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Archive for Junho, 2011

…os cabelos branquearam,
as peles enrugaram,
os órgãos debilitaram-se,
os olhos cansaram-se,
os pés ganharam calosidades
e os ossos, dolorosas deformidades.
Estamos um pouco menos condescendentes
com esse mundo dos tempos presentes,
mas  a paciência não foi esgotada
embora, convenhamos, um nadinha desgastada.
Não obstante, entretanto,
cresceu muito aquele encanto,
da presença que se sente
sem que o outro esteja presente!
É só o telefone tocar,
que vem a ânsia de que seja  o outro a ligar,
porque se não liga, a gente liga,
só pra dizer “eu te amo”, e desliga!…
É todo um carinho mais carinho,
é um amar mais de mansinho,
é um cuidado, uma atenção,
um chamego, uma afeição,
que massageia o coração…
Hoje, e em todos os derradeiros derradeiros dias de junho

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Improviso

Um dia eu escrevi não sei mais onde: “Improviso-me, porque perdi a partitura com a melodia original e única! “. Como a improvisação é também original e única na medida em que não conseguiria repeti-la, resulta que vou produzindo intrincadas teias de improviso em torno de um tema. O problema é que acabo tendo dificuldade de reencontrar esse tema por entre as teias. O pior,  é que esse tema sou eu próprio!…

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"Utopia"

Sem nenhum objetivo definido, entrei em arquivos de textos há muito esquecidos e acabei por deter-me em uma fase ao mesmo tempo dramática e divertida. Eu  “abri ao público” um restaurante virtual denominado “Utopia”, onde servia uma diversidade de pratos de um cardápio com os “Sabores da Colônia – do Brasil a Goa”, ao mesmo tempo em que colocava nas mesas conceitos muito pessoais de filosofia de vida, dos quais, não raramente, saía sangrando e à procura de curativo. Por resultado de um desses ferimentos, eu escrevi:
“Ofegante, entro no espaço carregando o meu coração de braçado, feito uma mala sem alça, desabando a cada pequena emoção ou desagrado que pinte aqui ou alí…não por acaso, aqui mesmo neste nosso universo… conflito e colisão dos meus visionários desejos. Mirabolantes, explicitos, lindos, mas utópicos desejos.

Coração gozado este meu coração estupidamente mole e otário ao ponto de insistir em apalpar a escuridão do silêncio buscando respostas, acreditando piamente em estórias de fadas, príncipes e lindas princesinhas espalhando perfumadas rosas sem espinhos ao longo do meu espiritual caminho…

Antes que eu saia por aí relinchando e tenha de consultar um veterinário, vou sentar nesta mesa e tomar um bom lusitano vinho. Em seguida, vou  refugiar-me na Pasárgada, com licencinha do poeta…”

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A Moldura

                                          Foto por Luis C Nelson

Dei-me conta que o meu olhar penetra e passa para além das cores vivas da tela do Willard, buscando no infinito o tema que teima em se afastar de mim. Então tá, tema teimoso. Eu te abandono e recuo o meu olhar para a moldura da tela do Willard. A moldura é bonita: Tem um friso negro no meio dos dourados artificialmente envelhecidos. Depois tem faixas brancas e frisos dourados até que a moldura finalmente revela a bela obra do Willard, a qual cansei de contemplar desde aquela noite de 1991, quando a adquiri das mãos do próprio artista. Como pude, durante 20 anos de contemplação, não haver dedicado uns míseros minutos à arte do caixilheiro que fez a moldura?!…

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Lugre

Foto muito antiga do “Ana Maria”

Apertei o último botão da “samarra” e dobrei o grande colarinho forrado de pele de carneiro de forma a proteger o pescoço e os ouvidos do penetrante vento gelado que fazia sentir-me miserável e indefeso, mas ali estava eu estendido de costas sobre o madeirame do convés que ainda fedia a estopa e piche da meticulosa calafetagem a que havia sido submetido no estaleiro.

