mais absurdos riscos, reduzido a um dependente substrato!

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O Chico Anísio foi-se, finalmente, porque sofrimento tem também seus limites. Ele tinha de fato muitas vidas. Umas duzentas e nove no total, que todavia não foram suficientes para manter seu coração pulsando. Eu, seu grande admirador, digo que o Chico foi, nas artes cênicas, um genial criador de tipos, do jaez de um Fernando Pessoa na literatura.

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Meg

Maria Elisa Guimarães, a Meg, é professora de Filosofia especialista em Filosofia da Ciência e Ética e sobejamente conhecida entre os blogueiros pelo seu “Subrosa” , sítio muitíssimo bem frequentado por pessoas  magníficas e surpreendentes da filosofia e das letrinhas. Como as Artes sempre estiveram igualmente em grande evidência nas suas postagens, o Subrosa permaneceu desde sempre entre os mais visitados dos meus mais visitados favoritos. Além do mais, as discussões de elevado nível sobre literatura, poesia e filosofia eram lugar comum e de atração absolutamente irresistível! O espaço de comentários do Subrosa foi sempre um palco permanentemente iluminado e aberto a quem se sentisse com coragem e segurança para nele subir, enfrentar as luzes da ribalta e encenar com paixão o produto da sua criação.

Há muitos meses que a Meg interrompeu o fluxo do Subrosa, em razão da sua frágil saúde. Os projetores apagaram-se, a sala encontra-se na penumbra, mas eu posso enxergar uma réstea de luz vinda de alguma fonte que resiste e persiste em fazer-nos ver, sentir e crer que, em algum momento, de repente, não mais que de repente, tudo voltará a animar-se com luz, sons, vozes que declamam…

 

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Aniversário

Entre as relevantes diferenças que encontro no meu comportamento decorrentes do passar dos anos, é a de me sentir gratificado ao receber das pessoas, votos de que  “este dia se repita por muitos e felizes anos…”!  Ao recebê-los, acabo por mergulhar numa espécie de auto julgamento por, na juventude, dar às datas tão pouca importância e sequer me lembrar dos próprios aniversários. Recordo um período em que eu vinha todos os dias a casa ao encontro da Nina para almoçarmos juntos e um dia lá encontrei meus pais e a mesa da sala engalanada. “Oh!” exclamei. “É dia de festa?!!” Mamãe ficou escandalizada assim que deu conta que realmente eu não havia lembrado do meu aniversário. Podem  imaginar quantas terão sido as vezes em que fui surpreendido em flagrante e imperdoável falta naquelas datas inesquecíveis, tais como o aniversário dela, do nosso casamento!…

Muito obrigado a todos os amigos que enviaram mensagens de congratulações

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Parece-me terrivelmente longa, esta semana! Muito mais longa que de costume, eu diria…Continuo nesta passada insana e reconheço não ter eu o fôlego que outrora teria. Estou também muito contrariado, porque raspei uma porta da carripana e isso, é claro, me deu uma baita arrelia.

Pretendo, pois, no fim desta extensa semana, ao oitavo ano da sexta década chegar! É evidente que devo comemorar o ter sobrevivido para por mim próprio os contar… Ano após ano, durante tantos anos que, desligado como sou, às vezes me confundo no tempo que ando neste mundo! Mundo do qual não raro na poesia me declaro cansado, mas a que afinal continuo muito agarrado…

Feliz dia Internacional das mulheres para todas as meninas!

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Ahrgh!…

Careço encontrar respostas urgentes, para bem de mim e de ti! No entanto, em vez de respostas, só constatações afloram de que não passo de uma espécie de idosa criança, hora irrascível, hora insuportavelmente frágil, mas sempre pronta a tomar decisões idiotas e perdulárias. A redoma de vidro que aluguei por prêço incompatível para te atrair para esta espécie de Cabinda localizada em muito mais ocidentais praias outrora igualmente lusitanas, só serviu para te afastar de mim, tal o calor não sei se cabinda ou senegalês! Rendido ao termo de doze sólidas horas de labor, o velho cretino aqui, rola rampa abaixo da impossível garagem precariamente iluminada até que… Crrrash… – gemeram as latas do nosso pobre carango. Agora, estou no seguinte dilema: Telefono-te, ou…

…Tá! Tu ligaste e eu choraminguei como uma típica idosa criança! Em compensação, estou com ganas assassinas sobre o f.d.p. que me alugou esta fornalha envidraçada.