Encoberto pelos dóris encastelados e já peados para a grande e aventurosa viagem, eu me perdi em pensamentos observando a magestosa mastreação apontando o céu, tentava identificar retrancas, caranguejas, gurupés e via as nuvens passando baixas dando-me uma sensação de movimento e propelindo minha imaginação para a experiência de estar navegando, navegando mar afora à aventura da vida, à aventura dos meus sonhos com os pescadores mais valentes da Terra Nova!…

Subitamente, uma pesada manápula fechou suas garras em torno do meu braço esquerdo com tamanha força e a dor foi tão lancinante, que gritei achando que haviam esmagado meus ossos!
“Anda cá, meu bandidinho, que vais sair daqui preso para a tutoria”, berrava o monstruoso contramestre cuspindo milhões de perdigotos no meu rosto! E lá fui eu arrastado convés afora até uma gaiúta à prôa, forçado pelas estreitas escadas abaixo até à câmara dos oficiais.

A câmara era um conforto só e estava quentinha para que os principes do mar e suas convidadas esquecessem as agruras da friagem externa, enquanto conversavam e sorviam vagarosamente seu chá, mordiscavam biscoitinhos recobertos de chocolate e tomavam licores reservados às divindades!
“Encontrei este miúdo escondido entre os dóris, senhor capitão! Penso que se preparava para sair conosco para o mar como já aconteceu com outro na viagem anterior…”
O velho comandante fixou seus olhos em mim e perguntou: “Que idade tens tu, meu rapaz?” E continuou: “Quem te trouxe para bordo?”

Procurei coragem no olhar misericordioso da linda e distinta senhora à minha frente, enquanto declarava que iria completar treze anos e que pagara vinte e cinco tostões ao chateiro para me trazer à borda e me levar de volta quando eu fizesse sinal, que não havia ninguém no portaló na hora que entrei e que não tinha nenhuma intenção de ficar para sair com o navio!

Um bote do “Ana Maria” devolveu-me a terra depois de muitas desculpas e, enquanto saboreava lentamente o chocolate oferecido pela formosa e distinta dama, voltei-me admirando orgulhoso o magnifico lugre, último dos grandes bacalhoeiros a navegar exclusivamente à vela e que, um ano depois, desapareceria nas águas geladas da Terra Nova!

Publicado originalmente em Mukandas do Nelsinho – Primeira Versão

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À minha namorada

                                            “My Love” – Foto Luis C Nelson

Ausentes estiveram as rosas, neste dia,
mas os espinhos também…
É verdade que me faltou olfato
pra sentir o teu cheirinho,
mas a gripe não me impediu
de sentir  o teu calorzinho…

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Tenho a impressão que plagio um outro eu…
…e que sou uma grosseira fraude de mim próprio.
Não me domino e não percorro sem percalços
os labirintos da minha alma,
que julguei haver conquistado e anexado.
                ++++++
escuto a música límpida de Peter Gast
Rosa do Crepúsculo de Veneza
aqui mesmo no samba-canção
do meu rock’n’roll
Escuto a música silenciosa de Peter Gast
Sou um homem comum…”
(Caetano)

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Diz-me

Diz-me, ó vento passageiro
p’ronde vais com tanta pressa…
Decerto é lugar bem maneiro,
d’alegria o tempo inteiro
e com felicidade à beça!

Diz-me rio caudaloso
p’ronde vais em corredeiras…
Decerto p’rum estuário gostoso
onde calmo e langoroso
te espraias em regaleiras!
Diz-me, meu EU tão lanceiro
P’ronde vais em tal trotar!…
Decerto que aventureiro,
enfrentas o risco inteiro
pros ganhos justificar

Diz-me, minh`alma aberta
qual é a trilha e a hora certa
pra parar e descansar,
Antes que seja o terreiro
que me acolha o corpo inteiro
p’r ad eternum repousar…

Publicado anteriormente
no Recanto das Letras

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