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Acreditei por um momento, que seria possivel assumir comigo próprio o “compromisso” de publicar com toda a regularidade uma crônica domingueira. Para isso experimentei-me, envergando a pele de um colunista profissional pago, bem ou ou mal mas pago, a quem não seria tolerada a ridícula desculpa de estar em má fase de criação, et cetera et al…

Esqueci, pois, a por mim bem conhecida característica daquele meu Eu ocasionalmente dotado de algumas ténues fibras artísticas. Por via dessa estranha característica, qualquer manifestação de prazer artístico desvanece-se e torna-se insuportável, a partir do momento em que a atividade se transforma em obrigação, muito principalmente se for paga, amarrada a um contrato, essas coisas do outro lado do que é belo…

É claro que ninguém se acercou de mim e disse que me pagaria alguma quantia amarrada a um frio contrato para eu escrever as minhas baboseiras de blogueiro-poeta-de-ocasião e cronista de fim de semana. Mas eu disse-me a palavra errada no momento errado: “Com-pro-mis-so”! Agora, passo a borracha nas fatídicas sílabas, mas não logrei ainda eliminar seus vestígios…

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Riscos

 

Como seria, se fossemos obrigados a elaborar análises de risco para todas as nossas atividades diárias, mesmo aquelas dentro das portas do nosso domicílio, que é lugar sabidamente perigoso? Humm…Acredito até que poderia ser por si só, um exercício de alto risco. Quero dizer: A constatação de se ter uma vida arriscada a tal nível, que levasse a concluir ser preferível sair dela!

Arriscados e aventurosos foram afinal todos os caminhos que percorri ao longo desta minha vida, sem que me ocorresse fazer uma análise prévia dos riscos que correria. Dos vales às montanhas, das montanhas aos rios, através dos mares ou de imensos areais, savanas intermináveis e densas florestas, em perigos e guerras esforçado a que eu logrei sobreviver. Resisti a malárias e paludismos, ao cansaço, fome, sede, ao fogo dos contrários e às mais irresponsáveis bebedeiras. Sequer em algum momento pensei em eventuais riscos que poderia estar assumindo ao não resistir a um grande e interminável amor!

 

 

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Cissa

Cissa de Oliveira é um dos bons nomes da poesia brasileira atual. Sua prosa é igualmente admirável, em contos ou pequenos textos por vezes surpreendentes nos mais variados aspectos. Não escondo minha admiração por esta professora doutora em biologia molecular que consegue, concomitantemente, gerar tão belas peças  no seu laboratório literário! Desisti de resistir à tentação de enfeitar o meu espaço com esta jóia:

“Três horas e meia e uma calcinha preta

A notícia veio pelo correio, entre outras tantas na mesma carta. Numa frase só, assim, como se nem tivesse importância. Finou-se Luiz Antonio Santos, no dia 17 de janeiro. Morte de passarinho. Instantânea. Alguém pode com uma coisa dessas? Asseguro que não. Não nego, chorei um rio maior do que quando ele me deixou pra casar com a moça da outra cidade.

A carta reli, esmiucei diversas vezes sobre a mesa da cozinha, entre uma e outra ocupação. Depois, mãos úmidas de enxugar prato, deixei-as bem deixadas sob o queixo, cruzadas. Má notícia, má verdade. Há tempos que um do outro a gente era coisa fortuita, fumaça rápida, passagem. Mas agora, morto completo, Luiz Antonio, tu parece é fumaça de casinha longe, crescendo, crescendo e crescendo na paisagem. Devia era de minguar de vez, junto com as lembranças todas. Mas qual o quê, então pensei em ficar desavergonhada dos nossos acontecidos, contar tudo em verso, embonitar os escondidos, alardear do calor que tu, só de me olhar, provocava por debaixo das saias, do filho dos nossos reencontros, que eu registrei só no clandestino, assim, como se fosse bebida falsificada. Ao certo, eu devia era botar tudo num livro, Luiz Antonio, num romance. Vingancinha da boa contra aquela que passava o Natal, a Páscoa, o Ano Novo e todos os aniversários contigo. Água com açúcar de cinema, mas cinema. Sessão da tarde. Propaganda de margarina no café da manhã. Desde menina eu tive jeito pras coisas do lápis e do papel. Lembra que eu escrevia cartas pra quem não sabia escrever? Talvez eu deva aproveitar esta ocasião e dizer que quando a notícia era muito triste, desaforada ou dolorida eu inventava um brilho, consertava um tanto. De feio, naquele tempo, bastava a realidade, a pobreza, a sem gracez dos dias.

Ninguém consertou a má notícia da tua morte, Luiz Antonio, por isso eu caraminholei e chorei bem umas três horas e meia. Foi muito? Foi pouco? Depois, enterrei você Luiz Antonio, enterrei pra sempre, não do jeito que eu mesma me prometia ao final de cada uma nas nossas despedidas. Mas foi o nosso filho chegar, eu te desenterrei por instantes. Desenterrei, ressuscitei. Contei teu nome, sobrenome, procedência. Agora ele já sabe que tem pai conhecido. Defunto, mas conhecido. E como todo defunto merece um luto, Luiz Antonio, decidi: hoje a noite eu vou usar aquela calcinha preta e sexy, presente teu. Ela fica meio escondida nas partes, é sabido, mas tudo bem, porque assim como tu dizia sobre as coisas da nossa vida secreta, o que vale é a intenção.”

Cissa de Oliveira

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